19 de outubro de 2012

Era a Única Profecia em Liquidação

Quantas chances ainda temos?
fugimos para os labirintos escuros
mofados e sujos de sangue
das nossas pífias
frágeis
cruéis
e verdadeiras mentiras

Quantos caminhos restam?
já nos abrigamos da tempestade
já corremos de bestas
já nos escondemos de deus
e o que conseguimos?

Um pai passeia com seu rebento
comprando sonhos
e se refrescando com veneno numa casquinha
e o filho busca sua mãe
que descansa como rainha em seu reino podre
com os ratos e a merda
de seus súditos que lhem fodem
e pagam com morte numa lata

Aquele que nos salvará
vestirá vestes brancas e reluzentes
com uma assinatura famosa
e confeccionada por crianças sem alma
chegará em sua carruagem
com ar condicionado e computador de bordo
e dirá a todos os tabloides que
o tempo, enfim, acabou
quem pagou, que saia de seu labirinto
quem se perdeu no caminho
que tenha o que merece
com o minotauro impiedoso
da vida plena, feliz e saudável
que eles, de bom grado
renegaram.

15 de outubro de 2012

O Último Abraço de Boa Noite

Você foi embora, me deixando com meus cigarros, um livro melancólico, uma garrafa pela metade de conhaque, algum baseado num canto qualquer e uma música incrivelmente triste.

Sem saber direito como se despedir você saiu com pressa, procurando as suas coisas que tem um dom incrível de se espalhar pela minha casa. O celular, a carteira, a meia. Uma coisa em cada cômodo, peregrinos de mais uma noite especialmente intensa.

Você saiu assim, como sempre. Eu me perdia no livro e procurava um cinzeiro. Bebericava o conhaque e fazia umas caretas, tentando ignorar tudo o que tem acontecido. Levar tudo naturalmente, é a vida, você diria, as coisas acontecem, ninguém precisa se culpar, nem se responsabilizar.

Você volta que eu sei, cedo ou tarde, geralmente cedo, a campainha vai tocar e você vai dizer apenas que “sou eu”. Depois, como sempre, é tudo um mistério.

Você volta, sempre volta. Mas, às vezes, um pedaço seu, o que mais gosto, está longe, apreciando outras paisagens, sentindo outros aromas, se arriscando, como sempre, em amores diferentes.

Aquele livro que você tanto gosta e deixou aqui pra eu ler estava uma bosta, sinceramente. O conhaque começou a fazer efeito, então terminei mais um cigarro, deixei o livro de lado sem fazer a menor questão de marcar a página e fui dormir mais um pouco. A noite tinha sido muito longa, e eu ainda precisava digerir tudo o que tinha acontecido.

Acordei no fim da tarde, a luz moribunda do sol entrava pelas cortinas de um verde bucólico, deixando essa casa com uma opressora melancolia, pensei em sair, mas seriam sempre as mesmas coisas, então apenas peguei mais um entre os meus milhares de cobertores e deitei em frente à televisão.

Você volta, mas eu desisti de esperar. Sinceramente, agora quem tem que decidir voltar ou não sou eu. Você tocando aquela porra de campainha agora, ou daqui um ano.

E trate de esperar, sei que pra você não será sacrifício nenhum. Então vê se senta logo, enche a sua cara, faz as suas merdas de sempre, e espera. Você ainda precisa criar muita vergonha nessa sua cara pra merecer alguém como eu.

Depois, como sempre, não precisa se preocupar que eu te ajudo a achar sua meia, seu celular, sua carteira e seu coração, que, mais do que pequenas bugigangas, você vive deixando jogado por aí.

10 de outubro de 2012

Eu Já Fui Melhor Nisso

(de escrever, de viver…)

I
Olho ao redor, e tudo se foi
presto atenção, é o mesmo mundo
sozinho, ainda não sei pra onde ir
ainda assim, queria que você continuasse junto

As palavras inesperadas da madrugada
que me acordaram e pareciam sonho
me jogaram de volta ao mar de culpa
habitado por todos os demônios que me envergonham

O ciclo recomeçou
como sempre estou só
Isso, esse poema, tudo
essas rimas forçadas
tá tudo uma merda

II
Só queria um pouco de paz
ser menos egoísta
ter para onde ir agora
pensar com clareza
um abraço
que meu estomago parasse de doer
que não parecesse sempre que estou prestes a desmaiar
parar de me afogar em lágrimas alheias
de enganar
de mentir, mesmo que inconscientemente
queria ter coragem pra ser quem sou
queria saber isso antes
tudo
a vida, o poema, mesmo sem rimas forçadas
continua uma bosta

III
Vou fugir
para onde eu tenha inspiração
para o passado, onde tudo era lindo
e eu, inerte
vou voltar
para qualquer outro lugar
bem acompanhado
talvez só

quem sabe então, não precisarei de artifícios
na minha vida
nas minhas verdades
nem nos meus poemas
não precisarei ficar assim
dividindo-os em partes
nem sei o que elas querem dizer
nem terminá-las com palavrões
pura frustração

Vou fugir
fugir e viver em paz
talvez te leve comigo
não sei
talvez
é foda

IV
Mas, sinceramente
acho que, se você vier junto
depois de tanto tempo
é o mínimo que merecemos
aí então
vai ser do caralho!

2 de outubro de 2012

Não Passa

O tempo tinha virado do nada, eles fugiram, se esconderam, se abrigaram... ainda dentro do bar. Tinham muita coisa pra conversar, muito tempo pra matar, muita saudade.

O tempo tinha passado rápido, para o mundo, para todos, mas, sobretudo, para eles. E, seja como for, foi bom. O tempo, virando ou não, passando rápido ou não, sempre se mostra o senhor da razão, sempre prova saber o que faz.

O tempo fechou de vez, algumas gotas tímidas começaram a cair, dando coragem a outras que, então, encharcaram tudo de uma vez, o tempo não esperava a noite ter o ritmo desejado por eles, e algumas poucas cervejas depois, eles tiveram que ir embora.

O tempo não se importou, eles também não, continuaram baforando, conversando, rindo, relembrando e aproveitando o tempo que tinham, dentro do carro mesmo.

O tempo, esse, fechou, passou rápido, mas, no fundo, os ajudou e, de coração, lhes desejou boa noite.

O tempo, no dia seguinte, era muito mais ameno, muito mais paciente. O dia então parecia desfilar, desistiu de passar assim como sempre, apressado.

O tempo decidiu, enfim, dar a eles o tempo que eles tanto mereciam.