30 de janeiro de 2012

Rendição

Agora eu tenho uma caneta
E um caderninho bonito
Eu tinha, com eles um poema
Que se perdeu

Estou no lugar de sempre
Com as pessoas de sempre
Ninguém

Não costumo esperar muito mais que isso
Provavelmente já tenho mais do que mereço
Não posso julgar você
Nem me julgo
Tenho medo

Mas agora, tenho uma caneta
E sei que logo vou perdê-la
Nem me apego, já me despeço
As coisas comigo não costumam durar mesmo.

28 de janeiro de 2012

Homenagem a Quem Não Gosta Tanto Assim de Cachorros

Não quero mais saber de rimas
Não sei mais o que é métrica
Já desisti de ficar famoso
E abri mão de ser feliz

Desisti de soar agradável
Não me preocupo mais em ser repetitivo
Nem em fazer novos amigos
Não penso mais no que vou escrever
Acabo sempre escrevendo a mesma merda romantico-depressiva mesmo.

Ja sei que não canto bem
E, de qualquer maneira, minhas músicas são todas iguais
Ja me conformei em bater cartão todo dia
E em servir a mãe pátria
Que me abandonou no berço.

Esqueci essa história de família e filhos
Crescer na vida e ter uma casa com uma cerquinha branca
Macarrão com Coca-cola no domingo
Pizza com cerveja nas noites de sexta
Os restos vão para um cachorro sem graça com um nome besta
Confesso que acho tudo isso lindo - sem ironia
Mas acontece que gosto de gatos, e
eles não vivem em fantasias 
Quando minha gata morreu  - já faz algum tempo
Eu fiquei triste, mais do que pensei que ficaria
Apenas uma pessoa percebeu
E eu nem gosto dela.

Não quero morrer - não mais
Agora, amo hífens.

26 de janeiro de 2012

João e Tudo que Pode Dar Errado com Sua Vida Amorosa #1

Reeducação Musical

João descia a movimentada avenida com as luzes vindas dos carros e postes o cegando, ele até gostava, ficava tentando decifrar alguma coisa no meio daquela tempestade visual.

Os sons também o faziam viajar, tantos carros, fragmentos de conversas e músicas o absorviam criando uma atmosfera que ele adorava.

Foi aí que um carro fez ecoar uma música de gosto profundamente duvidoso, João olhou meio que por instinto, meio que por masoquismo, para o veículo que torturava impiedosamente os pobres cidadãos que apenas queriam passar por ali.

Então ele reviu drasticamente os seus conceitos musicais.

Dentro do carro que agraciava os sortudos pedestres com uma melodia tão suave e angelical, dançava graciosamente uma jovem, num êxtase de alegria, se entregando completamente aqueles sons tão adoráveis.

Os cabelos esvoaçavam lentamente, e os olhos, quando abertos, emanavam um brilho vivo e encantador. Aliás, não só o brilho de seus olhos era encantador, o seu sorriso, os seus brincos, suas roupas, a maneira como colocava o cinto de segurança... Toda ela era encantadora.

Pra variar, João estava apaixonado.

E olhando com cara de bobo para o carro que parou em um semáforo próximo, praticamente parado, vidrado na sua donzela. Então o sinal ficou verde, o carro saiu cantando estranhamente o pneu, e foi embora levando o coração de João consigo.

Até que, chegando à próxima esquina, João voltou a ouvir a tal música dos deuses, cada vez mais alto, cada vez mais aproximando nosso jovem apaixonado de seu amor.

E o carro parou na sua frente e, embora ela não dançasse mais, ele não estava menos encantado.

João nem se deu ao trabalho de pensar no porque do motorista ter saído do carro tão apressado com uma cara estranha, só estava concentrado no fato de que estava ficando cada vez mais próximo de sua nova amada.

Então veio o primeiro soco.

***

Uma idéia de série que me ocorreu ontem. Não vai ter continuidade nem nada, é só um personagem qualquer que, acredito eu, esporadicamente vai aparecer -e se dar mal- por aqui.

