24 de dezembro de 2012

Antes que a Cerveja Esquente

Pra ver no que vai dar
como deixar o cabelo crescer
eu disse certa vez
sobre a vida
sobre a nossa
solidão

essas músicas tristes
e as cervejas que marcamos
e nunca
bebemos
estão ali, na esquina
esperando ansiosamente
a hora de serem lembradas
um cigarro atrás do outro
uma conversa
especulação
entendemos porra nenhuma
sobre
merda alguma

e, antes que a cerveja esquente
antes que fique ainda
mais cara do que está
antes que nossos templos
fechem e virem
igrejas
terminaremos nossa conversa

um cigarro atrás do outro
para ver se
de algum jeito
alguma hora
esse cabelo
para de crescer

18 de dezembro de 2012

Ode à Insônia

Adote um cãozinho
tire uma bela foto
seja responsável
ouça boas músicas
não tenha preconceitos
veja bons filmes
ame, ria, leia, goze
você não tem defeitos

Escreva serto
e beba muito
mas não dê trabalho sempre
fume pouco
aliás, não fume
só maconha, maconha pode

Toque um instrumento
escreva poemas
faça desenhos
dance e deixe os cabelos
e a barba crescerem
seja gentil
seja sincero
mas minta o necessário
ironia, sarcasmo
nada de cinismo
não julgue ninguém
e não fale com aquele estranho
conteste, lute, apareça!
proteste, pense
e vote consciente
vá a passeatas
vá de bike
vá na paz

vá(mos) pro inferno!

12 de dezembro de 2012

Dois Navegantes

Existe um tipo de diálogo que me encanta muito, quando deitados lado a lado, simplesmente nos olhamos, e através desses olhares, em meio aos suspiros e a respiração pesada, recuperando o fôlego, fazemos as mais belas declarações existentes.

Bicho, você tem certeza de que está mesmo em condições de trabalhar? Perguntaram pra mim esses dias, assim que cheguei me arrastando no trabalho, exalando cachaça, com um olho semi-aberto e o outro fechado. Claro que to, poxa, resmunguei de volta, certeza? O pessoal lá embaixo ta preocupado com você, se estiver passando mal e tal, você ta suando um monte, cara! É o calor, respondi, ta foda.

Acho que qualquer dia desses, em que chego abraçando a garrafa de café, saindo de cinco em cinco minutos pra fumar, vão acabar me mandando embora. Agora ainda tem essa menina nova, gostosinha até, mas uma porta com a cintura fina, uma bunda grande até demais, roupa da moda e o cabelo descolorido. Ainda não escutei uma coisa que preste sair da sua boca, e meu chefe, esse mesmo tão preocupado com meu bem estar e sua reputação enquanto pessoa que não deixa vagabundos bêbados trabalharem com ele a adora, o carinho é tanto que ele não consegue fazer mais nada sem sua ajuda, e nem manter mais um simples diálogo sem tocá-la. Nunca a vi se importar, pelo jeito é mesmo amor verdadeiro.

No nosso caso, toque também é o que não falta, mas antes de nossas conversas, nelas, só precisamos estar abertos, um piscar de olhos mais demorado, um suspiro preso, e já sabemos mais um do outro do que em uma conversa de horas. E se os pés então, delicadamente, se encontrarem, talvez estejamos falando demais, talvez, fica mais um pouco, que o café já ta quase pronto.

Já assistiu As Branquelas? Tirando os eventuais bom dia e outras emocionantes conversas profissionais, foi a única coisa que ela me disse, meio do nada, daquele jeito irritantemente ingênuo e abobalhado dela, que? As Branquelas, já viu? Aquele filme duns negão? É! Ela ficou radiante, esse mesmo! Não, nunca assisti não. VOCÊ NUNCA VIU AS BRANQUELAS? Nossa, calma, não, nunca vi, desculpa! É muito bom, eu vi ontem de novo, sempre rio um monte, é, ouvi falar já, mas não é bem meu tipo de filme... E que tipo de filme você gosta? Uns mais sérios, sei lá, ai credo, ela respondeu com uma cara de nojo, odeio filme triste.

Me reservei ao direito de dar a conversa por encerrada, ela também não pareceu fazer questão de continuá-la, então foi lá prestar sua essencial e indispensável ajuda ao chefe.E até hoje me olha como o cara estranho e mal-humorado, que fuma feito um desesperado, não toma banho e só assiste filme de desgraça. No fundo, ela nem está assim tão errada.

E depois, quando já tivermos, em míseros instantes, dito todo o necessário, talvez ainda falemos, sobre o dia, sobre lembranças e histórias engraçadas. Não há um boa noite, um tchau, nem um dorme com deus, alguém sempre só dorme primeiro, mas, por nos abraçarmos, já fizemos todos esses votos burocráticos de bem aventurança possíveis, e, muito mais importante, todas as juras que, sabe-se lá porque, nunca saem de nossas bocas.

4 de dezembro de 2012

Contagem Regressiva

Dobrando a esquina
com um olhar gélido
caminha apressado
em nossa direção

Disfarcemos o medo
pois devemos nos animar
em sua mão ele trás, ansioso
mais alguns dias de tormento
e outras noites em claro

As explosões iluminam seu caminho
os exércitos o seguem triunfantes
os lamentos cantam sua chegada
e os moribundos das esquinas
sedentos por salvação
beijam seus pés

Celebremos!
pois é tempo de festa
ele se aproxima, e podemos ver
se  arrastando em sua sombra
as crianças famintas que dali
nunca escaparão

Montados em suas costas
fumando charutos
cheirando cocaína
os nossos messias da democracia
rodeados por putas
bebendo sangue ingenuo
arrotando o pão nosso de cada dia

Já enxerga o fulgor inquietante
dos mil canais de TV
que saem de seus olhos
e hipnotizam nossos trabalhadores moribundos?

Já ouve a alegre melodia
de passos impiedosos
e seu riso de escárnio?

Então pegue sua garrafa e sua taça
sua roupa amarelada
Ele nos grita, ordena, ameaça
o momento de sua chegada
entorpecidos, infantis, apaixonados
lhe daremos nosso beijo mais ardente
e passaremos a noite toda acordados
com a reconfortante
-mas falsa
sensação revigorante
de paz.

21 de novembro de 2012

Nada Mais de Meio-fio Pintado de Branco

Dia desses assisti um filme besta pra caralho. Não digo nem ruim, besta mesmo.

Esse negócio de lembrança é uma coisa muito estranha, de um tempo pra cá, lembrar tem sido tudo o que venho fazendo. Vários passados, os vários eus que, nesse meu curto espaço de martírio chamado vida, já fui. Assim, sinto que, se houver alguém em algum lugar com poderes divinos disposto a perder tempo comigo, tudo o que esse alguém tem feito é brincar com essa minha carcaça descabelada. Já tem um bom tempo que, toda noite, vem sendo a mesma coisa, sinto um sono infernal, corro fechar a janela, o livro, o notebook, os olhos.

E então começo a lembrar.

As melodias românticas com letras ingênuas que um dia compus reverberam na minha mente com uma clareza assustadora, com os arranjos que idealizei, as emoções que senti. Os primeiros abraços, as últimas promessas.

Os porres que eu tomei escondido, e aqueles que fiz questão de esfregar na cara dos outros. As mentiras que contei de propósito, e as que eu disse pensando que eram verdades. As brigas que nunca aconteceram, todas as lágrimas, uma por uma, que segurei, e os sorrisos amargos, aquelas caretas bizarras, que as sucederam.

E então passo horas acordado.

Filme idiota. Um casal qualquer de adolescentes apaixonados, a tal descoberta do sexo que as pessoas teimam em colocar em qualquer sinopse desse tipo de filme, e que, na maioria dos casos, não passa de um boquete mal feito ou uma apertadinha no peito, um ou outro palavrão calculado. A trilha sonora brega pra porra, aquele cantor maldito. Até ele tinha que me trazer lembranças. Lembranças de muito tempo atrás, e da semana passada. Desgraçado.

Um dia, após vomitar sucessivas vezes na borda da privada, eu apenas me entreguei, passei a noite no banheiro mesmo, suando conhaque e vinho barato, com a gola da camiseta cheia de um vomito avermelhado, fedido pra caralho. Acordei coisa de doze horas depois, sem saber direito com o que tinha sonhado, com a cabeça explodindo. Agarrei a beirada da pia e tomei um gole de água, vomitei de novo, dessa vez, na pia mesmo. Fazia muito tempo que ninguém entrava lá para se certificar de que estava tudo em ordem, nunca me importei muito com isso. Fui até a geladeira, a garrafa de conhaque não tinha acabado, considerei a hipótese fumando um cigarro, achei melhor comer alguma coisa antes.

Depois agarrei o conhaque e o violão, a garrafa acabou, minha pseudo-sobriedade também, as melodias, mais uma vez, voltaram, não sabia se esmurrava o instrumento fingindo tocar, se berrava as letras ou se chorava, fiz tudo ao mesmo tempo, numa cena patética, tão patética que nem no filme idiota que eu assisti ela entraria.

Essas canções eu nunca mais escrevi. Aliás, nunca mais escrevi música alguma.

E ele ia bem até, o filme. O personagem só se fodia, culpa de suas escolhas erradas, ingenuamente egoístas, eu estava me identificando. A descrença com que ele olhava para o futuro, a indiferença quase reconfortante com que ele lidava com sua situação deplorável, sua covardia. Ele era um cara legal até.

Mas então, como em todo filme besta, algo gera um estalo de consciência no herói, ele tem uma reveladora epifania, e decide correr atrás do seu sonho, do seu grande amor que, sabe deus como ou porque, está parado na praia, olhando para o nada, lá, como um poste, dizendo para o mundo, mande o meu grande amor correr aqui até mim, estou vulnerável, e agora vejo como é dele que preciso para ser feliz.

E então temos a cena final. Tudo lindo, a praia, os olhares de cumplicidade, as mãos dadas. Esse filme conseguiu ir ainda mais longe e, como cereja do bolo, colocou um puta cachorro fofinho no meio.

Como disse, filme besta pra caralho. Aposto que o desgraçado que escreveu essa porra ainda compõe canções apaixonadas.

13 de novembro de 2012

Cervejas Quentes no Caminho Para Canaã

Me lembro que havia uma árvore. A gente é tão idiota às vezes. Pela janela do meu antigo serviço, um tanto afastado da cidade, eu olhava para os longínquos pastos e então, quase no horizonte, enfeitando o topo de uma colina, com uma simpática estrada de terra por perto, havia tal árvore.

