O Sol nascia na cara deles, trazendo as tão sonhadas bênçãos que teimam em vir todo santo dia. Eles não perceberam, ao menos não todas elas.
Tinha sido uma noite louca, daquelas que você sai sem saber com quem, nunca sabe pra onde vai nem quando vai voltar para casa. Isso se for mesmo voltar.
Na verdade, nem era para eles se encontrarem, vinham preferindo assim desde que tudo aconteceu, porque bem sabemos que tudo sempre acontece. Mas o destino e as entidades misteriosas que o regem preferiram de outro jeito e então, do nada, se trombaram.
Um sorriso amarelo e um meio abraço, foi tudo por hora, ele disse que estava indo por ali, e poxa vida, ela já estava indo pra lá mesmo, prometeram burocraticamente um para o outro que se veriam.
Calejados, já não se arriscam mais a fazer promessas impossíveis de serem cumpridas. Inteligentes, hoje só prometem o que querem e, mais que isso, anseiam cumprir. Mesmo que seja uma promessa burocrática.
Ele buscou mais um copo, ela uma garrafa, e passaram um bom tempo sem se trombar de novo, cada um em seu canto, cada canto com sua mesa. Riam e se divertiam, com seus amigos, cada um a sua maneira, como nunca deixaram que fosse.
Mas, e você bem sabe como é, os olhares trocados eram involuntários e cada vez mais freqüentes, e quando ela percebeu que ele ainda cantava aquela canção com a mesma paixão de outrora, não pode, nem fez questão, de disfarçar o sorriso.
Então as filas foram se formando na medida em que as estrelas foram sumindo, e eles se lembraram que, uma hora, teriam que ir embora. Porém, como até aquela hora ainda não tinham pensado como nem com quem fariam isso, resolveram deixar por isso mesmo e ficar o máximo possível por lá. Longe um do outro, trocando apenas olhares involuntários e sorrisos delatores.
No final, eram os dois cruzando a cidade a pé. Ela segurava uma garrafa d´agua e seu par de sandálias com uma mão, com a outra, a mão dele. Riam, dançavam ao som dos pássaros que acordavam e dos parcos carros que se arriscavam aquela hora. Contavam e se deliciavam com histórias antigas.
O Sol nascia bem na frente deles, e, com ele, o jovem casal que se reencontrou num fim de madrugada qualquer e saiu perambulando pela cidade com as mãos dadas escrevia seu futuro, abençoados pela luz escassa da madrugada, e pela força das infindáveis manhãs vindouras.


3 comentários:
"Inteligentes, hoje só prometem o que querem e, mais que isso, anseiam cumprir." - quero isso pra minha vida também!
beijas, Miné! :*
acho que esse foi o post mais 'leve' que eu já li aqui. coisa boa de ler (e sentir, claro).
Bom mesmo. Eu estava com saudades de passear por aqui, e valeu a pena!
Beijos, querido!
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