24 de janeiro de 2012

Que Preencha Suas Tardes

Não quero saber o quão errado eu agi
Só quero que saiba que tentei dar uma chance
A mim mesmo.

Não pense que agora estou bem
Nem que não doeu em mim
Ou que qualquer uma dessas linhas serve de desculpa

Ouse, ao menos por um minuto
Pensar que a vida pode ser boa
Faça isso por mim

Não ache que agi de má fé
Nem imagine que, naquelas noites, não era contigo que estava
Foram incontáveis beijos
E milhares de verdades
Não ache que, em um momento sequer, eu menti

Você me conhece tão bem
Mas me tinha demais
Bem sabe que não sou assim
Bem sabe que tenho medo
E fujo

Ah, minha querida
A única coisa que te prometi
Foi que não prometeria nada

Não te peço desculpas
Perdão não existe
Não peço para que ainda olhe na minha cara
Só não sinta pena de si mesma
Sobretudo pelo que não merece

Apenas te peço para ser feliz
Como seria, de qualquer forma
Como não serei

E não sinta pena de mim também
Pode me odiar, se quiser.

21 de janeiro de 2012

Réus Primários

(Um conto bobo, leve, bonitinho, descompromissado e cheio de esperança. Porque ninguém é de ferro, e de coisas dando errado minha vida já está cheia)

“Estamos perdendo o foco, olha ali o microondas! Temos que nos concentrar nessas coisas de mais valor!”

“Problema é que o microondas é muito difícil de carregar”

“Você não aguenta levar um sozinho?”

“Haha, eu não, poxa, já tentou pegar um microondas? Pesa pra caralho! Como é que eu ia sair carregando um trambolho desses sem ninguém perceber?”

“É, o negócio é se concentrar nas xícaras mesmo”

“E naqueles talheres!”

“O que tem os talheres?”

“Não sei, parecem ser de prata”

“Será?”

“Eu diria que sim, levaria só pra garantir”

“Verdade, né? E ninguém percebe!”

“Beleza, então vai lá e pega um!”

“Agora?”

“É ué, só um pra gente ver se é fácil!”

“Tá bom então, vou lá! Mas depois você pega uma xícara!”

“Como vou pegar um xícara sem ninguém perceber?”

“Do mesmo jeito que vou pegar um garfo!”

“Mas estamos em um churrasco, é muito menos suspeito pegar um garfo que uma xícara!”

“É mesmo, né?”

“Claro, imagine eu andando por aí com uma xícara na mão! E tentando disfarçar ainda!”

“E agora?”

“Agora você vai lá e pega o garfo!”

“Ai, acho que tenho vergonha!”

“Ah, não acredito! O que é que tem! Pega lá, só pra tirar uma onda!”

“Não tenho coragem!”

“Jura? Pelo amor de Deus, hein! Que mulher é essa?”

“Vai lá e pega então, machão!”

“Eu pego, e você vai aprender como se faz, sou o rei do crime, é que você ainda não me conhece”

“Olha só, rei do crime, que prazer, hein!”

“Pois é, sou perigoso”

“Então pega o garfo!”

“Um garfo, e uma faca, pra te mostrar como sou mau!”

“Vai lá então, Cruela!”

“Olha, mais respeito com o chefe da máfia aqui, hein!”

“Não era rei do crime?”

“Minha filha, eu sou o que eu quiser, vai discutir?”

“Haha, cale a boca e vai lá pegar o garfo, já que é o Don Corleone!”

Ele levantou e foi em direção a cozinha. Nunca tinham se visto antes, mas aconteceu que, coincidentemente, foram parar em um churrasco onde conheciam apenas o dono da casa, acabaram se identificando um com o outro, afinal, estavam ambos sozinhos.

A conversa sobre pequenos furtos foi algo que surgiu naturalmente, assim como tanta intimidade entre eles, bem sabemos que é difícil acontecer isso, mas acontece. Antes de planejarem crimes, já tinham aberto o coração, contado cada um suas amarguras e planos, e, bem, como sempre nesses casos, já nutriam uma certa admiração mútua.

