26 de dezembro de 2010

Natal É Uma Bosta

Não sei quanto tempo faz, talvez uns dez anos, talvez um pouco mais, ainda éramos eu, irmã, vó, mãe e tio, se bem que o tio por causa da religião não comemorava o Natal. Não comemora, aliás, o esperto.

Pois, bem, me lembro como se fosse hoje, como se fosse agora, eu estava com minha irmã no sofá da sala, assistindo alguma merda na televisão, esperando minha vó terminar de temperar qualquer coisa, que ela sempre fazia com tanto capricho, quando minha mãe entra, com cara triste, e diz que tinha sido um ano foi difícil, e que não teríamos presente.

Me lembro do nó na garganta, em partes por causa do presente, mas também pela minha mãe, senti um aperto enorme no peito vê-la daquela maneira.

Ela disse que o importante era ficarmos juntos pra sempre, acontecesse o que acontecesse, disso nunca me esqueci.

Comemos seja lá o que for que minha vó fez, já tinha até esquecido do presente que não existia, então, pouco depois da meia noite, quando minha mãe até me deixou beber um golinho de sidra, veja só, ela me pediu para ir pegar um chinelo para ela, embaixo da cama.

E lá estava, reluzente, uma caixa grande, embrulhada em papel dourado, pesada, pedindo para ser aberta. Corri para a sala com ela nos braços, rasguei o papel com uma ferocidade absurda, eu já sabia o que era mesmo antes de abrir, mas ainda assim, não conseguia conter a ansiedade.

E então lá estava, um Super Nintendo, novinho em folha.

Não consegui dormir.

Dessa vez faz mais tempo, meu pai ainda era vivo, mas a turma em casa era a mesma, eu, irmã, mãe, vó e tio trancado no quarto dormindo, ou lendo, ou seja lá o que for.

Assistíamos televisão, quando minha mãe manda eu e minha irmã na cozinha, fazer não sei o que.

Lá estavam, dois sacos imensos, repletos de brinquedos. A alegria que senti tirando eles de lá de dentro, abrindo as caixas, brincando só um pouquinho com cada um para, logo depois, descobrir o que mais eu podia encontrar dentro daquele saco, era indescritível.

Meu pai passou depois, rápido, não entrou nem desceu do carro, me deu um carro de polícia que brinquei muito pouco.

Também não dormi aquela noite, tinha muito o que brincar com os zilhares de presentes que ganhei da minha mãe.

Magia do Natal? O caralho, Magia do Décimo Terceiro, isso sim.

Sei que minha mãe, se pudesse, me daria um Super Nintendo e um saco gigante de brinquedos por mês, mas o fato é que ela não tinha dinheiro para isso, apenas no abençoado Natal.

Embora eu tenha uma criação cristã, Natal em casa nunca foi esse tipo de festa, sinceramente, eu não vejo muito de Jesus no Natal, só os presépios mesmo. Não suporto o tal espírito natalino, não consigo entender porque as pessoas se sentem tão bem nessa época. E aqui em casa todo mundo é assim.

Me senti mal ao perceber que, só fui presentear as pessoas que amo em uma data em que a sociedade me obriga. Uma data que eu, por sinal, detesto.

O problema é que não recebo décimo terceiro.

To falando, Natal é uma bosta.

16 de dezembro de 2010

Novos Planos

Era madrugada, fria e escura, como essas de filme mesmo, as janelas dos quartos estavam fechadas, os cobertores puxados, e os corpos encolhidos.

E eles conversavam.

Cada um em seu celular, falavam devagar, como se sussurrassem um no ouvido do outro, como se, como tanto desejavam em seus íntimos, dividissem, de fato, aquela cama, naquela madrugada tão inesperadamente gelada.

Mas não falavam sobre dividir a cama, ou qualquer outra coisa, muito pelo contrário, falavam de separação, ele queria que ela lhe entregasse aquele CD, ela disse que ele teria que ir lá buscar, ele não riu, ela quase chorou.

Conversaram mais, cúmplices, como sempre foram, apesar da distância de três meses, conversavam, e não era apenas nas madrugadas frias, era em quase todas, solitárias.

O que ela não sabia é que ele pararia de ligar para fazer companhia na madrugada quando o contrato da operadora expirasse, e o número dela não fosse mais um dos “favoritos”, daqueles que ele podia ligar de graça.

O que ele não não sabia é que, com contrato e números novos no telefone, jamais arranjaria companhia melhor para dividir a cama, da maneira que fosse.

11 de dezembro de 2010

Além das Janelas Sujas

Estava com sua roupa de sair, aquela nova, que só usava em ocasiões especiais.

Estava com sua roupa de sair, sentado no sofá velho, olhando para o poste pela janela suja, sozinho.

Merecia algo naquele dia, qualquer coisa, mas é óbvio que não ganharia nada. Alguns estalos lá fora encheram sua casa com cheiro de pólvora, ele até gostava, mas acendeu um cigarro.

Quando este acabou, acendeu outro. Levantou e foi buscar seu presente. Uma garrafa, de qualquer coisa, nem ele sabia, comprou porque era forte e barato, deu um gole e fez uma careta. Deu outro.

Mais estalos, dessa vez um clarão. Foda-se, ele pensou, bebeu de novo.

E bebeu mais, bebeu até os olhos ficarem pesados e a segunda garrafa, bebeu até não sentir mais o corpo, até ver três postes através de cinco janelas, dessa vez limpas.

Os estalos e seus clarões aumentavam, algumas pessoas gritavam, ele aproveitava para fazer um pouco de luz também. Com o fósforo, para acender seus cigarros vagabundos.

E fumou, fumou até o segundo maço, fumou até a garganta arder, fumou até nem ele aguentar o cheiro.

E amaldiçoou, amaldiçoou até acabar seu estoque de impropérios, amaldiçoou até não conseguir mais falar, amaldiçoou até assustar o Diabo em sua festa nas profundezas do inferno.

E quando as luzes e o barulho chegaram ao ápice, quando algumas pessoas, vizinhos, gritavam ainda mais, ele dormiu ali mesmo no sofá, com a garrafa em uma mão e um cigarro aceso em outra. Ou desmaiou.

Não importa, todos festejavam, era seu aniversário, e todos festejavam.