O calor sempre insuportável, no meio daquele sol desgraçado, eu olhava e contemplava sua sombra, trancado em uma sala com ar condicionado o dia inteiro, aquela sombra é que realmente me parecia refrescante, sonhava deitar ali, pegar um livro, passar a tarde encostado no tronco, lendo e fumando, talvez até um baseado, ficar ali, relaxando, em plena tarde de terça-feira. Mas eu tinha os fatídicos relatórios de sempre. Os relatórios, os e-mails, os telefonemas, os prazos.

Tenho esse problema, de olhar algo que, a primeira vista parece inatingível, e enfiar na cabeça que é daquilo que preciso para ficar em paz. Não costuma funcionar mais.

Dia desses tentei recordar todos os meus amores, todos os “eu te amo” que lancei por aí. Todos os sonhos que já quis ter acreditado, foi uma puta perda de tempo. Tudo passou muito rápido e, hoje, a única coisa em que acredito é que, não importa no que eu acreditar, não vai dar certo.

Um dia eu surtei, no meio do expediente, comecei a sentir um pânico inexplicável, os relatórios pareciam sentenças de morte, as risadas das pessoas me assustavam, eu tremia, com os olhos cheios de lágrimas. As vozes ecoavam de maneira infernal na minha mente, eu sentia que podia desmaiar a qualquer momento.

Então me chamaram para conversar, eu vou morrer aqui, disse, se preocuparam, mas com o funcionário, com o lucro deles, com a máquina que, pouco tempo depois de vencida a garantia, inventou de dar problema. Talvez fosse apenas trocar uma pecinha ou outra.

Não foi, dois dias depois abri mão de tudo o que tinha pra receber, e dei o fora dali.

Ainda perturbado, com a primeira tarde livre em muito tempo, não sabia o que fazer. Olhei para a estrada, lembrei da árvore. Saí na caminhada. No caminho, passei em um posto, comprei um monte de cerveja, e peguei meu rumo.

Então começou uma subida, o sol estalava na minha mente, a cerveja esquentava. Por incrível que pareça, eu não sentia a liberdade transcendental que havia idealizado, a árvore, minha terra prometida após anos de lamúrias e escravidão ainda tinha um deserto em seu caminho. E eu ainda achava que podia desmaiar a qualquer momento, sem falar que aquela estrada vazia a minha frente formava uma metáfora tão óbvia que chegava a me irritar. Sentei num canto, acabei com a última cerveja e acendi um cigarro.

Enxuguei uma lagrima solitária que brotou e olhei para a subida que me esperava, o sol me cegou, não havia uma nuvem para remédio no céu, e eu já estava ensopado de suor. Porra de árvore o caralho, pensei, e peguei o caminho de volta.

7 de novembro de 2012

Poema Sem Título Para um Mundo Perfeito

Quão linda ela é
a câmera a sua frente, discreta
registra seu momento espontaneo
capta o brilho dos olhos
cada fio de cabelo
milimetricamente desarrumado
o sorriso, sincero
o momento, eterno

e as bombas continuam caindo
se quiser, você também os ouve chorar
ainda ontem, perdi minha mãe
e um deus foi massacrado
cortaram sua cabeça
na frente de seus pais
estupraram sua irmã
e seu pai viu tudo
chorando lágrimas de sangue
enquanto lhe davam choques
em nome da paz

quão bem nós estávamos
correndo, rindo, nos amando
a natureza sorrindo para nós
as luzes cintilando em nossas pupilas dilatadas
nossas fumaças formando espirais eternos
nossas garrafas esvaziadas
nossas abraços sentidos
nossos sentidos livres
e a noite, sempre curta
e os dias, sempre eternos
não passa

quão linda ela é
ninguém ousa discordar
desfilando sua enganação
nos corações fracos de jovens perdidos
proclamando sua ruína
com seus olhos tão negros
tão brilhantes

e os lamentos que ouvimos
em meio aos barulhos de metralhadora
não nos importam mais
admiremos a sua beleza
e aproveitemos a noite
o sangue que escorre, não nos atinge
a luz do luar, ainda nos transporta
enquanto houver tempo
para um outro mundo
que, lindo e resplandecente
se eterniza em fotos de sorrisos sinceros
de cabelos esvoaçantes
de felicidade espontanea

quão linda ela é
a humanidade, sorrindo por míseros segundos
assim, a emolduramos
e é esse retrato que seguramos
quando, por um segundo, ousamos duvidar
que somos felizes
pois lá está nosso sorriso
de um instante insignificante
mas eterno

enquanto isso
as bombas continuam caindo.

2 de novembro de 2012

Considerações Sobre os Sentimentos do Sol

Era tudo mais simples antigamente. Ontem mesmo, parecia tudo muito mais fácil. Nove horas da manhã, a luz da aurora me parece tão ingênua que eu quase chego a sentir pena dela. Perambulando pelas ruas, tentando achar o caminho de casa, quando o sol bate em meus olhos e momentaneamente me cega, não consigo deixar de dar um sorriso amargo.

O ralo do banheiro estava com problema, a água simplesmente não ia embora e, na medida em que caía do chuveiro, ia formando uma pequena piscina abaixo de mim, aquela poça ensaboada, tomando o banheiro todo me enchia de agonia.

Tirei o dia para ouvir músicas que não ouvia faz tempo, músicas de um outro tempo, onde tudo era misterioso. Lembro de minha alma clamando por algo. Qualquer coisa. Lembro que, naquele tempo, minha alma ainda perdia seu tempo com essas merdas. Até hoje não consegui nada, e minha alma jaz muda, inerte. Músicas difíceis.

A tarde, quando tentei procurar alguma coisa para comer ou, no mínimo, mastigar e me sentir vivo, olhei pela janela e o sol começava a se por. Logo seria a hora de, talvez, procurar alguma companhia, algum copo.

A água continuava lá, teimosa, empoçada, me desafiando. Já era difícil entrar no banheiro sem molhar os pés, e o sol se punha, ao som daquelas malditas músicas, eu me empunha esse martírio sabe deus porque, a luz entrava fraca pela fresta da cortina, o calor era insuportável.

Meu estomago revirava só de pensar em comer algo, acendi um cigarro, algumas estrelas começaram a aparecer, no horizonte, a luz já agoniava.

A mesma luz que eu vi nascer, enquanto me arrastava para casa, brilhante, esperançosa, agora definhava num horizonte de um roxo fúnebre, para, horas depois, voltar radiante de novo, cheia de esperança.

A luz do sol é, provavelmente, a entidade mais ingênua do universo.

Quando dá as caras, toda manhã, sem falta, ela sempre parece esperar o melhor para o dia. Olhando um amanhecer, talvez você também pense que, enfim, o dia que há de vir valerá a pena.

O cigarro acabou, a noite começou, desisti de comer e fui procurar uma camiseta para sair, entrei no banheiro e a água continuava lá, olhei para ela, esbranquiçada, e vi ali, embalados pelos ecos daquelas canções de tempos distantes, todos os meus antigos sonhos empoçados, abandonados, lentamente, imperceptivelmente indo pelo ralo. Mas não sem antes me perturbarem um pouco mais. Federem, molharem meus pés. Ali, abandonados como aquela água nojenta. A caminho do esgoto.

Talvez você pense que, enfim, o dia que há de vir valerá a pena. Mas ele passa, a luz vai ficando mais fraca, e toda a esperança que você sentiu na aurora, com a brisa suave, a luz pacificadora e a adorável melodia dos pássaros, não passa então de uma agonizante decepção, o crepúsculo tem uma luz tão amarga.

Saí e já era noite. Procurando o primeiro lugar onde eu pudesse achar bebida barata.

Dessa vez, fiz questão de não ver o sol nascer. Nem de entrar no meu banheiro enquanto aquela maldita água e os ecos daquelas músicas continuaram por lá.

19 de outubro de 2012

Era a Única Profecia em Liquidação

Quantas chances ainda temos?
fugimos para os labirintos escuros
mofados e sujos de sangue
das nossas pífias
frágeis
cruéis
e verdadeiras mentiras

Quantos caminhos restam?
já nos abrigamos da tempestade
já corremos de bestas
já nos escondemos de deus
e o que conseguimos?

Um pai passeia com seu rebento
comprando sonhos
e se refrescando com veneno numa casquinha
e o filho busca sua mãe
que descansa como rainha em seu reino podre
com os ratos e a merda
de seus súditos que lhem fodem
e pagam com morte numa lata

Aquele que nos salvará
vestirá vestes brancas e reluzentes
com uma assinatura famosa
e confeccionada por crianças sem alma
chegará em sua carruagem
com ar condicionado e computador de bordo
e dirá a todos os tabloides que
o tempo, enfim, acabou
quem pagou, que saia de seu labirinto
quem se perdeu no caminho
que tenha o que merece
com o minotauro impiedoso
da vida plena, feliz e saudável
que eles, de bom grado
renegaram.

15 de outubro de 2012

O Último Abraço de Boa Noite

Você foi embora, me deixando com meus cigarros, um livro melancólico, uma garrafa pela metade de conhaque, algum baseado num canto qualquer e uma música incrivelmente triste.

Sem saber direito como se despedir você saiu com pressa, procurando as suas coisas que tem um dom incrível de se espalhar pela minha casa. O celular, a carteira, a meia. Uma coisa em cada cômodo, peregrinos de mais uma noite especialmente intensa.

Você saiu assim, como sempre. Eu me perdia no livro e procurava um cinzeiro. Bebericava o conhaque e fazia umas caretas, tentando ignorar tudo o que tem acontecido. Levar tudo naturalmente, é a vida, você diria, as coisas acontecem, ninguém precisa se culpar, nem se responsabilizar.

Você volta que eu sei, cedo ou tarde, geralmente cedo, a campainha vai tocar e você vai dizer apenas que “sou eu”. Depois, como sempre, é tudo um mistério.

Você volta, sempre volta. Mas, às vezes, um pedaço seu, o que mais gosto, está longe, apreciando outras paisagens, sentindo outros aromas, se arriscando, como sempre, em amores diferentes.

Aquele livro que você tanto gosta e deixou aqui pra eu ler estava uma bosta, sinceramente. O conhaque começou a fazer efeito, então terminei mais um cigarro, deixei o livro de lado sem fazer a menor questão de marcar a página e fui dormir mais um pouco. A noite tinha sido muito longa, e eu ainda precisava digerir tudo o que tinha acontecido.

