20 de julho de 2012

Como Fazer Novas Amizades

O foda é que eu não tinha um centavinho no bolso, nessas horas, pra beber a gente perde o critério, a vergonha, a dignidade.

Era um gole aqui, outro ali, um arranja um vinho desse aí pra mim, bicho! Pra lá. Ainda consegui comprar umas latas de cerveja no cartão, porque bom mesmo é beber cerveja, ainda mais no frio, que ela não esquenta nunca, diferente daquele calor desgraçado, onde você tem é que beber rápido, pra ela não esfriar, de tão quente que fica aquela merda.

E tinha alguma coisa errada comigo, o dia inteiro, era um tal de querer falar com todo mundo, senti, o tempo todo, que eu estava atrás de alguém, que precisava falar alguma coisa pra alguma pessoa que eu não sabia o que era, nem quem era. Uma bosta.

A única parte boa é que, andando feito um louco de um lado para o outro, eu sempre conseguia bebida.

Mas a sensação continuava terrível, uma hora não agüentei e sentei, um conhecido, acho que era um conhecido, nessa hora as bebidas “honestamente roubadas” já tinham começado a fazer efeito e eu nem lembro direito da pessoa.

“Tá perdido aí?”

“Não, só colocando a vida em ordem, um pouco”

A pessoa assentiu com a cabeça, eu acho, e foi embora. Fiquei pensando um pouco e comecei a rir sozinho, feito um louco, colocar a vida em ordem, a piada da noite.

E a peregrinação continuava, pra ajudar, eu não tinha cigarro também, então eu basicamente ficava dando uma de idiota, bêbado, falando com todo mundo que eu julgava já ter visto uma vez na vida, pegando bebida, pedindo cigarro, conversando um pouco e dizendo, com toda a sinceridade que são cinco minutos, cinco minutos eu volto e, claro, me perdia e não voltava.

Pra variar, devo ter feito algumas merdas, provavelmente falei muito do que não devia, enquanto eu não encontrava a tal pessoa que eu tanto queria encontrar sem saber quem era, eu tinha pra mim que estava, basicamente, magoando os outros enquanto roubava suas bebidas e, ironicamente, andando sem parar, sem calar a boca um segundo, com um sorriso no rosto, eu sentia uma solidão terrível.

Aí eu parava de novo, pra colocar a vida em ordem, né. Só que nessas outras vezes batia uma vontade estranha de chorar, de abraçar alguém.

Vai ver é isso, eu acho que eu estava procurando alguém pra poder abraçar e chorar. Lógico que não encontrei, é muito mais fácil encontrar pelo em ovo do que alguém pra você poder se jogar nos braços e se debulhar em lágrimas, assim, sem explicação.

Mas, claro que não, sem motivos. Aliás, quando choramos assim é justamente porque todos os nossos motivos simplesmente se embaralharam, chegaram num nível doentio, ao ápice, é quando você está explodindo, e então só chora.

Se encontrar alguém, claro. Caso você não encontre, você bebe, era o que eu fazia.

E depois de uma peregrinação meio sem sentido atrás de comida no fim da madrugada, e mais uma pra conseguir um cigarro de palha, eu, simplesmente, desisti.

E tive como companhia um cobertor velho fedendo cachorro, chulé, cigarro e cachaça, num velho ácaro cheio de furos, com um pouco de sofá, e uma garrafa achada de vinho.

4 comentários:

quaresma. disse...

eu sou dessas pessoas que abraçam e que oferecem o ombro pro outro chorar, da próxima vez é só passar por aqui ;)
hehe

beijas, Miné :*
sz

aline disse...

aquele momento em que a vida não precisa mais ser posta em ordem...

Ana Luiza Cabral disse...

A sincronia das palavras. Sua história faz até cenário na imaginação. Isso é bom, menino!

Gostei muito daqui.

Maria Midlej disse...

eu quero mesmo é saber como não fazê-las, ultimamente.