Não sei quanto tempo faz, talvez uns dez anos, talvez um pouco mais, ainda éramos eu, irmã, vó, mãe e tio, se bem que o tio por causa da religião não comemorava o Natal. Não comemora, aliás, o esperto.
Pois, bem, me lembro como se fosse hoje, como se fosse agora, eu estava com minha irmã no sofá da sala, assistindo alguma merda na televisão, esperando minha vó terminar de temperar qualquer coisa, que ela sempre fazia com tanto capricho, quando minha mãe entra, com cara triste, e diz que tinha sido um ano foi difícil, e que não teríamos presente.
Me lembro do nó na garganta, em partes por causa do presente, mas também pela minha mãe, senti um aperto enorme no peito vê-la daquela maneira.
Ela disse que o importante era ficarmos juntos pra sempre, acontecesse o que acontecesse, disso nunca me esqueci.
Comemos seja lá o que for que minha vó fez, já tinha até esquecido do presente que não existia, então, pouco depois da meia noite, quando minha mãe até me deixou beber um golinho de sidra, veja só, ela me pediu para ir pegar um chinelo para ela, embaixo da cama.
E lá estava, reluzente, uma caixa grande, embrulhada em papel dourado, pesada, pedindo para ser aberta. Corri para a sala com ela nos braços, rasguei o papel com uma ferocidade absurda, eu já sabia o que era mesmo antes de abrir, mas ainda assim, não conseguia conter a ansiedade.
E então lá estava, um Super Nintendo, novinho em folha.
Não consegui dormir.
Dessa vez faz mais tempo, meu pai ainda era vivo, mas a turma em casa era a mesma, eu, irmã, mãe, vó e tio trancado no quarto dormindo, ou lendo, ou seja lá o que for.
Assistíamos televisão, quando minha mãe manda eu e minha irmã na cozinha, fazer não sei o que.
Lá estavam, dois sacos imensos, repletos de brinquedos. A alegria que senti tirando eles de lá de dentro, abrindo as caixas, brincando só um pouquinho com cada um para, logo depois, descobrir o que mais eu podia encontrar dentro daquele saco, era indescritível.
Meu pai passou depois, rápido, não entrou nem desceu do carro, me deu um carro de polícia que brinquei muito pouco.
Também não dormi aquela noite, tinha muito o que brincar com os zilhares de presentes que ganhei da minha mãe.
Magia do Natal? O caralho, Magia do Décimo Terceiro, isso sim.
Sei que minha mãe, se pudesse, me daria um Super Nintendo e um saco gigante de brinquedos por mês, mas o fato é que ela não tinha dinheiro para isso, apenas no abençoado Natal.
Embora eu tenha uma criação cristã, Natal em casa nunca foi esse tipo de festa, sinceramente, eu não vejo muito de Jesus no Natal, só os presépios mesmo. Não suporto o tal espírito natalino, não consigo entender porque as pessoas se sentem tão bem nessa época. E aqui em casa todo mundo é assim.
Me senti mal ao perceber que, só fui presentear as pessoas que amo em uma data em que a sociedade me obriga. Uma data que eu, por sinal, detesto.
O problema é que não recebo décimo terceiro.
To falando, Natal é uma bosta.

