“Reza por mim”
Foi isso, sem nem um palavra a mais nem a menos que ele me disse ao entrar no ônibus, com os olhos vermelhos, passo lento e pesado, embriagado de tristeza e angústia, abatido por tantas dúvidas, perturbado com a tal da verdade que aparece sempre mais forte depois que você foge dela.
De qualquer maneira, ele disse com um certo sorriso no rosto, um de escárnio, o único indício de que ele não está falando assim tão sério.
“Reza por mim”.
Voltei para casa pensando nisso, em meu amigo e em suas angústias. Enquanto caminhava, como sempre, por aquelas ruas escuras, eu só tentava descobrir quão mal ele estava, afinal de contas.
Até porque, ele veio e pediu justo para eu rezar por ele.
Eu.
Será aquela garota que ele tanto gostava? Ou será justamente a que ele não gosta? Me lembro da época em que ele aparecia cantando, dançando e sorrindo.De quando ele tirava, do nada, umas idéias malucas, me arrastava para um bar qualquer, e ficava falando de suas aventuras da noite passada, mesmo que eu estivesse nelas, ou quando ele ficava se perdendo em seus sonhos de viajar para qualquer lugar comigo, e com a mochila vazia, “para voltar cheia de lembranças”.
A última imagem que tenho dele, é um quadro triste, obscuro. Os olhos vermelhos, o cabelo mais desgrenhado que o normal, as mãos um pouco trêmulas e um senso de humor maligno. Ele deixou de ser o palhaço de antes e agora se limita a fazer comentários venenosos, e amargamente engraçados.
Justo agora que comprei uma mochila nova.
Triste pensar que não posso fazer nada para ajudá-lo de fato. O seu coração está negro, e eu mal sei o motivo, ou os motivos.
“Reza por mim”.
Amém.