Eis que ele volta, com um sorriso de orelha a orelha no rosto consideravelmente corado.

“E aí, pegou o garfo?”

“Eu não, mas peguei uma cerveja, toma aí!”

“Olha só, radical você!”

“Não me meto em coisa pequena”

“Só roubo grande, né?”

“Pois é, não sabe qual estou planejando agora”

“Ah é? Qual?”

“Seu coração”

Silêncio constrangedor.

Ele aproveitou para abrir a sua lata, pareceu demorar uns três minutos apenas para executar uma tarefa tão primaria, ela olhava para o chão, para ele, e ria.

“Você já bebeu um monte, né?”

“Bem, eu estava planejando roubar as coisas da cozinha do meu amigo agora a pouco, que acha?”

“Você ta querendo roubar demais pro meu gosto”

“Quer dizer então que não vou precisar roubar nada?”

Ela riu mais um pouco, abaixou a cabeça e então, subitamente, deu um rápido beijo em seus lábios.

“Só um garfo ali, pra mostrar que é mesmo o fodão!”

16 de janeiro de 2012

Half Day Closing

Janela fechada, como sempre. Assim como a porta trancada e a cortina semi-aberta.

A cadeira bamba de madeira ameaçava quebrar a qualquer momento com o imenso peso que era obrigada a suportar. Ele pesava o mundo, e tentava descarregar um pouco desse fardo em um caderno qualquer, cheio de textos pela metade, rasuras, e borrões de lágrimas.

As dozes de uísque e as dúzias de cigarros em nada ajudavam, a escrivaninha tremia, e a já parca luz da velha lamparina piscava ainda mais.

Até que ele, já gasto pelas tantas batalhas perdidas, acabou cedendo para a força jovial e aterradora daquele caderno, o empurrou, encostou a testa na mesa e chorou.

Escrever descarrega. Amaldiçoou toda a infinidade de gerações do infeliz inventor de tal frase. Ele bem sabia o que descarregava, e não era forçar ainda mais os seus já moribundos neurônios com sentimentalismo de banca de jornal.

O que descarregava era chorar.

Chorava de soluçar, de ensopar o rosto e engasgar. Às vezes, ensaiava uns socos na mesa, mas sem qualquer tipo de resultado.

Quando as lágrimas pareceram ter secado, secou também o resto da garrafa e tentou, mais uma vez, escrever algo. Mas a mão já não o obedecia tão bem assim, e ele já nem pensava com clareza.

Aliás, a única coisa que ele sabia com clareza era que não estava bem, e não importava o quanto ele bebesse, escrevesse ou chorasse, não vinha ajudando.

Se arrastou até a janela e a abriu, lá embaixo a rua dormia e apenas um pequeno vira-lata fuçava as sarjetas.

Com forças vindas sabe-se lá de onde, arremessou o caderno com uma fúria aterradora em direção à noite esfumaçada.

Foi para a cama e torceu para não acordar por uns três dias.

O caderno então serviu para o pequeno vira-lata desabafar, e exprimir todas as suas amarguras de infeliz canino abandonado a própria sorte em uma grande cidade. Espalhando pedaços de tristes poesias pelas ruas.

***

Uma singela homenagem aos dois anos deste blog.

Em todos os meus anos de blog, é o primeiro vídeo que posto. Então trate de assistir.

13 de janeiro de 2012

Questão de Ideais

“Não cara, não sou mais anarquista, isso não existe mais”

“Mas se você agora não é anarquista,é o que?”

“Aah, tanto faz, independente, militante, vagabundo, foda-se o caralho!”

“Foda-se o caralho?”

“É, exatamente isso, sou isso! Visão política: Foda-se o caralho”

“Haha, interessante”

“Interessante vai ser quando eu dominar o mundo, cara”

“Você só fala merda, né?”

“Eu não, mas você me vem com pergunta besta, anarquismo e blábláblá, perde mais tempo com isso não, cara, foda-se o caralho, to falando!”

“Não fale como se isso fosse muito sério, você acabou de inventar essa porra!”