Acordei no fim da tarde, a luz moribunda do sol entrava pelas cortinas de um verde bucólico, deixando essa casa com uma opressora melancolia, pensei em sair, mas seriam sempre as mesmas coisas, então apenas peguei mais um entre os meus milhares de cobertores e deitei em frente à televisão.

Você volta, mas eu desisti de esperar. Sinceramente, agora quem tem que decidir voltar ou não sou eu. Você tocando aquela porra de campainha agora, ou daqui um ano.

E trate de esperar, sei que pra você não será sacrifício nenhum. Então vê se senta logo, enche a sua cara, faz as suas merdas de sempre, e espera. Você ainda precisa criar muita vergonha nessa sua cara pra merecer alguém como eu.

Depois, como sempre, não precisa se preocupar que eu te ajudo a achar sua meia, seu celular, sua carteira e seu coração, que, mais do que pequenas bugigangas, você vive deixando jogado por aí.

10 de outubro de 2012

Eu Já Fui Melhor Nisso

(de escrever, de viver…)

I
Olho ao redor, e tudo se foi
presto atenção, é o mesmo mundo
sozinho, ainda não sei pra onde ir
ainda assim, queria que você continuasse junto

As palavras inesperadas da madrugada
que me acordaram e pareciam sonho
me jogaram de volta ao mar de culpa
habitado por todos os demônios que me envergonham

O ciclo recomeçou
como sempre estou só
Isso, esse poema, tudo
essas rimas forçadas
tá tudo uma merda

II
Só queria um pouco de paz
ser menos egoísta
ter para onde ir agora
pensar com clareza
um abraço
que meu estomago parasse de doer
que não parecesse sempre que estou prestes a desmaiar
parar de me afogar em lágrimas alheias
de enganar
de mentir, mesmo que inconscientemente
queria ter coragem pra ser quem sou
queria saber isso antes
tudo
a vida, o poema, mesmo sem rimas forçadas
continua uma bosta

III
Vou fugir
para onde eu tenha inspiração
para o passado, onde tudo era lindo
e eu, inerte
vou voltar
para qualquer outro lugar
bem acompanhado
talvez só

quem sabe então, não precisarei de artifícios
na minha vida
nas minhas verdades
nem nos meus poemas
não precisarei ficar assim
dividindo-os em partes
nem sei o que elas querem dizer
nem terminá-las com palavrões
pura frustração

Vou fugir
fugir e viver em paz
talvez te leve comigo
não sei
talvez
é foda

IV
Mas, sinceramente
acho que, se você vier junto
depois de tanto tempo
é o mínimo que merecemos
aí então
vai ser do caralho!

2 de outubro de 2012

Não Passa

O tempo tinha virado do nada, eles fugiram, se esconderam, se abrigaram... ainda dentro do bar. Tinham muita coisa pra conversar, muito tempo pra matar, muita saudade.

O tempo tinha passado rápido, para o mundo, para todos, mas, sobretudo, para eles. E, seja como for, foi bom. O tempo, virando ou não, passando rápido ou não, sempre se mostra o senhor da razão, sempre prova saber o que faz.

O tempo fechou de vez, algumas gotas tímidas começaram a cair, dando coragem a outras que, então, encharcaram tudo de uma vez, o tempo não esperava a noite ter o ritmo desejado por eles, e algumas poucas cervejas depois, eles tiveram que ir embora.

O tempo não se importou, eles também não, continuaram baforando, conversando, rindo, relembrando e aproveitando o tempo que tinham, dentro do carro mesmo.

O tempo, esse, fechou, passou rápido, mas, no fundo, os ajudou e, de coração, lhes desejou boa noite.

O tempo, no dia seguinte, era muito mais ameno, muito mais paciente. O dia então parecia desfilar, desistiu de passar assim como sempre, apressado.

O tempo decidiu, enfim, dar a eles o tempo que eles tanto mereciam.

19 de setembro de 2012

Na Contramão Rumo a Guiana Francesa

Estava sentado com um amigo para beber. Conversar, no caso, era consequência, uma vez que ele também nem era assim tão amigo meu.

Que seja, estava sentado com um conhecido aleatório qualquer para beber e repartir a conta, olhar as mulheres, esse tipo de coisa. Mas, e você bem sabe como é, após algumas garrafas um conhecido aleatório qualquer já vira um amigo do peito, e um amigo do peito é aquele que está sempre disposto a ouvir, dar conselhos, brigar contigo, virar o copo, bater ele na mesa, botar a mão no seu ombro e dizer com os olhos marejados que você sabe que eu te considero pra caralho! Você é meu irmão, velho, gosto pra caralho de você, mesmo!

Porém, antes disso, oriundo de algum covil de filosofia barata, ou da preguiça de pensamento mesmo, o meu mais novo melhor amigo veio com um papo qualquer de trilhar o próprio caminho, seguir o coração, só faltou falar pra eu ter fé em deus. Pois bem, justo eu, que não faço idéia de pra onde ir.

Eu estava sentado em um bar que eu não gosto, com um cara que eu mal conhecia e, confesso, nunca senti vontade de conhecer melhor e bêbado. Veja bem, se eu soubesse o que quero da vida, onde chegar, pra onde seguir, o que conquistar, nesse momento eu com certeza estaria correndo atrás desse objetivo, e não gastando um dinheiro que eu não tenho pra ouvir conselhos enlatados de uma pessoa aleatória.

Mas ele, e eu acredito que, coitado, cheio das boas intenções, continuava com o papo, mas existe alguma coisa que você deve gostar de fazer, cara! Sim, existe, eu respondi, gosto de dormir bem, mas também não consigo! E escrever? Aqueles textos que você escreve são legais pra caralho! E daí? Você vai me pagar pra eu continuar mantendo aquele blog de merda? E eu continuava, impiedosamente, esmagando os seus conselhos com a minha já tão treinada desesperança.

Porra cara, desisto! Vou lá fora fumar um cigarro.

E então eu estava sozinho na mesa. Pedi uma dose de cachaça, e estiquei minha perna na cadeira da frente, senti vontade de fumar também, mas deixei quieto, queria aproveitar um pouco o momento sozinho.

Seguir o meu caminho, fazer o que meu coração manda. Grande bosta. A única coisa que meu coração ainda manda eu fazer é buscar, ao menos, me manter vivo. Tudo o que eu queria é saber onde chegar, podia ser qualquer coisa medíocre mesmo, como eu queria ser como esses que se contentam em trabalhar o dia inteiro, só para poderem comprar um celular de ultima geração, parcelar um carro qualquer, andar na moda, sei lá, qualquer merda desse tipo, sabe? Mas, atualmente, até pra levantar da cama eu tenho precisado de uma força de vontade quase sobrenatural, quem dirá para comprar um iPhone!

Eu poderia ter uma namorada sem graça, eu até me enganaria, diria para ela e para mim mesmo que era amor, nós iríamos ao McDonald´s, ao restaurante japonês, ao cinema, as festas de família, eu pararia de fumar, só beberia em ocasiões especiais. Assistiria, todo domingo, o jogo com o pai dela, explicaria para ele quais são os meus planos para o próximo ano, abriria uma poupança para ir juntando uma grana para os móveis e a lua de mel.

Mas eu detesto trabalhar, o mundo que me desculpe, se for o caso, sou o menos digno dos homens e posso lidar muito bem com isso. Mais além, odeio compromissos de família, também odeio McDonald´s e, ainda mais, comida japonesa. Detesto carros, detesto celulares, e detesto, em sua maioria, pais. Nunca consegui juntar um centavo, aliás, nunca consegui fazer nada daquilo que me propus.

É isso. Eu era um monte de merda bêbada sentado com as pernas esticadas num bar qualquer, segurando a vontade de fumar para não ter que voltar a conversar com um coitado que, bem intencionado, queria me ajudar. Eu podia ir embora dali, mas também não teria para onde ir, pelo menos, bebendo, o tempo passa mais rápido e, quando eu deito minha cabeça no travesseiro, apago que chega a dar dó.

Vai ver eu preciso de um grande amor, alguém que chegue e me fale, hei, vamos para a Guiana Francesa viver de artesanato? E então eu, embriagado de amor e falta de perspectiva, embarcaria sem olhar para trás, de mãos dadas com o amor da minha vida, partiria rumo ao meu destino. Será que é isso que é fazer o que o coração manda? O meu coração? Esse pedaço de carne podre sem escrúpulos? Se for isso, o meu se abstém completamente de suas obrigações.

Minha companhia voltou, eu sorri para ele, quando sentou, apontei uma garota qualquer que passava por lá, ele fez alguns comentários obscenos, eu concordei e ri, ficamos um tempo em silêncio e eu bebi um gole da minha cerveja. Começou a ficar constrangedor, então olhei para ele, nos fundos dos seus olhos e disse que sabe o que preciso, cara? Um grande amor, uma porra de um grande amor para ir para a Guiana Francesa! Ah, ele respondeu, mas com uma daquela eu iria até pra puta que o pariu.

Abaixei a cabeça, cocei o queixo, olhei a cachaça na mesa, vi que ela me olhava, peguei o copo, virei, bati na mesa, coloquei a mão no ombro do meu amigo. Brigadão pelos toques, os conselhos aí! Sabe que te considero pra caralho, né velho? Depois, só fui embora. Seguir não o meu próprio caminho, não o caminho que meu coração manda.

Sei lá, só saí cambaleando e fui embora.

13 de setembro de 2012

As Revigorantes Auroras na Companhia de Sérgio Reis

Sempre tem o maldito momento onde eu resolvo procurar meu celular, descobrir a hora, e querer morrer.

É uma idiotice, sou carente, inseguro, medroso e, bem, e sei lá mais o que. Na verdade, não faz mesmo diferença. As horas passam no ritmo delas, às vezes, parecem correr, em outras, se arrastam, tudo bem, deixo para elas o comando do mundo, que passem no ritmo que bem entenderem, desde que me deixem em paz. Mas não deixam.

E os filmes vão só até a metade, os discos só até a terceira música, as conversas só até o esperado, os amores, abortados, as alegrias, passadas no cartão, a paz, enrolada em um guardanapo de papel, virando cinzas.

E as horas, devorando tudo. As horas passando, trazendo as estrelas, a Lua, com seu brilho cada vez mais fraco, e, depois, o Sol, impiedoso, magnânimo, soberbo, arrogante. Eu o vejo aparecer, praticamente todo santo dia pela janela, acordando os malditos pássaros que não calam o bico, e o filho da puta do vizinho, que não vê razão em sua vida se não tomar banho, as quinze pras seis da manhã, berrando alguma musica qualquer do, sei lá, do Sérgio Reis, eu acho.

