25 de agosto de 2010

Samba do que Não Passa

Vai passar
O bloco na avenida, o Carnaval
Sua ferida
Essa dor tão doída
Essa vida

Vai passar
Quando menos espera,vai sonhar
Em sentir uma alegria, uma paz
Que não vai durar

Vai passar
Essa fase feliz uma triste virá
E você me diz
Que não vai tentar
Mudar

Vai passar
Esse dia ruim
Mas você vai chorar
Quando ver que não parou
Que a tristeza teve fim

E vai chegar
O dia em que você vai perceber
Que valeu a pena
Não desistir de sofrer

Porque vai amar
Como eu amo alguém
Como amou ninguém
E pode se alegrar
Porque esse amor
Não vai passar.

21 de agosto de 2010

Da Culpa, Da Competição, Da Melancolia Desesperadora (ou Desespero Melancólico), Da Saudade e Do Medo

Não sei se estou tão bem quanto aparento. Quanto deveria.

No fundo, devo ser um grande ingrato.  Mas a questão é que eu não sei se as coisas estão tão boas a ponto de achar que eu deveria estar melhor.

Se elas estiverem, sou ingrato. Se não estiverem, não sei quando estarão.

Todo dia, uma sensação estranha, uma melancolia desesperadora, ou desespero melancólico (e não sei o que é pior) toma conta de mim, e eu simplesmente não sei lidar com isso.

E não adianta eu falar que não sei porque, no fundo eu sei. É a velha maldita questão do tempo, esse mesmo que faz a questão ser velha. Quer dizer, esse é só um dos fatores.

Todo dia, todo santo dia que Deus dá, eu penso no futuro. Não quero viver pra mostrar, exibir e provar para os outros que, no fundo, eu posso. Ninguém acredita em mim, e eu não me importo, eu poderia tentar ser o melhor em qualquer coisa, mas sei que não sou o melhor, em nada. Não quero provar o contrário para o mundo, sendo que nem eu acredito que posso.

Aliás, eu não preciso disso. Sabe, eu não preciso de muitas coisas. Me acho um merda às vezes, mas não tenho grandes ambições, eu nem gosto de sair de casa! Por isso penso no futuro. É um raciocínio estranho, mas eu fico preocupado justamente por ser despreocupado, entende? Não quero ser rico, não quero ser bonito, não quero ter duzentas casas, televisão 3D ou carro do ano. Não quero passar o dia esquentando a cabeça pra ganhar dinheiro e, por isso, brigar com quem amo. Não quero esquentar a cabeça com nada.

Daí eu me preocupo comigo mesmo. Daí eu sinto melancolia desesperadora e desespero melancólico.

Daí vejo que já estou esquentando a cabeça, por não querer esquentar a cabeça. Por Deus, não deve ser errado querer apenas viver, não pode. Tudo o que eu quero é só deixar que as coisas aconteçam, sabe? Tem gente que tem um milhão de objetivos na vida, sinceramente, meu único objetivo é não morrer sem ter vivido. E não digo vivido no sentido de aproveitar a vida ao máximo e essas coisas, talvez até seja, mas o meu “aproveitar a vida ao máximo” se resume a ver as pessoas que amo felizes. E só. Isso me deixa feliz, é só isso que quero, nada mais.

Mas porque diabos algo em mim diz que isso é errado? Não pode ser, não é pra ser. Qual a vantagem de desperdiçar toda a minha vida tentando provar algo que nem eu acredito para os outros?

Todas essas indagações, somadas à saudade (que é o outro fator) me deixam assim, achando que sou mal agradecido, ou que as coisas não estão tão boas quanto parecem. Até porque, elas nunca estarão.

Sabe o que é pior, me sinto culpado por ser assim. Sei que vou acabar decepcionando muitas pessoas, dessas mesmo que amo, por ser um merda sem ambição e sem futuro.

E aí para fazer as pessoas que amo felizes, eu vou acabar me traindo e lutando para “vencer”, mesmo sem competir, mas se tudo o que quero é vê-las e fazê-las felizes, vale a pena.

Vou competir, e vou perder. Perder a derrota de ser um vencedor e descobrir que não há pódio, nem troféu, muito menos banho de champagne.

17 de agosto de 2010

Velho Novo Romance

“Desculpe moço, mas eu tenho namorado” Seria o fim para qualquer galanteador barato, mas não para aquele, que lançou seu sorriso mais cafajeste e disse passando a mão no rosto da moça:

“E se eu disser que eu também?” Olhos e sorriso se iluminaram no rosto dela, surpreendentemente, sem culpa.

