25 de dezembro de 2011

O Caminho de Volta

“Reza por mim”

Foi isso, sem nem um palavra a mais nem a menos que ele me disse ao entrar no ônibus, com os olhos vermelhos, passo lento e pesado, embriagado de tristeza e angústia, abatido por tantas dúvidas, perturbado com a tal da verdade que aparece sempre mais forte depois que você foge dela.

De qualquer maneira, ele disse com um certo sorriso no rosto, um de escárnio, o único indício de que ele não está falando assim tão sério.

“Reza por mim”.

Voltei para casa pensando nisso, em meu amigo e em suas angústias. Enquanto caminhava, como sempre, por aquelas ruas escuras, eu só tentava descobrir quão mal ele estava, afinal de contas.

Até porque, ele veio e pediu justo para eu rezar por ele.

Eu.

Será aquela garota que ele tanto gostava? Ou será justamente a que ele não gosta? Me lembro da época em que ele aparecia cantando, dançando e sorrindo.De quando ele tirava, do nada, umas idéias malucas, me arrastava para um bar qualquer, e ficava falando de suas aventuras da noite passada, mesmo que eu estivesse nelas, ou quando ele ficava se perdendo em seus sonhos de viajar para qualquer lugar comigo, e com a mochila vazia, “para voltar cheia de lembranças”.

A última imagem que tenho dele, é um quadro triste, obscuro. Os olhos vermelhos, o cabelo mais desgrenhado que o normal, as mãos um pouco trêmulas e um senso de humor maligno. Ele deixou de ser o palhaço de antes e agora se limita a fazer comentários venenosos, e amargamente engraçados.

Justo agora que comprei uma mochila nova.

Triste pensar que não posso fazer nada para ajudá-lo de fato. O seu coração está negro, e eu mal sei o motivo, ou os motivos.

“Reza por mim”.

Amém.

22 de dezembro de 2011

Amanhã Será um Bom Dia

Não sei de você
Mas não estou legal
Meus olhos ardem
Pois passei o dia todo mal

Meu maço de cigarros
Está no fim
E não é isso que vai me matar
Quando tem uma bomba atômica apontada pra mim

Não sei se você
Quer mesmo saber
Mas agora, enquanto falamos de Deus
Uma criança acabou de morrer

Não vejo a hora de te encontrar
Vou te receber com um beijo
Deitar no teu colo
E ouvir você me consolar

Pois cansei de derrubar lágrimas
Por um mundo que me vira as costas
Por um futuro que afunda na bosta
Por sonhos que não passam de fábulas

Ainda nos resta um ano, amor
Até o mundo acabar
E a impressão que tenho
É que ainda é muito tempo
E a impressão que tenho
É que não vamos aguentar - esperar

E fugir
E viver
E sorrir
E morrer

Não venha me dizer
que passou comigo a noite passada
Se ainda não conheço você
Se já não lembro de mais nada.

14 de dezembro de 2011

2011

Menina, não sabe o que vi! O que, me fala! O Lúcio! Aquele safado? Esse mesmo! Filho da puta, aonde menina? Ai, comendo alguma coisa lá. Tava com a biscate? Não, não tava, foi sozinho o infeliz, mas no começo eu achei que ela estava lá. La onde? Ai, lá perto de casa. E você foi com quem? Quando isso? Ontem, fui lá com uns... amigos... Ai, presta atenção, quer saber ou não? Quero, fala logo! Então, olhei meio que de relance sabe? E vi só a bolsa, achei que fosse de mulher. É aquela bolsa ridícula que aquele idiota não larga! É, e parece de mulher, não é de mulher não? Diz ele que não, mas deve ser meio bicha, tenho certeza. Bom, se é bicha eu não sei, mas ele tava lá. E você falou com ele? Ai, não agüentei, teve uma hora que levantei da mesa, aí sentei lá e já fui logo perguntando da namorada. E ele? Aah, mal respondeu, falou que tava sozinho, mas bem devagar, acho que já tava drogado. Será, numa segunda feira? Ai, eu acho, depois daquela festa... Mas deixa eu te contar, aí eu fui lá, não segurei amiga, desculpa, e perguntei se ele tinha te traído! AAAH, não era pra você ter feito isso! Ai amiga, desculpa, mas não agüentei. Sua tonta, e agora, e agora? Ai, agora sei lá ué, você não tinha superado, poxa? Ah, tinha, tinha não, superei, graças a Deus! Então? Ai, é que sei lá... Quer que eu termine a história? Ah, é, vai conta! Então, aí ele ficou bravo menina, acredita? Sério? Falou o que? Virou pra mim assim e “eu te devo alguma satisfação por acaso?”, desse jeito! Ai que estúpido, e você? Ai falei que não, né, aí ele veio com uns papos estranhos, umas gagueiras, eu logo levantei e fui embora. Era isso que você tinha pra falar comigo então? É, ele te traiu mesmo. Será? Certeza! Do jeito que ele ficou nervoso, quem não deve não teme. É, mas vai ver ele era nervoso, só fingia de calminho, nem sei mais quem ele é mesmo, nunca soube. Ou tem um porem também... Qual? Acho que pode ser efeito da droga... Ai menina, será? Claro, depois de um tempo a pessoa não usa mais pra ficar legal, só pra suprir o vício, aí ficam agitadas assim. Mas será que maconha faz isso? Que maconha o que! Te falei, a época da maconha passou quando ele ficava lá na universidade atrás do centro acadêmico com aqueles amigos estranhos e aquelas meninas barangas, hoje ele ta em coisa mais pesada! Você não tem noção da situação que eu vi ele! Para de falar assim, chego a ficar com dó, mas é besta! Pois é, não sei se tenho dó não. E ta fumando ainda, né? Cigarro? É! Um atrás do outro! E maconha? Tenho certeza que ele tava fumado ontem... ai viu, triste falar assim, mas acho que até crack ele já deve ter experimentado por aí...

