29 de abril de 2013

Prefiro Tentar Acreditar que Eu Estava Mesmo Bêbado Demais

e tudo bem
com seu choro
a gente já disse
que se amava
a gente diz
tanta coisa

tudo bem
se hoje
eu te falar
que não tenho
mais nada

nada a dizer

Não mais
Algo que não
Doesse também
Antes de tudo

26 de abril de 2013

A Vantagem de Ser Um Poeta Falido

eu não tenho
dinheiro
vasculhei a carteira
e achei
uma conta
vencida

uma carta chegou
era do banco
uma ameaça
muito educada
me chamavam de senhor
eles precisam
de dinheiro
de mais
dinheiro
muito
dinheiro

fodido
e não pago

estuprado

eu não tenho
dinheiro
mas você tem sua
poesia
me disseram
com um escárnio
muito oportuno
nós rimos

eu tenho minha
poesia
mas ela
se perdeu pelo caminho
e ainda não me trouxe
uma cerveja
nem um cigarro
muito menos
um grande amor
daqueles sinceros
que só quem tem
dinheiro
parece conseguir.

21 de abril de 2013

Um Para Sempre

voce
que muito cedo
bem ou mal
me mostrou
o que é bom na vida
mesmo escondida
mesmo negando
mesmo
se enganando
voce, que me ensinou
mesmo que
mudando após
como ser
desde criança

voce
que fez sacrificios
na época
para mim
banais
hoje
absursos
santos
por mim

voce
que nunca deixou
um dia sequer
de dizer que me ama
(mesmo que
mentalmente
para não dar
esse seu braço quebrado
a torcer)

voce
de quem tanto discordo
mas que
sempre me deu
essa oportunidade
com valores tão
diferentes
dos meus
mas que nunca
os condenou
voce

mesmo se passasse
uma semana
como já passou
um mes
como nunca
um ano
inimaginavel
um eternidade
hiperbolica
(se é que essa palavra existe)
sem falar comigo
eu sei
que, toda noite
as seis, sete
da manhã
quando chego sem conseguir
abrir a porta
direito
e derrubando as cadeiras
os copos
e trombando nas paredes
voce dirá

e não há
o que saia
de mim
além da coisa mais sincera
que já disse
ou
direi

eu também!

9 de abril de 2013

Eu Não Sou Uma Tia

Vai ficar tudo bem. Uma vez me disseram isso, eu era uma criança chorando escondida no canto do pátio da escola, uma zeladora apareceu do nada, me abraçou. Vai ficar tudo bem, ela me disse.

E cá estou eu hoje. Realmente, está tudo muito bem.

É sempre um monte de lamúrias, um monte de maldições, um grande monte de bosta que sai da minha boca nessas horas. Sinto-me, muitas vezes, preparado para discutir até o fim sobre qualquer coisa, naquela noite, não foi diferente. Mas eu queria ir, você não, que inferno, não é? Acabamos indo os dois para a puta que nos pariu, me dá um abraço, não consigo.

Existe até hoje um salgadinho sabor picanha por aí no mercado. Eu, criança, certa vez fui ao mercado a pedido da minha mãe comprar arroz, ou macarrão, ou detergente ou seja lá o que for e vi o tal salgadinho, contei o troco, não dava, fui embora pensando nele.

Dois dias depois, ainda com a porra do salgadinho em mente, pedi dinheiro para minha mãe, expliquei para ela que parecia ser uma delícia, ela me deu sem titubear, mesmo que, pra gente, aliás, pra gente não, pra ela, naquela época, o dinheiro de uma porra de um salgadinho significava muita coisa. Um salgadinho custa a mesma coisa que dez pães. Comprei o pacote, radiante, guardei-o na minha mochila. Sabor picanha! E olha que, aquela altura, eu acho que nunca tinha comido picanha na vida. Iria saboreá-lo no dia seguinte, no recreio.

Viadinho, filho da puta, beiço de jegue, sei lá, essas coisas que gritavam pra mim. Me dá um pouco dessa porra aí, espera eu comer um pouco, espera o caralho, daí! Espera mano, por favor! Dá essa porra aqui. Alguém puxa, o saco rompe, eis o chão cheio de salgadinhos, uma turma de crianças felizes e saudáveis sai rindo e correndo, eu lambo meus dedos cheios de farelo, me sinto a alma mais desgraçada que já pisou na face da terra, sento e choro no canto do pátio.

Então vem essa zeladora, essa Tia, como chamávamos, me dá um abraço, vai ficar tudo bem. Eu não gostava dela, muito menos que me abraçassem assim, do nada. Soluçando, olho para a cara dela. Quer outro salgadinho? Ela me pergunta. Quero que vá pro inferno esse salgadinho, grito, eu só quero ficar em paz! Grito mais ainda, babando, rouco, cara de louco, vermelho, cego de raiva. Ela resmunga algo que não presto atenção e lá está ela varrendo o chão, alguns moleques fizeram uma verdadeira bagunça ali.

Sabe, porra de Tia do caralho, será mesmo que ela achou que eu iria abraçá-la de volta? Comer outro pacote que não era sabor maldita picanha do inferno? Ver como, apesar de tudo, a vida ainda era boa, os pássaros ainda cantavam e o sol ainda brilhava? Que alguém se importava comigo? Eu não precisava de uma zeladora caridosa, muito menos de um pacote de massa de milho frita com um sabor artificial, eu precisava de amigos, precisava de alguém para dividir, de bom grado, o meu lanche. Tia dos infernos.

E o que espera de mim, afinal? Um salgadinho sabor picanha? Eu posso te dar um, posso te dar uma caixa, posso te dar uma picanha de verdade, se quiser! Mas o que faria com ela, não é? Não se abraça uma picanha, e ela não dirá para você, sangrando, que tudo ficará bem.

Vai ver é isso, não passo de um pedaço de carne.

2 de abril de 2013

Poema Para Você Nunca Deixar de Cuidar do Seu Cabelo

são todos
tão bons
nesse ritmo
o mundo logo será
habitável

alguém mostra
um video de um filho da puta
apanhando até a morte no meio da rua
as pessoas o cercam
e o cara, apenas de cueca
e com o cabelo ridiculo
corre de um lado
para o outro
então
outras pessoas
que não tem o cabelo ridiculo
lhe acertam com paus
e ele corre
e foge
e tenta se proteger
depois
cambaleia e cai
vem alguém
com o cabelo lindo
e quebra uma garrafa na sua cabeça
dá pra ouvir seu grito
e ver um pouco de sangue
esguichar
mas o filho da puta
se levanta
e a pessoa que filma grita
JÁ TÁ BOM!
sim, estava ótimo
o filho da puta
dá dois passos
e cai – de novo!
então, ninguém fala
a camera chega perto da carcaça
e mostra um rosto desfigurado
ninguém fala
o vídeo acaba
o corpo ficou lá
as pessoas foram embora

mas as artes!
quanta poesia!
vamos lutar por nossos direitos!
o pastor que não gosta de gays falando merda!
ouça minha música nova!
veja esse filme, que sensacional!
espalhemos o amor!
eu te amo
você me ama!
uma foto do por-do-sol
meu óculos novo com cara de velho!
o que faremos sábado?
me empreste aquele seu livro?
aquele, que ninguém entende!
preciso estudar

como somos bons
nossos cabelos são lindos
temos cultura
temos amor
temos dinheiro
temos comida
temos revolta guardada em uma caixinha embaixo da cama
então, nas horas propícias
escolhemos uma bandeira
que combine com nosso tenis
e vamos para a rua

e o filho da puta
teve o que merecia
seu cabelo ficou muito melhor
todo sujo
de sangue.