E nessas horas, quando começa a cantoria, a desgraça da luz da manhã entra pela janela e o mundo acorda, com os olhos vermelhos, correndo atrás do ônibus, batendo o ponto, tomando um café fraco com pressa, pensando apenas nos minutos de cochilo que vai conseguir depois do almoço, é nessas horas em que eu coloco meus pés no chão, procuro meus chinelos e vou até a janela. O Sol queima minhas retinas, e sou acometido por um sentimento de impotência insuportável, lá se foi uma noite, e eu não fiz nada, lá vem mais um dia, e eu não farei nada.

Eu olho as horas, a noite está passando da metade para o final, eu ainda não sinto um pingo de sono, no computador, as mesmas coisas de sempre, coloco alguma música bem calma, viro para a parede, fecho os olhos, e me concentro na escuridão que, por milésimos de segundo eu vejo.

Infelizmente, mais uma vez, minha cabeça não para, quando dou por mim, já estou sentado na cama, encostado na parede, contemplando as roupas jogadas no chão, tentando pensar em algo que não doa, tentando lembrar de algum momento feliz, tentando não sentir vontade de chorar.

Mas as horas passam, e logo vem a manhã, logo vem os pássaros, e logo vem o maldito Sérgio Reis, me lembrando que, pelo menos, eu pude ouvir todas as músicas que gosto pelo menos umas três vezes cada durante a noite. Porque agora vem o dia, e, nele, essas manhãs desgraçadas costumam ser parte mais suportável.

9 de setembro de 2012

A Festa dos Libertos

Estão todos felizes
estão todos se divertindo
estão todos juntos
caminhando sem destino

Estão todos perdidos
na próxima esquina, o mal espera
na próxima vida, confusão
meio homem, meio cédula
mais uma quimera
danação

Estão todos enlouquecendo
estão todos sorrindo
estão todos prometendo
e das promessas, estão todos fugindo

A porta foi aberta
a sombra fresca não existe mais
as verdades incertas
nunca trarão paz

Os castelos demoronaram
as pinturas de protesto, desbotaram
as músicas perdaram a melodia
ecos distantes do que foram um dia

Estão todos felizes
estão todos em seus próprios caminhos
gozando com falsos amores
a noite, estão todos sozinhos

4 de setembro de 2012

Epitáfio ao Imortal

Esqueça as noites que passamos juntos
os sonhos que compartilhamos
esqueça as canções que fiz pra você
cada um dos nossos planos

Esqueça tudo aquilo que ainda tenta se lembrar
com um pouco, o mínimo, de compaixão
esqueça os sentimentos bonitos
e lembre-se do meu não

Esqueça todos os filmes que viu abraçada a mim
esqueça as nossas músicas
esqueça as juras que me fez
que eu te lembrarei das minhas dúvidas

Lembre-se da minha indiferença
e da minha insegurança
lembre-se das mentiras
da minha mudança

Lembre-se de tudo que um dia quis esquecer
achando que assim seria sempre minha
lembre-se das lágrimas que te fiz derramar
e esqueça a minha companhia

Lembre-se das cenas que não queria ter visto
lembre-se da dor que teimava em não ceder
lembre-se de seus novos amores
que não me esquecerei de você

***

Escrito coisa de um ano atrás, em um pequeno caderno que, até então, pensei estar perdido. Pois bem, não há hora melhor para publicá-lo.

31 de agosto de 2012

Apenas Mais um Filho da Puta

Parece que tudo aquilo em que me envolvo está fadado a ficar mal resolvido. Dos meus indiscutivelmente fracassados relacionamentos as coisas mais simples, o único talento que cultivo é o de foder com tudo assim, como quem pede mais uma cerveja num bar qualquer.

Por falar em bar, podia ser ela naquela mesa no fundo, rindo e bebendo tranquilamente, mas ela não parecia carregar o peso um amor que terminou todo errado, sem uma discussão, sem que os dois chegassem a um consenso, sem tapas na cara nem pedidos eternos de desculpa. Só acabou, pararam de se falar, de se ver, de se, veja só que patético, de se amar.

E é assim, comigo, é sempre assim, tenho de lidar com a culpa não só daquilo que eu de fato fiz, porque eu sempre faço muita coisa merecedora de culpa, mas, mais que isso, também tenho que carregar o fardo de saber que nunca me livrarei delas.

Todo santo dia é a mesma coisa, eu demoro a pegar no sono, ou acordo no meio da madrugada e não durmo mais. Às vezes, nas piores ocasiões, eu demoro pra pegar no sono para, duas horas depois, não dormir mais. E fico pensando nesse monte de coisa que joguei fora, assumo a responsabilidade por tudo que deu errado na minha vida sem problemas. Dizem por aí, e sempre dirão, que a culpa é minha, tudo bem, aceito ela, e prometo cuidar bem, é a única que nunca se furta de me fazer companhia toda noite mesmo.

Levantei para ir ao banheiro pela décima quinta vez na noite, no caminho, não sabia se passava perto ou longe da mesa para me certificar, se fosse ela mesmo, eu faria o que? Ajoelharia aos seus pés pedindo perdão? Daria um tapa na sua cara? Cumprimentaria como se nada tivesse acontecido? Pediria seu telefone novo?

Andando assim, a passo de formiga no meio do bar lotado, com a mão no queixo, dando uma de imbecil pra variar, acabei trombando em um mal encarado qualquer, acho que ele me xingou, não prestei atenção. Mas então eu só mirei o banheiro e pronto.

E lá estava eu, com aquela ansiedade estranha, revendo histórias antigas, relendo mentalmente cartas de amor eterno, lembrando, palavra por palavra, de cada ligação da madrugada, quando eu deixava de dormir por estar apaixonado, e não por ter a consciência pesada.

Deitar a cabeça no travesseiro e conseguir dormir. Tem gente que se orgulha porque consegue fazer isso, devem ter uma vida de bosta, uns covardes. Culpas são impiedosas, eternas e sádicas, mas não gosto de quem tem a consciência limpa, de quem não tem algo a esconder, um arrependimento eterno, uma vergonha secreta.

Saí do banheiro, mirei então a tal mesa, ela não estava mais lá, acho que, no fundo, fiquei feliz, vai ver tinha sido apenas uma miragem, uma visão, meu cerebro também tem o direito de rir um pouco da minha cara, porque não. Voltei para o meu lugar e tratei de fazer logo o de sempre.

Existe uma boa parte da minha vida da qual eu simplesmente não me lembro, são aqueles momentos onde apenas nos dizem o que aconteceu, quando quebramos uma lâmpada, caímos de alguma escada, vomitamos no pé do baixista da banda. Danças ridículas, declarações impensadas, ofensas gratuitas, beijos distribuídos.

Existe uma boa parte da minha vida em que eu simplesmente não sei o que quer dizer, são momentos obscuros, distorcidos, onde meu discurso é sempre o mesmo e, ainda assim, eu não o conheço, banalidades, atitudes pífias, apenas um monte de merda que, no final da noite, não representa muita coisa.

Mas aquilo que eu realmente quero esquecer, aquelas palavras duras, aqueles olhares de acusação e decepção, o sentimento de culpa, todas as frustrações exacerbadas, as palavras exageradas, as mentiras mal contadas e as verdades malditas, isso eu estou condenado a lembrar para sempre. Não tem bebida que dê conta.

27 de agosto de 2012

Não Sei Falar Sobre Demônios que Não Existem

Então eu sentei no meio de um pasto que fica aleatoriamente localizado no meio de uma área urbana, sempre o achei um lugar tranquilo, sedutor, uma espécie de oásis no meio do caos e do frenesi da cidade. Ainda mais aquele horário, quase dezoito horas. Saí de uma tarde de expediente especialmente enfadonha com umas latas de cerveja e, pronto, me enfiei no meio do mato.

Eu queria escrever.

Comecei a lembrar do meu dia, meu finais de semana, o monte de merdas que eu sempre teimo em fazer, lembrar como vem sendo cada vez mais difícil olhar pela janela sempre mal iluminada e constatar que, bem, lá vem mais um dia. Largar o travesseiro, procurar o chinelo, dar aquela coçada burocrática na bunda e no saco, respirar fundo e ir lá fora, encarar a vida. Essa filha da puta.

Às vezes eu queria escrever como o Neil Gaiman, ficar falando de sonhos e sociedades secretas de bruxas nos subterrâneos de Londres, talvez uma confraria de demônios expurgados do inferno e colecionadora de almas, solitários fantasmas chorando suas penas na escuridão de um casarão abandonado, qualquer coisa assim. Olhe para o Neil Gaiman, ele nunca parece triste, muito pelo contrário, ele é bem sucedido, todo mundo reconhece, às vezes até demais, sua obra, ele é até meio bonitão. E suas histórias falam de medos ancestrais e, muitas vezes, de horrores que parecem inimagináveis, queria ser assim, transformar minhas histórias em um mar de tripas amaldiçoadas, e pronto. Sem arrependimentos, sem copos quebrados, lágrimas desperdiçadas ou poças de vomito pra fora da privada, ao invés de ter tanta pouca fé nesse mundo, teria fé até em outros!

Nada de corações partidos, apenas membros decepados e heróis carismáticos.

Estava na metade da segunda lata e a luz começou a ficar fraca de verdade, eu já tinha que erguer meu pequeno caderno para o céu se quisesse conferir se o que eu tinha escrito ali estava, minimamente, legível. Estava, até. Dei um longo gole e tentei, no tranco, voltar para o ponto onde eu tinha parado.

Ao longe, passou um carro berrando uma música qualquer da moda, parei de novo, desconcentrado, e tentei entender a letra da música, não consegui distinguir muita coisa, mas não havia muita novidade, o nome de algum carro caro, os cantores tentando convencer os ouvintes de que, melhores que eles na cama, apenas seus respectivos pais. Algo assim, bem poético.

E enquanto esses filhos da puta estavam, provavelmente, tomando algum uísque importado em qualquer lugar com o ambiente climatizado, eu estava tomando cerveja quente, enfiado no meio do mato, segurando, feito um idiota, um caderninho amassado e uma caneta que insistia em falhar, sem enxergar nada. E, pior ainda, querendo escrever algumas merdas de “versos sinceros”.