6 de dezembro de 2011

Tráfego Pesado

Dirigia em alta velocidade, buscando chegar o mais rápido possível, pensando se, assim, também pudesse ir embora mais cedo.

Com lágrimas nos olhos ela mal via o caminho a sua frente, guiava o carro instintivamente por ruas desertas, escuras e desconhecidas. No painel, um envelope colorido com algumas coisas que ela não ousara ler mais de uma vez. No rádio, uma música que ela também já deveria ter desistido de escutar.

No fundo, ela nem sabia porque estava indo. Disseram-lhe que era para ela mostrar como estava bem, esfregar na cara de todo mundo o quão forte ela era.

Só que não.

Ela não estava bem, muito menos era forte.

Outros diziam que ela devia ir por educação, consideração. Mas ela não tinha coragem, faltava-lhe a valentia para sustentar a sua ultima mentira. A de que valia a pena continuarem amigos. Não valia.

Não valia porque ela sabia muito bem quão danosa podia ser essa relação, não só para ela, mas sim para ele que tinha o direito de continuar a sua vida de uma maneira mais saudável. Com alguém que estivesse disposto a ser ele mesmo, que estivesse disposto a ser sincero.

Estava marcado para as sete, faltavam cinco minutos, e um semáforo fechado.

E então, cada segundo até ele abrir teve o peso da eternidade de um relacionamento inteiro. E ela percebeu que não tinha o direito de aparecer, por mais que tivesse sido convidada. Porque ele tinha o direito de seguir sem ela, só assim ele seria feliz.

O sinal abriu e ela não se importava mais em parecer forte, em ser decente ou fazer aquilo que é certo e esperado. Ela não tinha porque ir, não queria, e não iria.

Mandou a maldita igreja para o inferno, junto com o padre, os padrinhos, os presentes e o buquê.

Virou o carro na primeira esquina que viu e foi embora fazer a sua vida. Na contramão.

1 de dezembro de 2011

Sex On The Bad

Ele mal tinha uma casa, há tempos não conseguia sorrir, gritava aos quatro cantos do mundo que odiava crianças e cachorros, não comprava televisões para alugar mulheres e sua cerveja tinha acabado na noite anterior.

Era como um buraco sem fim abaixo de si, aquele circulo meticulosamente planejado apenas devorava os corpos e as almas ferventes de luxúria.

Era como se ele não tivesse outro lugar para estar, senão ali, um ninho de serpentes fálicas, era nisso que ele tinha se enfiado, e, nesse momento, ele não era nada mais além disso. Um instrumento, que ele usava para si mesmo.

Cercado de feras, bestas prontas e desesperadas para mastiga-lo, ele se afundava naquele universo obscuro, e dançava com os monstros, se perdia em seus prazeres, e caminhava cada vez mais com eles para o inferno.

No fundo, ele não queria estar ali, e também sabia muito bem que não devia, os espelhos em todos os cantos do quarto o acusavam, ele podia escapar de qualquer um, menos de si, que estava nas paredes, que estava no teto, o observando e acusando.

Com o olhar vazio, e a boca apenas entreaberta para puxar um pouco de ar, sem emitir qualquer tipo de som, ele não era a melhor pessoa para dividir a cama, e embora sua companhia fosse muito bem paga para aguentar qualquer tipo de excentricidade nessas horas, ele não queria deixá-la preocupada. Preferia ignorar o fato de que o único pedaço daquele corpo que ele não podia comprar era o coração

Justamente o que ele realmente queria.

Um coração, caso ele tivesse quem amar não precisaria viver com as serpentes, com as bestas traiçoeiras que estavam sempre o enganando e subindo ameaçadoramente por suas pernas.

Mas ele não conseguia sair disso, até porque, o resto do mundo era tão sem sentido quanto. Aquele ninho, aquele buraco redondo, macio, pecaminoso e mortal o atraia, o seu próprio olhar desesperado e inquisidor no espelho do teto o excitava, seus tremores involuntários o lembravam de que, apesar de tudo, ele continuava vivo.

Se bem que, nessas horas, continuar vivo não era bem um consolo.

Acabou o tempo, sua fiel companheira tratou de avisá-lo sem um minuto de atraso. Pois bem, ele pagou tudo que tinha para pagar, dirigiu tudo que tinha para dirigir e, chegando em casa, abriu um sorriso, abraçou uma criança, brincou com um cachorro, assistiu um telejornal qualquer com uma linda e respeitável mulher nos braços e uma cerveja na mão, e, como todo santo dia, adormeceu no sofá, sozinho.

***

Perdoe o trocadilho infeliz do título, é que não consegui pensar em mais nada além de coisas como “as ilusões de um amante desesperado” e outros potenciais nomes de discos do Wando.