Sempre idealizando, sonhando, achando que, dessa vez, as coisas vão dar certo.
Parei para observá-la, parada num canto, olhando para a frente, um olha vazio, de quem olha mas não vê, a vontade que deu, foi de chegar e dar um abraço, dizer que sai dessa, menina, não percebeu ainda que desde o primeiro dia em que somos obrigados a respirar esse ar putrefato, não passamos de meros contribuintes?
Amor deus felicidade alegrias leves e fugazes sexo critica amargura drogas musica televisão hot pocket sadia rock and rol, sertanejo universitário intelectualidade carro do ano pornografia cigarros ipod novela suco de goiaba. Não passam de artifícios para nos fazer esquecer esse fato. Mas ela continua na dela, de mirar o horizonte, sonhar, imaginar, sempre achando que, finalmente, vai encontrar um pouco de paz. E, cada vez, a frustração é maior.
Não sabe aproveitar os dias que, aleatoriamente, dão certo. O problema dela é que, sempre que algo bom acontece, ela é ingênua o suficiente para achar que as coisas vão continuar assim, mas o mundo, as pessoas, são inconscientemente, ingenuamente, cruéis.
O cara que ela conheceu ontem, e hoje a beijou como se ela fosse a única mulher do mundo na verdade só estava bêbado demais, pensando na ex, sem saber direito o que estava fazendo com ela em seus braços.
Mas ela não queria saber, tinha encontrado seu príncipe
E se, uma semana, um mês, um dia, uma hora depois, ele estiver beijando outra, talvez a tal ex, também como a única mulher do mundo, na frente da nossa amiga, ela vai tentar acreditar que essa vontade de chorar, na verdade, é por causa da música que está tocando, esse sentimento estranho, esse aperto, é culpa do filme que ela viu ontem, todos esses copos esvaziados com tanta rapidez, é sede, e nada mais.
Sede de felicidade, tadinha.
Um abraço. Era tudo que ela precisava, perdida na ingenuidade, na esperança de que um dia, ela não vai precisar ficar mirando o horizonte com os olhos cheios de lágrimas por essas insignificâncias.
Tem gente morrendo de fome, tem gente matando e morrendo por um lanche, tem gente desesperada pra achar um lugar pra dormir, tem gente chorando de frio. Mas o que arranca lágrimas dela é um coração teoricamente partido, uma frustração de uma noite. Não que choremos pelos desgraçados do mundo, mas enfim.
E ela fica pensando que a culpa é dela, que tudo da errado porque ela estragou, que ela conseguiu foder, inconscientemente, com toda a sua linda fantasia, com todo o seu bucólico e romântico sonho, ela sonha, ela cria a ilusão, pra ela mesma destruir tudo, feito uma idiota. Ela tem certeza de que a culpa é dela, de que o problema é ela.
Um abraço.
Fui fazer a boa ação, metade encantado, metade compadecido.
Então ela me empurrou, estranhando o desconhecido que chegou com cara de bom moço e os braços estendidos, e descobri que, na verdade, ela só tinha enchido a cara e estava, provavelmente, pensando em, como diabos, ia dirigir até sua casa.


2 comentários:
Ah, mas existem muitas dessas. Inclusive eu conheço uma, mora aqui na minha rua, na minha casa, aqui dentro de mim, e o seu nome do meio é problema.
Ei, cara, e aí
Valeu pelo comentário.
Realmente tenho escrito pouco pro blog, e meio que, por enquanto pelo menos, parei de postar ficção no meu blog uma vez que para mandar textos pra antologias, revistas ou coisas do tipo, os textos tem de ser inéditos. De qualquer forma, volta e meia aparece algo meu por aí. Não sei se viu, mas no Cronópios teve um texto inédito meu há uns meses, e mais pro inicio do ano um no Jornal Rascunho, da pra ler na internet tb. E tem esse blog, que é de um grupo de escritores e artistas visuais, onde sai esporadicamente algo http://canetalentepincel.blogspot.com.br/
Abraço!
Postar um comentário