Me senti um monte de bosta, um infeliz de um monte de bosta de vaca que quer ser poeta, veja que animador! E entendi, talvez, porque vem sendo tão difícil sair da cama pela manhã.

Nessas horas, nunca há um lugar onde eu realmente quero estar, algo que eu deseje mesmo, de fato, fazer nesse novo dia. Olhei para os prédios no horizonte, não havia algupem ali que, naquele momento, eu pudesse ligar e dizer que olha, será que tem como nos vermos um pouco mais tarde? Acho que preciso conversar, dormir bem, me sentir vivo um pouco, pra variar, que acha?

Escureceu de vez, pra ajudar, esfriou também. Uma porra de vento frio passou cortando meu rosto, levantei com certa dificuldade e minha ultima lata de cerveja na mão e decidi caçar meu rumo, sem saber ainda qual seria.

Depois, em casa, resolvi decifrar a minha maldita letra para ver se o que eu tinha escrito no meio daquele monte de mosquitos e carrapichos tinha valido de algo. Estava uma bosta, e algum bicho estranho me picou, deixando uma marca que coça de maneira insuportavelmente eficiente.

16 de agosto de 2012

A Alma Condenada do Negócio Sujo, Numa Bela Embalagem

Então eu só saí de casa e caminhei, lentamente, até o boteco que fica na esquina de onde morava antigamente, os bêbados residentes daquela sarjeta me reconheceram e, antes que começassem com o papo de “iae Cabelo, sumiu hein!” me pediram um cigarro, eu disse que não tinha, na verdade, pretendia comprar um maço, uma vez que esse boteco ainda vende os maravilhosos cigarros importados por ainda mais maravilhosos dois reais.

Foi aí que um deles, muito mais velho que todos, que tentava, em vão, se manter ereto usando um taco de sinuca como apoio me deu um maço quase inteiro. Porque você merece, é gente boa, Cabelo! Agradeci radiante, ele ainda fez questão de me pagar uma dose de cachaça, que aceitei sem cerimônia, então peguei meu vinho e desci de volta para minha casa, não me aguentando de felicidade.

Certa vez, um amigo me disse que, na verdade, eu gosto de ficar triste. Que faço meus comentários depressivos e maledicentes como se fossem precisamente calculados, que, na verdade, nem sou assim tão desgostoso da vida, que só acho bonito.

Pois bem, não, eu não sinto, necessariamente, nenhum prazer vendo a vida em tons de sépia, mas sei lidar muito bem com esse fato. As pessoas sempre me dizem, inclusive, que eu não pareço ser a pessoa que digo que sou.

Que bom.

O fato é que, para mim, não há o menor problema em não estar bem, em sentir, vinte e quatro horas por dia, um aperto idiota no peito, em nutrir, do nada, desprezo por qualquer coisa, em buscar fugas fáceis, fugazes, mas prazerosas, a esse maldito fardo chamado vida que um dia decidiram que, sabe-se lá porque, a gente merecia carregar. É mais digno e eficaz do que buscar paz interior, equilíbrio, ou qualquer merda do tipo.

Não há nada de errado em olhar para o mundo e ver que ele é feito, apenas, de um monte de gente fazendo de tudo para parecer aquilo que não é, se matando para tentar ser mais do que o outro, falando de amor mesmo sem nunca ter chegado perto de amar alguém, um monte de corpos se destruindo, se enganando.

Eu não sou o que sou porque gosto, apenas aceito muito bem esse fato. Talvez seja por isso que, socialmente, eu até consigo me manter no limiar do aceitável.

Acontece que a felicidade, a alegria e o alto astral, essas filhadaputagens todas, como as conhecemos, não passam de uma bela e genial jogada publicitária, você pode abraçar árvores, rir para os pássaros, andar rodopiando e cantarolando uma bela melodia o dia inteiro, você pode sonhar toda noite com unicórnios, até ter um cachorro idiota com nome mais idiota ainda num sobradinho amarelo em um lugar onde o clima é sempre ameno e não existem vendedores ambulantes nem caixa de correio por onde chegam as contas. Pau no seu cu, de duas uma, ou você toma certinho os remédios que o médico receitou, ou você mora em uma propaganda. Espero que te paguem bem pra isso, pelo menos.

Ao chegar em casa, com minha garrafa de vinho vagabundo e meu maço de cigarros ganhado, eu já não me sentia assim tão feliz.

Agora, que a garrafa acabou de acabar, muito menos. Vai ver é porque essa história nunca renderia um comercial.

13 de agosto de 2012

Lembranças Apagadas, Dor de Cabeça e Um Café de Bosta

Me lembro muito bem que, quando criança, adorava andar deitado no banco de trás do carro e observar as árvores passando sobre a minha cabeça. Não sei por que, mas para mim, eu nunca estava apenas indo para a casa, ou para a escola, ou para onde fosse quando estava nessa posição, deitado no banco, olhando as árvores, eu estava indo para qualquer lugar melhor, um lugar onde a paz de apenas observar todo aquele verde era duradoura, um lugar bom, um lugar tranquilo, um lugar que, enfim, que nunca chegava.

Minha vida é particularmente desinteressante, não faço nada que mereça crédito ou destaque, não cultivo nenhum grande talento, nenhum hobby descolado ou qualquer outra qualidade excepcional que faça com que as pessoas desejem minha companhia, na verdade, as vezes eu sinto que elas fazem é questão de não serem vistas comigo. Sou sempre o ultimo a ser citado, convidado ou lembrado, e, na maioria das vezes, acaba sendo sempre por educação mesmo. Ao menos elas ainda se importam em serem educadas.

Portanto, uma das únicas coisas que me deixa realmente frustrado, é quando o café que faço sai uma merda. Veja bem, eu sei fazer absolutamente nada. Não sou um grande músico, não desenho, não sou bonito, não canto, não sou simpático, não danço, não sou engraçado nem carismático, não sei nem andar de bicicleta direito. Mas sei fazer café, é um dos únicos prazeres que ainda faço questão de cultivar, um dos únicos momentos do meu dia em que dou valor, uma das únicas coisas que me faz sentir vivo, e, às vezes, ainda dá errado.

Me sinto um merda, mais do que de costume, fico com vergonha, frustrado, com raiva! A vontade que dá é de quebrar a cozinha inteira. Sou tão patético e deprimente que posso ficar dois anos seguidos retido na faculdade, mas o que me frustra e deixa triste é quando não consigo fazer um café bacana.

Um dia, eu inventei de deitar no banco de trás durante uma viagem, uma das únicas lembranças que tenho com meu pai, não me lembro para onde estávamos indo, só sei que uma manhã, do nada, ele apareceu em casa, o que já era, por si só, uma novidade, pois bem, além dele aparecer, ainda disse que a gente ia viajar, eu então só entrei no carro e fui com ele.

Mas não há árvores na beira da estrada, pelo menos não naquela.

Era um dia particularmente feio, nem completamente nublado, nem ensolarado, um daqueles dias onde as nuvens são cinzas demais e, ainda assim, meio espalhadas, mortas, não dá nem para enxergar desenhos nelas. A luz do sol é apagada, não há pássaros, nem vento, nem vida. Um céu morto, para um dia abafado, um céu morto, para um dia morto.

E eu queria ver árvores, árvore, poste, fio, árvore, árvore, fio, poste.

Não sabia para onde estava indo, não sabia por que tinha ido viajar do nada com meu pai naquele dia feio, o céu não estava bacana, eu não sentia nenhuma paz, nenhuma alegria, só angustia e desespero, além disso, sempre tive medo de estrada.

Me lembro perfeitamente, fechei os olhos e chorei em silencio o caminho inteiro, fingindo dormir, e torcendo para estar em casa o quanto antes.

Hoje, voltando para a casa, lembrei desse dia, o céu estava ensolarado até demais, seria um belo dia para eu deitar no banco de trás e sonhar com um mundo bom, mas, com um metro e oitenta e seiláquanto de altura, fica um pouco inviável fazer tal manobra, além disso, andar de carro tem sido luxo, eu estava a pé, pra variar.

Cheguei em casa com uma dor de cabeça filha da puta que não passou até agora, não havia ninguém, novidade. Resolvi tomar um banho e fazer um café.

Que ficou uma bosta. Sinto, até agora, que foi o pior café da minha vida. Acabei com o bule como quem toma veneno apenas para que ninguém de casa percebesse a merda de café que fiz.

Olhei pela janela da sala, dá pra ver algumas árvores do mesmo angulo em que eu as via do carro se eu deitar no sofá, nunca tinha percebido isso.

9 de agosto de 2012

Silenciado

Uma bela noite de segunda-feira, o clima estava ameno, o céu estrelado, o trânsito estranhamente tranquilo, as pessoas sorridentes, e eu, um pouco mais que o de costume, querendo morrer.

Então, no caminho de volta para a casa, pensei que precisava de alguém, não alguém para fazer sexo loucamente a madrugada inteira, não alguém para encher a cara, isso eu faria sozinho, se tivesse dinheiro, não alguém para jogar conversa fora e esquecer os problemas do mundo. Precisava de alguém para ouvir, abraçado a mim, as minhas amarguras, tudo o que deu errado no meu dia, para acariciar meu cabelo, dar algum conselho enlatado não pedido que eu não iria seguir. Alguém, sabe?

Então, lembrei de você, pensei em passar na sua casa, aparecer assim, do nada. Eu até tinha a desculpa daquele livro que esqueci aí. No caminho, fumei incontáveis cigarros, andando na velocidade de quem vai para a forca, pensava se estava mesmo fazendo bem, não descobriria se não o fizesse.

Você me recebeu de braços abertos, até. Vim buscar meu livro, eu disse, forçando um sorriso simpático, deve ter parecido uma careta, mas lembro que, no esforço para fazê-lo, não consegui falar direito. Ou seja, você até me recebeu de braços abertos, mas o melhor que eu consegui fazer foi uma careta e grunhir.

Que? Você respondeu daquele seu jeito, já sem paciência, meu livro, dessa vez, desisti do sorriso e das frases longas, ah, ta, sobe aqui.

Tomei um daqueles seus chás estranhos, perguntei se estava tudo bem, estava, você disse, não perguntou como me sentia. Não esperei, comigo não está, lancei assim, sem cerimônia, não estava mesmo. Você não pareceu se animar, devia ter pensado que eu usei a desculpa do livro para, logo que acabasse o chá, começasse com uma conversa mole sobre estar com saudade, sentasse mais perto, alisasse seus cabelos, falasse que adoro quando você se faz de difícil, soltasse mais alguma piada besta, virasse seu rosto para mim e te beijasse, depois, no outro dia, quando acordássemos, quem sabe eu esquecesse outra coisa na sua casa.