“Porra é esse carro aí na frente que não anda! Buzina aí bicho!”

“Não adianta, não ta vendo o tamanho da fila na frente?”

“Buzina aí! Só pra fazer barulho!”

“Eu não, não sou anarquista”

“É foda-se o caralho, já falei!”

“Cale a boca, isso não faz o menor sentido!”

“Faz sim, um dia você vai ver que faz!”

“Você é louco, acabou de inventar essa merda. Cale a boca!”

Finalmente, ficaram em silêncio dentro do carro, ao contrário do mundo que urrava lá fora, no veículo só se escutavam as notas rasgadas de algum solo infindável feito por algum guitarrista virtuoso morto por overdose. Aquele que sentava no banco do passageiro, militante da foda-se o caralho, agora batucava discretamente no painel do carro, o motorista se limitava a olhar o horizonte e pensar em alguma coisa mais leve do que dominação do mundo por meio de ideologias instantâneas baseadas em palavrões.

Os carros andaram um pouco, o passageiro deu um grito alucinado de satisfação, o motorista o mandou, novamente, calar a boca. Ficaram então em silencio, e o solo de guitarra ainda não tinha acabado quando pararam no semáforo, primeiros da fila.

Muitas pessoas passaram na frente do carro, todas com pressa, se atropelando impiedosamente para chegar primeiro ao prometido e glorioso outro lado da calçada, os dois apenas observavam indiferentes aquele monte de corpos desfilando na sua frente.

Todos ali, com longas e sofridas histórias, todos ali com suas mágoas e desilusões, inocentes e sofredores, assim como todos nós.

E também a moça, de bolsa florida, cabelo perfeita e cuidadosamente desalinhado, roupas largas e colares imensos. Essa moça que, atravessando a rua com muito menos desespero que seus companheiros instantâneos, lançou descompromissadamente um olhar para dentro daquele carro que berrava notas aleatórias de uma guitarra alucinada.

E bastou uma fração de segundo para que seu olhar se cruzasse com o do motorista, e ela, então, pegar o ritmo da multidão, olhando para o outro lado.

O semáforo abriu, e o solo acabou, o carro então andava lentamente.

“Era mesmo ela?”

“Volta aquela música, ela é legal”

“Não mude de assunto. E eu não agüento mais aquele solo”

“Era ela sim”

“Porra...”

“É, numa merda de cidade desse tamanho, com um milhão de avenidas para se atravessar”

“É... Que bosta!”

“Volta lá a música!”

“Não cara, solo chato do caralho!”

“É...”

“Será que ela te viu?”

“Claro que viu! Não reparou como ela olhou pra dentro do carro e depois saiu correndo?”

“É, reparei...”

“Porque perguntou se ela tinha me visto então?”

“Talvez você não tivesse percebido... Mas e aí?”

“Aí o que?”

“Você ué, como você está?”

“Ah, normal...”

“Normal nada, você ficou diferente, fala aí”

“Não tem o que falar, falar o que?”

“Como se sente...”

“Ah velho, foda-se o caralho”

“Haha, eu disse que fazia sentido!”

“Você é um idiota”

11 de janeiro de 2012

O Prazer é Todo Meu

Como a lágrima que não consegue descer
E esse nó na garganta
Somos todos humanos, afinal
Somos todos aparência e mentira
Somos todos amor.

Fracos e inconsequentes
Nos matando por maneiras de fugir
Sábia ingratidão
Daqueles que não são bons, e querem mais - qualquer coisa.
Daqueles que não acham que respirar seja uma dádiva.

Foi um prazer te conhecer
E chocar nossas máscaras naquele beijo
E quando a minha cair
Por favor, não se assuste
Por mais que a imagem que eu vejo todo dia no espelho também não me convença
Só tenho medo da solidão.

Caminhamos todos de mãos dadas
Para a casa do Diabo
E ainda perdemos tempo nos preocupando em sermos o que não somos
Em sentirmos o que não existe - não em mim
Em chorar pelo que não merece - não você

Ontem, fiquei triste a toa
Triste por querer minha inocência de volta
Pena que ela tenha ficado
Na minha última atitude sincera, um bom tempo atrás.

