23 de junho de 2011

Saideira

Era um daqueles bares meio escruros, com mesas de plástico exibindo a marca de uma cerveja qualquer e um monte de gente que, chegando lá após o expediente, a aula, ou do sono, sentavam para beber e, após uns goles, da mesma cerveja qualquer ou (na maioria dos casos) da concorrente mais barata. Conversavam alto, riam alto e, quase invariavelmente, iam dormir altos.

Uma das mesas na calçada tinha a honra de servir dois amigos, que ja estavam lá a algum tempo e conversavam quase sempre sem saber direito sobre o que. Um reclamava mas, ao mesmo tempo, exaltava as mulheres, o outro concordava, exaltando um pouco mais, a medida que ficava mais exaltado.

“Mas na verdade, penso que a idealização faz uma certa dialética com a realidade”

“Anh?”

“A idealização, nada mais é do que a antítese da realidade!” disse o primeiro, gritando um pouco mais do que o local exigia.

“Mas não falávamos de mulher, cara?” respondeu o outro, entendendo e até apreciando a observação do amigo. Só não conseguia contextualizar.

“Então! Acho que aundo idealizamos demais uma mulher, a realidade é justamente a contraposição disso! Pior, quanto mais idealizamos, pior é a decepção!” Ele dizia isso como se fosse uma descoberta. O outro escutava da mesma maneira, abismado.

“Foda é que não dá pra ficar sem”.

“É…”

A última observação veio com um ar pensativo e até melancólico, preparando caminho para o silêncio que viria depois.

Silêncio que os dois aproveitaram para virar os copos.

Silêncio suficiente para que o segundo amigo, aquele mesmo que minutos atrás não queria saber da relação entre a filosofia e as mulheres, formular uma metáfora que, no momento, lhe pareceu arrebatadora.

“Mas então, da mesma maneira, a ressaca é a antítese do porre!”

“Porra, faz sentido” o segundo respondeu com seu habitual ar pensativo.

“E o pior é que, quanto melhor o porre, mais fodido você acorda no outro dia, entende a relação?”

“Isso cara, exatamente isso!” veterano de porres e decepções, é claro que ele entendia.

Novamente o silêncio. Aquele silêncio de espera, que te faz sentir que algo importante virá a seguir, algo arrebatador e inesquecível, algo tão profundo e transcedental que precisa se antecedido por uma profunda quietude, preparando a alma dos presente.

“Acho que o jeito então é parar de beber”.

Não importa quem disse a frase, o que importa é que ela antecedeu mais uma rodada.

13 de junho de 2011

Resposta

Ele não sabe exatamente o que acontece, mas as vezes se sente preso, dentro de um lugar apertado, sem nenhum espaço por onde fugir. Se ele quisesse, o que não é o caso.

Afinal, é nesse coração que ele se sente rei, de si e do mundo ao seu redor, sente como se, com o estalar dos seus dedos, qualquer coisa pode acontecer, e nada pode lhe abalar.

É nesse coração que ele, mesmo a distância, tenta segurar a mão daquela que faz questão disso, por mais longe que estejam. É por estar preso que ele pode, toda noite, dormir abraçando o travesseiro, e imaginar que é ela quem está ao seu lado. Até encontrá-la nos seus sonhos.

E se ele não pode voltar no tempo, pode fazer cada segundo melhor, e essa vem sendo sua busca, mesmo quando é olhado até se sentir constrangido, mas, ao mesmo tempo, acariciado por aqueles olhos tão brincalhões.

E só pode ser amor, se não fosse, ele não poderia dar e sentir tanta certeza.

Se não fosse, ele não teria o mundo dentro de uma cela tão pequena.

Amém.