Mas não, aquela noite, mais que tudo, eu queria desabafar, nem pensava, a priori, em dormir com você, idealizava apenas um romântico beijo de despedida, com os olhos marejados, depois um longo abraço, onde eu beijaria a sua cabeça e diria que porra, só você pra conseguir fazer eu me sentir tão bem assim tão rápido, sussurraria um obrigado, e beijaria sua cabeça de novo, emocionado.

Pois bem, embora um pouco decepcionada com o rumo estranho da visita e da conversa, você perguntou o que eu tinha, era tudo o que eu queria, então, comecei.

E falei, falei, falei, segurei o choro, pelo que me lembro, pelo menos umas quatro vezes, você ouvia, distante, e eu falava, cruzava as pernas de um lado para o outro, apertava meus dedos, mordia os lábios.

Ao fim de tudo, eu nem me lembro o que você disse, mas não me deixou melhor, não mudou a minha vida, não me emocionou, não foi nada demais. E não porque você tentou e não conseguiu, e sim porque você, simplesmente, achou todo o meu desabafo um saco, nunca foi para isso que você se envolveu comigo, esse tipo de coisa em mim, você nunca buscou.

Relações modernas, romances modernos. Quando estamos juntos, é lindo, assistimos a qualquer programa idiota de domingo abraçados no seu sofá minúsculo e sem nem olhar para a televisão, de madrugada, caso um de nós perceba que o outro está dormindo meio longe, fazemos questão de logo puxá-lo para junto. Mas depois, caso nos encontremos na rua, nos cumprimentaremos com um beijo no rosto, conversaremos algo genérico por três minutos, prometeremos um ao outro nos vermos em breve, pode até acontecer, pode não, não costuma fazer diferença. E então, num final de semana qualquer, se um liga para o outro para, não sei, quem sabe tomarmos uma cerveja, fazermos algo hoje à noite, e o outro não puder porque, sabe o que é, minha mãe morreu, ou então, não sei, tem uma faca atravessada na minha garganta, quem sabe na próxima semana, ou na próxima vida, aquele que ligou vai lamentar, apenas, porque sabe que vai ter de se contentar com algum site de pornografia, uma vez que o infeliz da faca na garganta era sua ultima opção, e, semana que vem, tem aquela festa que não quer perder.

Depois da sua consideração genérica ao meu desabafo exagerado, um certo clima estranho se formou, olhei para os lados, vi as horas, bati a mão no meu livro em cima da mesa e, bem, é isso, vou indo.

Você não insistiu para que eu ficasse, você sequer mudou a sua expressão facial, nos despedimos com um beijo insosso e um meio abraço constrangido, ainda alimentei uma esperança de que, me vendo indo embora, você, sei lá, perguntasse se hey, espera, ta tudo bem mesmo? Não aconteceu, claro, e tomei meu rumo.

Foi por isso que, chegando à frente do seu prédio, eu simplesmente desisti e fui logo para a casa me trancar no quarto e passar o resto da noite, que seria longuíssima, rolando na cama e sentindo pena de mim mesmo.

4 de agosto de 2012

Eu e Minha Cara de Retardado

Falou brincando, sem maldade, logo após soltar a tal frase, deu um riso de constrangimento, daqueles que a gente dá quando não tem nenhuma privada por perto pra enfiar a cara, ainda assim, sem deixar o clima de brincadeira se esvanecer.

Eu ri também, na hora, mandei para os diabos, abstrai, sou mesmo mestre nisso, é só o que faço, abstraio brincadeiras idiotas, comentários desnecessários, rejeições, os outros me fazendo de otário, dinheiro que não me pagam, ligações que não me fazem, as que eu faço, abandonos, tudo. Só abstraio.

Sempre penso, foda-se, sabe? Se algum coitado precisa chamar atenção expondo a fraqueza dos outros, o maior problema está com ele, e não comigo, o suposto fraco da história. Pelo menos assim, todo mundo sabe o quão deprimente sou eu, fico nessa, sem reputação a zelar, sem dignidade a manter.

Já o fodão tirador de sarro, na primeira vez em que for exposto, vai desmoronar, partir pra briga, xingar a mãe, sair correndo, acabar com a amizade. Eu não acabo com amizades por causa da fraqueza dos meus amigos, já são raros, se eu for levar em conta os defeitos, então!

Foda-se, daqui uns anos não vou mais ver noventa por cento das fuças de todo mundo que me cerca mesmo, não vou ficar me desgastando pra criar alguma honra ou coisa assim, nem parece fazer sentido, por deus!

Era eu numa festa, uma qualquer, uma dessas de sempre, com algumas pessoas de sempre e outras que você nunca viu, nunca vai ver, e nunca farão diferença. Cambaleando, enchi meu copo e dei uma volta sem sentido no lado de fora, percebi então que as únicas coisas que havia ali eram umas arvores meio mortas e um casal qualquer já nas preliminares, as arvores até pareceram um bom lugar para sentar e descansar um pouco, mas, sabe como é, eu ainda precisava de mais uns três, quatro copos pra não ligar se estou empatando a foda de alguém.

Voltei, a musica estava uma merda, terminei o copo que estava bebendo e enchi outro, achei um conhecido com um chapéu particularmente bizarro, muda esse som aí! Ele me disse que já tinha colocado um Doors na lista, pronto, legal, pensei. Olhei um pouco para a cara dele, com aquele chapéu, lembrou alguém famoso, Alceu Valença, Oswaldo Montenegro, Zé Ramalho, Tiririca, sei lá, não lembro na verdade. Então eu lhe disse, com a mão no ombro, tom de voz camarada, cuspindo cerveja no ouvido do infeliz, ele concordou, disse que alguém já tinha lhe dito isso, rimos juntos e tomei um gole da cachaça dele. Começou o Doors, continuamos conversando sobre qualquer coisa.

Eis que chega uma qualquer, do tipo mamãe-quero-ser-bonitinha-e-alternativa, cabelo pintado e preso de forma bizarra, não sei como diabos não estava com uma lateral raspada, maquiagem estranha, vestido curto, tudo milimetricamente calculado para parecer relaxado e moderninho, devia ter alguma tatuagem bem colorida perdida por ali. Acendi um cigarro.

Deve ter sido fã de Crepúsculo aquela porra, só veio dar tchau para o meu amigo, me cumprimentou também, logo após o beijinho burocrático, cutuquei ela, apontei o meu amigo, não parece o Tiririca?

Os dois riram, quanta alegria!

Trinta segundos de conversa com o Tiririca depois, sinto alguém cutucar meu ombro, olho para trás e levo um sonoro e eficiente tapa na cara de alguém que, pelo menos até onde pude ver, tinha mais pelos que o normal.

A massa peluda simplesmente saiu andando, descobri depois que era namorado da fã reprimida de Crepúsculo. Na hora, o que eu fiz quando um maluco veio e me deu um tapa na cara?

Eu abstraí, dei risada, peguei mais um copo, e sentei embaixo daquelas árvores até alguém me fazer companhia, o casal que antes estava ali, eu já tinha conhecido bem.

Mas não sem antes passar no banheiro e conferir se não estava com uma bela marca de cinco carinhosos dedos estampados nessa porra dessa minha cara de retardado.

30 de julho de 2012

Pelas Lágrimas que Não Derramo Mais

Queria voltar a falar de amor
mas hoje não dá
amanhã, se minhas lágrimas tiverem secado
não hávera nenhuma alegria com o sol apagado
e essa será apenas mais uma mentira de deus

Ontem o que escrevi me assustou
senti um pouco de vergonha
fiquei um tanto decepcionado
com tanta auto piedade
com tanto fatalismo
com tanta fraqueza

Queria voltar a falar de amor
mas acabo sempre me enganando
e falo de frustração
mas acabo sempre te enganando
e falo de remorso
mas acabo sempre acabado

Queria voltar a falar de amor
pois assim, teria alguém para fazer incontáveis promessas
que nunca serão cumpridas
sussurar mentiras no ouvido
e gritar absurdos atrozes
pra não te perder, meu bem
alguém disposto a me salvar
sozinho, não consigo
sozinho, não quero
pois de mim, já desisti
de amar, não

Me peguei pensando em você esses dias
e me desculpe se não senti saudades
mas não posso negar o bem que você me fazia
não se iluda, não sinto tua falta
mas sinto falta de te amar

Queria voltar a falar de amor
mas hoje,
hoje é impossível
talvez amanhã
desde que minhas lágrimas não sequem
mais que falar
queria voltar a chorar por amor
pois os mais lindos poemas
não passam de uma lágrima
em um papel em branco.

20 de julho de 2012

Como Fazer Novas Amizades

O foda é que eu não tinha um centavinho no bolso, nessas horas, pra beber a gente perde o critério, a vergonha, a dignidade.

Era um gole aqui, outro ali, um arranja um vinho desse aí pra mim, bicho! Pra lá. Ainda consegui comprar umas latas de cerveja no cartão, porque bom mesmo é beber cerveja, ainda mais no frio, que ela não esquenta nunca, diferente daquele calor desgraçado, onde você tem é que beber rápido, pra ela não esfriar, de tão quente que fica aquela merda.

E tinha alguma coisa errada comigo, o dia inteiro, era um tal de querer falar com todo mundo, senti, o tempo todo, que eu estava atrás de alguém, que precisava falar alguma coisa pra alguma pessoa que eu não sabia o que era, nem quem era. Uma bosta.

A única parte boa é que, andando feito um louco de um lado para o outro, eu sempre conseguia bebida.

Mas a sensação continuava terrível, uma hora não agüentei e sentei, um conhecido, acho que era um conhecido, nessa hora as bebidas “honestamente roubadas” já tinham começado a fazer efeito e eu nem lembro direito da pessoa.

“Tá perdido aí?”

“Não, só colocando a vida em ordem, um pouco”

A pessoa assentiu com a cabeça, eu acho, e foi embora. Fiquei pensando um pouco e comecei a rir sozinho, feito um louco, colocar a vida em ordem, a piada da noite.

E a peregrinação continuava, pra ajudar, eu não tinha cigarro também, então eu basicamente ficava dando uma de idiota, bêbado, falando com todo mundo que eu julgava já ter visto uma vez na vida, pegando bebida, pedindo cigarro, conversando um pouco e dizendo, com toda a sinceridade que são cinco minutos, cinco minutos eu volto e, claro, me perdia e não voltava.