Agora, já não sei quem sou
Não que faça diferença
Eu nunca soube mesmo - e tenho medo de saber.

9 de janeiro de 2012

Doce Amargor

Ao acordar, no fim da tarde, tudo o que ele conseguiu sentir foi desespero.

A luz do Sol entrava pela janela e deixava a casa, que não tinha nenhuma lâmpada acesa, com um clima melancólico e opressor, fazendo com que qualquer um se sentisse um invasor ali.

Ele não fazia a menor idéia de que horas eram, nem por quanto tinha dormido, sua cabeça doía e sua respiração era pesada.

Na falta de algo mais forte e destrutivo, resolveu preparar um café. Para isso, se aventurou pelo corredor escuro e claustrofóbico, tentando assimilar o que tinha acontecido nas ultimas horas, tentando justificar para si mesmo o que tinha dito, e minimizar o que tinha escutado.

E então, como uma antiga montanha ou um rio que nunca parou de correr, ela estava sentada na área da casa, olhando as primeiras estrelas aparecerem no céu e fumando vagarosamente seu cigarro, ele tentou ignorar o turbilhão de sensações que o afligiram e falar com o tom mais normal do mundo que “vou fazer um café, quer um pouco?”.

Não funcionou, e sua voz saiu rouca, baixa e deprimente. Ela também sussurrou algo que ele só identificou como um “não obrigado” por causa de seu movimento com a cabeça.

De qualquer maneira, ele preparou dois copos. Encheu um para si, e deixou o resto no bule.

Tinha sido um dia difícil. Uma manhã vagarosa, um almoço traiçoeiro e uma tarde impiedosa. O que ele queria era poder, naquele momento, dormir e acordar dez anos depois. Ou antes.

Se tivesse mesmo que acordar.

De qualquer maneira ele não conseguiu deixar de abrir um sorriso quando escutou o barulho do fogão sendo aceso e, instantes depois, alguém assoprando qualquer coisa.

Ele pode voltar a dormir em paz, ela tomou o melhor café de sua vida, sem um mísero grão de açúcar.

3 de janeiro de 2012

O Dia da Libertação

Terá um sorriso ainda alguma força?
Quando se matam por papel
E trocam papel por morte?

Onde quem mais tem mais pode
Onde quem pode tem o que quer
E quem quer não pode nada,
Um abraço vale de algo?

Um pôr do Sol
Ou incontáveis flores
De infinitas cores e indescritíveis aromas
Vão nos salvar de nossa furia quando seu irmão me matar?

E aquele cardume de peixes
Aquele pássaro tão talentoso
Com sua musica de melodia tão brilhante
E suas penas de tons tão únicos
Vão sobreviver quando enjoarmos deles?

Sangue derramado em nosso nome
Sacrificio jogado na nossa cara
Pão dormido com café fraco
Cheiro nauseante e almoço vagabundo
Noites em claro e lágrimas escondidas
Porres inconsequentes, desilusões
Contas no final do mês, pilulas mágicas com a formula da felicidade - conformismo
Auto enganação, auto mutilação, automóveis.
Vão nos salvar de algo?

O que nos resta
Se minha última gota de sanidade
Escorreu pela minha testa quando corri para pegar o onibus?
Quando a minha ultima alegria verdadeira
Vai ser jogada ao mar num ato infantil?
Se a felicidade está em liquidação
E ainda assim não temos dinheiro para comprar?

De que vai adiantar chegar no topo do monte mais alto
E apreciar toda a beleza do mundo
Se o Diabo não quer mais abrir mão dele?

Se eu posso morrer de fome
Se eu posso te matar antes
Se você pode me matar
Se nunca iremos nos conhecer
Se eu posso odiar
E ser odiado
Se você entrasse na minha casa,
sentasse no meu sofá e gritasse aos quatro cantos do mundo que é eu
Meu cachorro te abanaria o rabo
Minha mãe lhe ofereceria um café
Meu Deus te mandaria para o inferno
E eu estaria no meu quarto alheio a tudo.