Já se conheciam  ha algum tempo, e sempre foram, antes de tudo, bons amigos. Ela pedia conselhos, ele os dava, sempre sorrindo, sempre galanteador, às vezes ele se metia em encrenca, ela brigava com ele, ele a abraçava com ar despreocupado, por mais que seu interior gritasse de desespero, dava-lhe um beijo na testa e dizia para ficar tranquila, qualquer coisa eu digo que tenho uma amiga linha dura.

E, de fato, ela não precisava se preocupar, ele sempre dava um jeito, assim como seus conselhos sempre foram, incrivelmente, os melhores.

Eram tão amigos que nasceu aí a brincadeira de se tratarem com namorados, primeiro para confundir um pouco os amigos que sempre desconfiaram dos dois, e segundo porque achavam divertido mesmo.

Assim, a confiança e a amizade foram crescendo, e, sabe como é, eles eram jovens e todo jovem em uma situação dessa só tem uma saída, se apaixonar. Foi o que fizeram, em segredo. Aliás, essa foi a primeira coisa que esconderam um do outro.

Até que chegou o dia da festa, onde ficaram conversando e bebendo em um sofá a noite inteira, e quando ela foi levantar, justamente por causa do vinho, ou da cerveja, ou da vodka, ou daquele outro negócio vermelho, caiu no colo dele, rindo, e continuou rindo quando o beijo acabou.

Se olharam, ficaram sérios subitamente, ela foi retribuir o beijo, e ele, mesmo confuso, não perdeu o charme, virou o rosto, e sussurrou no ouvido dela, desculpe, moça, mas eu tenho namorada, levantou e trouxe um copo de água com bastante açucar, pra ver se esse porre melhora, amor.

Mas é claro que depois desse dia eles nunca foram os mesmos, sobretudo um com o outro, não se abraçavam mais como antes, nem se olhavam nos olhos, muito menos se tratavam como namorados, afinal, agora já não eram mais apenas bons amigos. Ninguém sabia o que eram.

A situação foi piorando, até que ele não aguentou mais, e marcou uma conversa, disse tudo o que tinha para dizer, tudo o que estava entalado em sua garganta.

E, depois de algumas lágrimas, e de algumas risadas, ele foi beijá-la de novo, dessa vez devagar, sóbrio, queria sentir, aproveitar cada segundo. Até ela virar o rosto.

“Desculpe moço, mas eu tenho namorado” Seria o fim para qualquer galanteador barato, mas não para aquele, que lançou seu sorriso mais cafajeste e disse passando a mão no rosto da moça:

“E se eu disser que eu também?” Olhos e sorriso se iluminaram no rosto dela, surpreendentemente, sem culpa.

Então se beijaram, e, até onde se sabe, foram felizes.

5 de agosto de 2010

Antônimos, Sinônimos

“As vezes eu te amo, sabia?”

Ela quebrou o silêncio sepulcral que tomava a sala. Os dois já tinham brigado praticamente o dia todo e agora simplesmente olhavam para baixo.

“As vezes eu te amo, sabia?”

Ele levantou a cabeça devagar, procurando os olhos de quem havia lhe dito isso, pensava que neles ele encontraria a verdade sobre essa frase que tanto lhe atingiu. Mas não os encontrou, ela olhava para baixo, parecia arrependida de dizer aquilo, como uma criança após quebrar um prato.

“As vezes eu te amo, sabia?”

“Olhe pra mim” Ele disse, assim, nem calmo nem nervoso, sem gritar nem sussurar, sem pedir nem ordenar, apenas disse. Ela olhou. “Diga de novo” ela tentou o olhar nos olhos, não conseguiu, abaixou a cabeça de novo e começou a chorar de verdade, soluçando e molhando o chão da sala com suas lágrimas.

Ele levantou e sentou ao seu lado, delicadamente ergueu seu rosto, para que ela não pudesse escapar ao seu olhar “Diga de novo”.

Ela balbuciou algumas coisas entre as lágrimas, e ele sorriu. “Não é verdade”.

Ela parou de chorar, como se, com isso, pedisse que ele terminasse, se explicasse, ele entendeu.

“Se fosse verdade, você não falaria isso usando essa nossa brincadeira besta. Se você realmente me odiasse, diria assim, com todas as letras. Se isso fosse verdade você diria agora ‘eu te odeio’ olhando nos meu olhos e deixaria de lado essa nossa gracinha, essa de dizer ‘eu te odeio’ ao invés de ‘eu te amo’ e vice versa”.

Ela olhou fixamente para ele, e um pequeno e sincero sorriso brotou em seus lábios.

“Mas eu te odeio mesmo, seu filho da puta” Ela sussurou, e eles tiveram a melhor noite em muito tempo.