Pra variar, devo ter feito algumas merdas, provavelmente falei muito do que não devia, enquanto eu não encontrava a tal pessoa que eu tanto queria encontrar sem saber quem era, eu tinha pra mim que estava, basicamente, magoando os outros enquanto roubava suas bebidas e, ironicamente, andando sem parar, sem calar a boca um segundo, com um sorriso no rosto, eu sentia uma solidão terrível.

Aí eu parava de novo, pra colocar a vida em ordem, né. Só que nessas outras vezes batia uma vontade estranha de chorar, de abraçar alguém.

Vai ver é isso, eu acho que eu estava procurando alguém pra poder abraçar e chorar. Lógico que não encontrei, é muito mais fácil encontrar pelo em ovo do que alguém pra você poder se jogar nos braços e se debulhar em lágrimas, assim, sem explicação.

Mas, claro que não, sem motivos. Aliás, quando choramos assim é justamente porque todos os nossos motivos simplesmente se embaralharam, chegaram num nível doentio, ao ápice, é quando você está explodindo, e então só chora.

Se encontrar alguém, claro. Caso você não encontre, você bebe, era o que eu fazia.

E depois de uma peregrinação meio sem sentido atrás de comida no fim da madrugada, e mais uma pra conseguir um cigarro de palha, eu, simplesmente, desisti.

E tive como companhia um cobertor velho fedendo cachorro, chulé, cigarro e cachaça, num velho ácaro cheio de furos, com um pouco de sofá, e uma garrafa achada de vinho.

16 de julho de 2012

Diálogo da Gênese da Nossa Salvação

- Não existe eternidade                      
Não existe tempo
Não existe amor
Não existe deus
Não existe vida
Não existe Natal
Não existe coelhinho da páscoa

Só existe o que não queremos acreditar
Só existe solidão
Desilusão, enganação, trepanação, lobotomia e terapia de choque
Só existe o choro, a morte, e a dor.
Só existe minha mãe e o colo dela, cheio de espinhos
Só existe minha cama e minha insônia.
A janela sem cortina por onde o sol bate forte
E queima meus sonhos
Só existe o trabalho e o sofrimento
Só existem as drogas e as fugas
Só existe o dinheiro correndo nas veias dos nossos deuses e heróis
O veneno cuspido pelos arcanjos em nossos pratos de lavagem
Só existe o massacre dos bons tentando salvar a terra de nossos corações
E o nosso sangue na taça da santa ceia de natal de Satanás.

Só existe a heresia
E não existe eu há um ano
Não existe eu há dez anos
Dez, cinco, minutos, segundos.

O passado é uma ilusão
Não vivemos nosso passado
Não temos futuro.

Não existe.
Não existe aquilo que existe em nossos corações.

Melhor é sairmos daqui
Melhor é esquecermos tudo isso
Melhor é nos abraçarmos e tentarmos ser bons
Amor não existe!
Deus não existe!
Vida não existe!
Coelhinho da páscoa não existe!
Melhor é tratarmos logo de inventá-los
E pararmos de achar que conseguiremos algo.

Nós nem existimos

- Que bom!

14 de julho de 2012

Um Para Ela, Que Conheço Tão Bem

Sempre idealizando, sonhando, achando que, dessa vez, as coisas vão dar certo.

Parei para observá-la, parada num canto, olhando para a frente, um olha vazio, de quem olha mas não vê, a vontade que deu, foi de chegar e dar um abraço, dizer que sai dessa, menina, não percebeu ainda que desde o primeiro dia em que somos obrigados a respirar esse ar putrefato, não passamos de meros contribuintes?

Amor deus felicidade alegrias leves e fugazes sexo critica amargura drogas musica televisão hot pocket sadia rock and rol, sertanejo universitário intelectualidade carro do ano pornografia cigarros ipod novela suco de goiaba. Não passam de artifícios para nos fazer esquecer esse fato. Mas ela continua na dela, de mirar o horizonte, sonhar, imaginar, sempre achando que, finalmente, vai encontrar um pouco de paz. E, cada vez, a frustração é maior.

Não sabe aproveitar os dias que, aleatoriamente, dão certo. O problema dela é que, sempre que algo bom acontece, ela é ingênua o suficiente para achar que as coisas vão continuar assim, mas o mundo, as pessoas, são inconscientemente, ingenuamente, cruéis.

O cara que ela conheceu ontem, e hoje a beijou como se ela fosse a única mulher do mundo na verdade só estava bêbado demais, pensando na ex, sem saber direito o que estava fazendo com ela em seus braços.

Mas ela não queria saber, tinha encontrado seu príncipe

E se, uma semana, um mês, um dia, uma hora depois, ele estiver beijando outra, talvez a tal ex, também como a única mulher do mundo, na frente da nossa amiga, ela vai tentar acreditar que essa vontade de chorar, na verdade, é por causa da música que está tocando, esse sentimento estranho, esse aperto, é culpa do filme que ela viu ontem, todos esses copos esvaziados com tanta rapidez, é sede, e nada mais.

Sede de felicidade, tadinha.

Um abraço. Era tudo que ela precisava, perdida na ingenuidade, na esperança de que um dia, ela não vai precisar ficar mirando o horizonte com os olhos cheios de lágrimas por essas insignificâncias.

Tem gente morrendo de fome, tem gente matando e morrendo por um lanche, tem gente desesperada pra achar um lugar pra dormir, tem gente chorando de frio. Mas o que arranca lágrimas dela é um coração teoricamente partido, uma frustração de uma noite. Não que choremos pelos desgraçados do mundo, mas enfim.

E ela fica pensando que a culpa é dela, que tudo da errado porque ela estragou, que ela conseguiu foder, inconscientemente, com toda a sua linda fantasia, com todo o seu bucólico e romântico sonho, ela sonha, ela cria a ilusão, pra ela mesma destruir tudo, feito uma idiota. Ela tem certeza de que a culpa é dela, de que o problema é ela.

Um abraço.

Fui fazer a boa ação, metade encantado, metade compadecido.

Então ela me empurrou, estranhando o desconhecido que chegou com cara de bom moço e os braços estendidos, e descobri que, na verdade, ela só tinha enchido a cara e estava, provavelmente, pensando em, como diabos, ia dirigir até sua casa.

2 de julho de 2012

A Cura Pro Meu Vício de Insistir…

“tentei chorar e não consegui”.

É uma grande besteira, mas sempre que escuto essa música, lembro do dia em que cantei essa frase no telefone pra você, ela tocava no fundo do meu quarto, você ria, tirava sarro, e eu debochava do seu deboche, ria das suas risadas, e provocava, só para ser provocado.

Esses dias assisti um filme, uma atriz qualquer lá me lembrou você, então depois, coincidentemente, escutei essa música, foi foda. Por onde você anda, hein? Às vezes eu paro, fico lembrando, a gente sempre se deu tão mal. Não tínhamos muito a ver, nem interesses em comum. Você tirava sarro das músicas que eu gostava, e até hoje eu não sei o que você escutava, mas aposto que era uma bosta.

E essa atriz, tinha até um jeito estranho de falar, voz de pato, igual você. A boca sempre pronta a lançar algum impropério, fazer algum comentário maldoso, dar um daqueles seus beijos. Me lembro da sua maldita mania de pegar meus cigarros sem eu perceber, e deixá-los escondidos na sua bolsa, da sua empregada abrindo a porta do seu quarto na pior hora possível, das suas garrafas de vinho no fundo do guarda roupa.

Posso jurar que senti seu cheiro na rua esses dias, alguém passou perto de mim, com o mesmo perfume, olhei para trás por instinto, e, no fundo, sem saber o que faria se fosse mesmo você.

Você me deu um abraço, daqueles de se pendurar, beijei sua testa, e saímos andando e falando sobre aquele monte de coisa besta que você gosta de conversar. Como sempre fizemos tão bem. Não me arrisquei a entrar em algum assunto delicado, você nem se importou e mandou toda a delicadeza do momento pra puta que pariu. Roubou um cigarro do meu bolso, disse que era o mínimo que eu podia fazer, por ser um “cara mal”, o jeito que você me chama desde o dia em que nos conhecemos.

Eu estava com saudades, de passar raiva do seu lado, de morrer de ciúmes. Porque de todas, você foi a única que me despertou ciúmes de verdade, e você adorava isso. Sua inconstância, aquilo que eu nunca vou descobrir se é ingenuidade ou maldade, sua indiferença.

Você não quis saber se não nos víamos há quase dois anos, não quis saber como eu estava, o que ando fazendo, apenas se preocupou em dar uma daquelas suas declarações de amor relâmpago, impensadas, inconseqüentes. E o seu amor é bom por causa disso, sempre vem do nada, e dura o tempo que tem que durar, pra depois voltar.

E eu já fui tão filho da puta com você, não conseguia te olhar nos olhos, você ignorava completamente, fingia não ver, ou não via mesmo. Você já me amava de novo, e, na nossa quarta cerveja, nós simplesmente perdemos a paciência pra conversar um com outro, não temos nada em comum mesmo, eu brincava, nervoso, com um guardanapo, você tirou ele da minha mão, e me fez olhar para você.

E, porra, seus olhos.

Por deus, que olhar é esse? Eu me sentia completamente desarmado olhando nos seus olhos, é impossível mentir, é impossível pensar alguma coisa ruim, olhando nos seus olhos, o mundo inteiro, é apenas o seu olhar.

E nós saímos de lá pra sua casa, aproveitar que era o dia de folga da sua empregada.

Só que, aquele dia na rua, não era você, era só alguém com o mesmo perfume, você, eu não sei mais por onde anda. E sei que, esteja onde for, não quer mais saber de mim.

Que seja, nós nunca demos certo mesmo. Eu fiz questão de te afastar de mim. E você foi, você, seus olhos, e meus cigarros.

Sempre que escuto essa música, não canto a ultima frase. Estaria mentindo.

29 de junho de 2012

Porque Eu, Cara, Eu Sou um Saco!

E então, esses dias entrou um cara novo pra trabalhar comigo. Cheguei no colégio, entrei na quadra, e lá estava ele.

Do tipo geração-saude-que-gosta-de-curtir-a-vida. Barba bem feita, cabelo loiro meio comprido, meio penteado, meio veado. Roupas esportivas, celular da moda, cara de responsável.