E amanhã, quando eu acordar, estarei melhor
Vou pensar na criação do homem
E no que ele criou
E vou querer dormir de novo, e tentar não sonhar mais.

O que nos resta, afinal de contas?
Um beijo?
Festa de Ano Novo?
Fé?
Gasolina aditivada?
Amor?
É isso que vai nos ajudar?

O que colocará um fim nisso tudo?
Quem decide ate onde aguentaremos?
O que restou, agora no fim?
Um rio? Uma praia? Uma árvore ancestral?
Uma pintura na parede gélida de uma caverna?
Uma bandeira na lua?
Nós?
Deus, ou a Dow Jones?

2 de janeiro de 2012

Seleção de Elenco

(ou: Mais um Texto Para Chamar Atenção)

Dia desses, faz um pouco de tempo já, uma cena grudou na minha cabeça.

Só não espere nada emocionante, não vi alguém ajudando alguém, uma criança morrendo de fome na esquina, ou um gato confortavelmente deitado na barriga de um cachorro feroz com cara de feliz.

Pra variar um pouco, entrei no ônibus, que, também surpreendentemente, não tinha um santo lugar vago para remédio.

Pois bem, me acomodei confortavelmente em um canto do veículo, próximo de uma garota com, sei lá, uns dezesseis anos.

Ou uns vinte e cinco. É impossível saber a idade dessas meninas.

Seja como for, lá estava eu e lá estava ela. Mas não, não me apaixonei perdidamente ou algo do tipo, pra ser bem sincero, eu mal a olhei. O que me chamou a atenção, na verdade, foi um cara.

Um pouco mais novo (ou mais velho, né) que ela, ele entrou no ônibus e logo ativou o seu modo charmoso, parou exatamente ao seu lado e ficou a olhando de cima em baixo.

Não me pergunte que sentido isso faz, mas parecia fazer algum para ele.

Ela até esboçou algum sorriso, de satisfação ou constrangimento, e logo desceu. Eu também ri um pouco, da cara dele. Mas disfarçadamente para não apanhar.

Ele continuou lá com a pose, torcendo para que alguma outra garota perdida dentro do ônibus o achasse, no mínimo, interessante, levantasse de seu lugar e fosse lá sorrir para ele. Ele então diria para ela que estava voltando da academia, e passaria o seu facebook, eles conversariam um pouco por lá, marcariam um encontro, começariam uma história qualquer e, um mês e meio depois, iriam cada um para o seu canto, porque ele foi na casa de um amigo, sem avisar, e, coincidentemente, uma menina que ela não gostava estava por lá e, reza a lenda, ela até buscou uma cerveja para ele.

Bem, mas não foi isso o que aconteceu, como eu já disse, o máximo que ele conseguiu foi me fazer rir disfarçadamente.

Pouco tempo depois, chegou a hora do galã descer e, no mesmo ponto que ele, uma mulher, por volta dos quarenta anos, com uma criança no colo e umas sacolas na mão.

Do tipo que, definitivamente, não é a presa do bonitão.

Os dois foram ao mesmo tempo em direção a porta, ela se equilibrando de maneira quase sobrenatural com o moleque no colo e as sacolas cheias de chuchu e detergente, ele com uma das mãos no bolso e a outra deslizando sedutoramente pelos cabelos, com o olhar vago.

Quando chegaram na porta já aberta, com o ônibus já parado, o Don Juan quase atropelou a infeliz das sacolas, fazendo-a derrubar uns chuchus, e descendo de forma irresistível as escadas.

Bem, se eu não estivesse nessa história apenas como observador, e sim como personagem, eu, obviamente, não seria a garota cobiçada.

Não seria o galã, pois, infelizmente, sou feio (e tenho alguns neurônios), nem a mulher com o moleque e as sacolas. Também não seria o moleque.

Eu seria um dos chuchus esparramados, que devem estar naquela esquina até hoje.