27 de maio de 2012

Cuida de Mim

Ainda nos restam tantos cigarros
Para dividirmos no tempos dificeis
Tantos copos cheios
E tantas noites em claro!

Às vezes, te vejo indo para o outro lado
Nem melhor, nem pior
Apenas o outro lado
Onde não estou
E sinto que posso fazer qualquer coisa
Pra te trazer de volta
Mas sei que, no fundo, não vale a pena
Não mando em suas vontades

Ainda temos tantas estrelas pra contar
Tantos cafés para tomarmos de madrugada
Tantas lamúrias para dividir
Tantos "eu te amo" silenciados
Ditos com o olhar
Encabulando-nos
E arrancando sorrisos confidentes de nossos lábios

Temos muito para viajar
Saindo do lugar ou não
Temos tanto o que descobrir
Tanto para aprender
E, por algum capricho secreto
As vezes, você simplismente ignora
Me entristece
Mas tudo bem, te deixo mal também

Vamos sentir muita falta, um dia
Daqueles abraços aleatórios
De todas as vezes que colocamos tudo por um fio
Só para ver até onde suportávamos
De todas as palavras mal ditas
E benditas
Que não chegaram a ser escutadas

Já sinto falta de você
Antes do destino vir te buscar
Já sinto saudade de suas besteiras
Do seu colo, da sua indiferença
Dos nossos insignificantes problemas mortais,
Do seu amor.

Fizemos milhares de planos
E me dá vontade de chorar
Ao ver seus olhos apagados
Sem termos, ao menos
Cumprido umas dez centenas deles

Somos inacreditavelmente jovens
E eu não aceito te perder
Antes de, no mínimo
Ter passado algumas eternidades contigo
Estejamos juntos, ou não
Até lá, eu cuido de você.

23 de maio de 2012

Conta Fechada

O Sol nascia na cara deles, trazendo as tão sonhadas bênçãos que teimam em vir todo santo dia. Eles não perceberam, ao menos não todas elas.

Tinha sido uma noite louca, daquelas que você sai sem saber com quem, nunca sabe pra onde vai nem quando vai voltar para casa. Isso se for mesmo voltar.

Na verdade, nem era para eles se encontrarem, vinham preferindo assim desde que tudo aconteceu, porque bem sabemos que tudo sempre acontece. Mas o destino e as entidades misteriosas que o regem preferiram de outro jeito e então, do nada, se trombaram.

Um sorriso amarelo e um meio abraço, foi tudo por hora, ele disse que estava indo por ali, e poxa vida, ela já estava indo pra lá mesmo, prometeram burocraticamente um para o outro que se veriam.

Calejados, já não se arriscam mais a fazer promessas impossíveis de serem cumpridas. Inteligentes, hoje só prometem o que querem e, mais que isso, anseiam cumprir. Mesmo que seja uma promessa burocrática.

Ele buscou mais um copo, ela uma garrafa, e passaram um bom tempo sem se trombar de novo, cada um em seu canto, cada canto com sua mesa. Riam e se divertiam, com seus amigos, cada um a sua maneira, como nunca deixaram que fosse.

Mas, e você bem sabe como é, os olhares trocados eram involuntários e cada vez mais freqüentes, e quando ela percebeu que ele ainda cantava aquela canção com a mesma paixão de outrora, não pode, nem fez questão, de disfarçar o sorriso.

Então as filas foram se formando na medida em que as estrelas foram sumindo, e eles se lembraram que, uma hora, teriam que ir embora. Porém, como até aquela hora ainda não tinham pensado como nem com quem fariam isso, resolveram deixar por isso mesmo e ficar o máximo possível por lá. Longe um do outro, trocando apenas olhares involuntários e sorrisos delatores.

No final, eram os dois cruzando a cidade a pé. Ela segurava uma garrafa d´agua e seu par de sandálias com uma mão, com a outra, a mão dele. Riam, dançavam ao som dos pássaros que acordavam e dos parcos carros que se arriscavam aquela hora. Contavam e se deliciavam com histórias antigas.

O Sol nascia bem na frente deles, e, com ele, o jovem casal que se reencontrou num fim de madrugada qualquer e saiu perambulando pela cidade com as mãos dadas escrevia seu futuro, abençoados pela luz escassa da madrugada, e pela força das infindáveis manhãs vindouras.

12 de maio de 2012

Poema Para um Velho Personagem Anônimo

Fugitivo eterno da sobriedade
Que aprisiona os homens de bem
Cativo da liberdade
Que assume os filhos de outrem

Filho preferido da angustia
Que nunca o deixara dormir
Bastardo do amor
Que sempre o via partir
Pai de histórias tristes
Que nunca alguém quis ouvir

Amante de tudo que é nocivo
Homem de palavras bonitas
Andarilho das esquinas
Freguês das muitas mentiras
Que lhe sussurravam no ouvido

Vitima preferida das assimbrações
Que moram nos corações

Aluno de professores cruéis
Que sempre foram repudiados
Professor de infelizes fiéis
Que também nunca foram amados
Aniquilador de inocentes papéis
Que agonizavam com seus versos vomitados

Escravo da ebriedade e das lágrimas
Mestre em fugas e repentinas aparições
Amigo da decadência e das mágoas
Veterano de porres e decepções.

(daqui)

6 de maio de 2012

Feedback Song for a Dying Friend

Talvez devêssemos parar de mentir
Escrever já foi mais fácil
Já foi mais bonito
Já foi mais vazio

Talvez você tenha que parar de se enganar
Já é hora, não?
Olhe bem ao redor
Ninguém mais se importa com seus lamentos

Talvez essas lágrimas que não caem agora de seus olhos
Estejam apenas esperando a certeza
De que, quando cairem
Ninguém estará contigo para enxugá-las

Ninguém nos disse que lágrimas podem ser tão ingênuas.

A música de sempre
Também tem lhe parecido mais triste?
O já acabado poeta
Não parece cantar suas lamúrias com a voz mais fraca?
O tempo não tem demorado mais pra passar?
E aquele abraço que você está esperando ha tanto tempo?
Aquele beijo que você sonhou a noite toda?
Aquele colo que parece muito mais confortável do que é,
Você perdeu todos, de novo, não é?
Por que você não para de se matar aos poucos
E desiste logo?
Então ouse, pelo menos uma vez
Tentar fazer as coisas darem certo!
Deus vai aparecer hoje a noite
Vá se encontrar com ele
Aponte seu dedo para o rosto sagrado
E cobre cada uma de suas noites em claro
Cada droga que te enganou
Cada beijo que foi uma decepção
Cada decepção que você deixou de ter
Se conseguir, olhe nos olhos dele
E fale tudo que ele merece ouvir
Se tiver coragem, cuspa na sua cara
E descubra até onde vai a paciência divina

Combina muito com você jogar a culpa de sua vida de merda em deus.

Talvez esteja na hora de levantar
Caminhar até a beira do precipício
E ver que, lá de cima
A queda não parece tão romântica quanto dizem

Talvez você deva parar um pouco de se lamentar
As pessoas não gostam de lembrar que não são felizes
Talvez, se você também esquecer disso
Quem sabe, essa solidão vai embora.