Eu cheguei, com uma puta de uma ressaca, olhei pra cara dele, dei um aceno, empurrei um dos moleques e sentei em um canto da arquibancada esperando alguma coisa acontecer. E ele veio falar comigo, apertou a mão, se apresentou, mas nunca lembro seu nome. Formado em educação física, que surpresa! Nem perguntou o que eu fazia, na conversa com ele, o que interessa, é ele.

“Porque eu, controlo uma turma com mais de oitenta alunos, lá no Santa Felicidade, conhece o Santa Felicidade?”

“Porra, lá é foda, né?”

“Lá é bicho feio, e gostam de mim. Porque eu, uma vez ia sair de um colégio e disse, quero que me paguem vinte e dois reais a hora-aula, eles me pagavam dezenove, sabe? Aí não quiseram pagar, fui embora, passou duas semanas, me ligaram e disseram que pagariam os vinte e dois!”

“Porra, três reais hein cara!”

“Então, e aí, no final do mês, juntando tudo, dá quase uns quinze”

Quinze reais a mais no final do mês, um grande motivo de orgulho, sem dúvidas.

“Mas por quê? Porque eu, lá, o que eu fazia, ninguém mais faz.”

Não gosto. Não gosto de gente segura de si. O cara não tinha do que reclamar, apenas as suas glórias pra contar. Quase virei pra ele e disse que “cara, consigo zerar Super Mario World em meia hora! Porque eu, jogo desde criancinha, cara, ali ninguém faz o que eu faço!”

Pois bem, me limitava a concordar genericamente, sem nem prestar atenção direito no que ele dizia.

“Porque eu, agora to namorando, mas até o final do ano passado, vixe, tinha que ver cara, nem eu acreditava em mim, olha aqui, ó meu celular aqui ó, só o numero da mulherada, essas daqui a maioria eu comi tudo já, cara, e tudo safada, hein!“

“Oi? Ah, é! Mulher é foda mesmo.”

Fomos almoçar. Era peixe, de novo, o maldito peixe. Não é ruim, mas é que é sempre peixe, ou porco. Então é claro que peixe é motivo de frustração. Achei que ele fosse calar a boca na hora de comer, não tem porque ficar falando muito, tem é que ocupar a boca comendo.

“Porque eu, cara, eu faço um peixe gostoso, hein! Com vinho branco, cara, gosta de vinho branco?”

“Hein?” eu tinha engasgado com um espinho.

“Vinho branco, gosta de vinho branco?”

“Ah, vinho! Gosto! Mas prefiro uma cerveja. Ou uma cachacinha e tal. Ou conhaque, conhaque é bom também.”

“Mas com peixe?”

“Que peixe? Esse peixe? Sei lá, pode ser, mas é melhor depois”

“Não, to falando pra cozinhar o peixe com vinho! Com conhaque, cachaça, essas coisas, não dá!”

“Ah, sei lá, se pá não mesmo”

Entendi, ele é do tipo que convence a namorada a ficar em casa, comendo fondue e bebendo um vinho qualquer de trinta reais (que ele acha que é coisa fina, porque estava ao lado de uma bandeira do Chile na prateleira do supermercado, mas que é praticamente a mesma merda daqueles de cincão, com a diferença de ter umas “normas de degustação” no rótulo), quando sabe que a outra, o esquema que ele conheceu aquele dia no bar depois da pelada, a prima do amigo, vai estar na mesma balada.

Azar o dele, fondue é uma bosta.

“Então, faço um com vinho branco”

“Hmm, pode crer, deve ficar massa”

“Cara, fica uma delícia, cara!”

Esses caras que gostam de cozinhar, qual é a deles também, né? Será que eles acham que, sabendo fazer uma coisa ou outra um sábado perdido qualquer pra namorada sem graça estão isentos do rótulo de machistas? Será que isso é ser descolado e tal? Eu queimo miojo, só sei fazer café e fritar ovo, mas aposto que respeito muito mais uma mulher que esse idiota que fica três horas cozinhando peixe com vinho. Por sinal, deve ficar uma merda esse peixe aí. Sou muito mais pizza de caixinha, um cachorro quente, qualquer coisa, mas não perder metade da noite tirando espinho de peixe, e ainda desperdiçar uma garrafa de vinho pra isso.

“E agora, cara?”

“E agora o que?”

“Agora, o que a gente faz?”

“Bom, sei lá, eu vou lá fora fumar, você... você faz o que quiser, ué. Quer um cigarro?’

A cara de espanto dele foi engraçada, deprimente, mas engraçada. Eu podia ter oferecido uma pedra de crack, aposto que a reação seria a mesma.

“Não, cara, não! Valeu! Mas não fumo não, só bebo de vez em quando mesmo, cara! Isso aí faz um mal do cacete, vicia e tal”

“É to sabendo”

Coloquei a mão nos bolsos, constatei que, pela terceira vez na semana, tinha perdido meus fósforos. Ele ainda olhava pra mim.

“Então você não vai ter fósforo ou isqueiro aí, né?”

Claro que não. Saí xingando atrás da zeladora que sempre fuma comigo lá no fundo, ela é uma pessoa legal, aposto que nem sabe o que é fondue.

25 de junho de 2012

Botox, Armani e Porra de Camelo Caolho

Tinha sido mais uma das eternas noites de final de semana, onde se faz de tudo, menos dormir. Voltava para a casa um pouco depois do meio dia de um domingo qualquer, de ressaca ou meio bêbado, não lembro, com fome descabelado com bafo amarrotado mal humorado dor de estomago desesperado por um cigarro ou um gole de café.

Mas bem.

Fosse ego, fossem drogas, fosse o que fosse, é o que é. Eu estava bem. Aí, do nada, só pra pensar em algo mesmo, lembrei do meu antigo emprego, empresa grande, serviço bom, salário irrepreensível.

Férias, décimo terceiro, almoço, vale transporte, programa de participação nos resultados, plano de saúde, plano de carreira... Oito horas e quarenta e oito minutos de trabalho, uma de almoço, uma pra chegar, dois ônibus, um ônibus pra voltar, meia hora. O que todo mundo ali queria, no fundo, não era plano de carreira, era um plano de fuga!

Duas horas e meia só pra almoçar, chegar e ir embora do paraíso. Oito horas e quarenta e oito minutos sem alma. Dá tempo pra caralho, faça as contas aí que não sou bom com isso.

Me lembro da Gerente, A Chefe, A Grande da Empresa, mandava e desmandava aos brados, esbanjando autoridade e competência. Nova, muito mais nova do que muitos outros funcionários, aliás, funcionários não, colaboradores, de crachá e tudo. Colaboradores, devidamente uniformizados, penteados, perfumados. Os espertos, entrando mais cedo e saindo mais tarde, fazendo tarefas dos outros para “agilizar os processos”, diminuir os custos, aumentar o lucro, essa porra toda. Um monte de abutres, isso sim. Ambiciosos, egoístas, cristãos, em sua maioria, monstros, competindo ferozmente entre si em nome do trabalho em equipe

Pois bem, A Gerente. A Ícone da Eficiência, o máximo onde alguém ali dentro daquele inferno pode chegar um dia, é um cargo abaixo do dela.

Uma das pessoas mais tristes que já vi.

Cruzei por um cara fumando na rua, aproveitei o fato de não estar nem um pouco apresentável e pedi um cigarro, ele deu o mais rápido possível. Sentei para fumar na frente da clinica de odontologia do maior hospital publico aqui da cidade, é uma espelunca, o hospital todo, mas antes o que mais chamava a atenção era essa clinica, que estava com a fachada particularmente fodida.

Pois bem, reformaram... A fachada. Deu mesmo um novo ar, ar de botox, velha com maquiagem mal feita, roupa remendada.

Aí lembrei quando a tal Gerente inventou de colocar botox, com menos de quarenta anos, já tinha feito seiláeu quantas plásticas, acompanhamento com nutricionista, personal trainer, essas porras todas. A dieta dela era especial, os cremes importados, o perfume sabe deus do que ou da onde, de porra de camelo caolho, tinha um cheiro estranho, mas parecia ser caro. Uma delicia, diziam as colaboradoras com seus Avons ou, no máximo, algum importado desses que todo mundo gosta de falar o nome, algum Armani, alguma porra assim, comprado no Paraguai, o menor frasco, mas por menos da metade do preço, menina!

Seja como for, cheirando porra de camelo, suor, Armani ou algum desodorante qualquer, o fato é que a mulher ficou um monstro de botox.

Igual aquela porra daquela clinica, com o logotipo da universidade responsável pelo hospital pintado de maneira desproporcional, era evidente o fato de que, embora a fachada estivesse toda reformada, a parte de dentro continuava chapinhada na merda.

Então eu, ali sentado, amarrotado, despenteado, com o olho inchado e sem qualquer vestígio de perfume, voltando para a casa ao meio dia e meio de um domingo depois de um final de semana particularmente intenso, fumando um cigarro ganhado de um desconhecido, com um real e dez centavos no bolso, até o fim do mês. Embora tenha o meu particularmente grande milhão de conflitos internos e eternas crises existenciais, me sentia muito bem. Como não me sentia ha muito tempo.

O condomínio onde a gerente morava era ali perto, umas putas dumas casas, naquela altura do campeonato ela já tinha levantado, feito um bom café da manhã, lido o jornal, malhado, passado uns quinze tipos de cremes na cara, na mão, na pálpebra, na canela e na buceta. Se preparava para sair almoçar com alguma amiga igualmente cheia de cremes alguma salada com o preço de uma compra inteira no supermercado, enrolaria mais um pouco, distribuiria mais alguns sorrisos monstruosos de botox, voltaria pra casa, entraria no seu quarto e, se não fosse ligar o computador para adiantar uma coisa outra do trabalho, talvez ligasse para a mãe.

Mas o fato é que depois de tudo isso, ela ficou lá, na puta da casa dela, sozinha. Como sempre. E por mais maquiagem que ela passe, mais tratamentos de beleza que faça, perfumes caros e roupas de grife que use, pode até consertar aquele primeiro e horrendo botox com alguma dessas maneiras “revolucionárias” de que a medicina estética tanto se orgulha, ela continua horrível, continua desprezível, continua sozinha.

Porque o que estragava ela era o olhar, não de maldade, mas de uma crueldade, uma indiferença profissionalizada, um olhar apagado, cinza, inquisidor, acusador, inquieto, triste.

Fiquei com vontade de chorar e tratei de terminar logo meu cigarro ganhado e ir pra casa.

Eu estava bem.