9 de abril de 2013

Eu Não Sou Uma Tia

Vai ficar tudo bem. Uma vez me disseram isso, eu era uma criança chorando escondida no canto do pátio da escola, uma zeladora apareceu do nada, me abraçou. Vai ficar tudo bem, ela me disse.

E cá estou eu hoje. Realmente, está tudo muito bem.

É sempre um monte de lamúrias, um monte de maldições, um grande monte de bosta que sai da minha boca nessas horas. Sinto-me, muitas vezes, preparado para discutir até o fim sobre qualquer coisa, naquela noite, não foi diferente. Mas eu queria ir, você não, que inferno, não é? Acabamos indo os dois para a puta que nos pariu, me dá um abraço, não consigo.

Existe até hoje um salgadinho sabor picanha por aí no mercado. Eu, criança, certa vez fui ao mercado a pedido da minha mãe comprar arroz, ou macarrão, ou detergente ou seja lá o que for e vi o tal salgadinho, contei o troco, não dava, fui embora pensando nele.

Dois dias depois, ainda com a porra do salgadinho em mente, pedi dinheiro para minha mãe, expliquei para ela que parecia ser uma delícia, ela me deu sem titubear, mesmo que, pra gente, aliás, pra gente não, pra ela, naquela época, o dinheiro de uma porra de um salgadinho significava muita coisa. Um salgadinho custa a mesma coisa que dez pães. Comprei o pacote, radiante, guardei-o na minha mochila. Sabor picanha! E olha que, aquela altura, eu acho que nunca tinha comido picanha na vida. Iria saboreá-lo no dia seguinte, no recreio.

Viadinho, filho da puta, beiço de jegue, sei lá, essas coisas que gritavam pra mim. Me dá um pouco dessa porra aí, espera eu comer um pouco, espera o caralho, daí! Espera mano, por favor! Dá essa porra aqui. Alguém puxa, o saco rompe, eis o chão cheio de salgadinhos, uma turma de crianças felizes e saudáveis sai rindo e correndo, eu lambo meus dedos cheios de farelo, me sinto a alma mais desgraçada que já pisou na face da terra, sento e choro no canto do pátio.

Então vem essa zeladora, essa Tia, como chamávamos, me dá um abraço, vai ficar tudo bem. Eu não gostava dela, muito menos que me abraçassem assim, do nada. Soluçando, olho para a cara dela. Quer outro salgadinho? Ela me pergunta. Quero que vá pro inferno esse salgadinho, grito, eu só quero ficar em paz! Grito mais ainda, babando, rouco, cara de louco, vermelho, cego de raiva. Ela resmunga algo que não presto atenção e lá está ela varrendo o chão, alguns moleques fizeram uma verdadeira bagunça ali.

Sabe, porra de Tia do caralho, será mesmo que ela achou que eu iria abraçá-la de volta? Comer outro pacote que não era sabor maldita picanha do inferno? Ver como, apesar de tudo, a vida ainda era boa, os pássaros ainda cantavam e o sol ainda brilhava? Que alguém se importava comigo? Eu não precisava de uma zeladora caridosa, muito menos de um pacote de massa de milho frita com um sabor artificial, eu precisava de amigos, precisava de alguém para dividir, de bom grado, o meu lanche. Tia dos infernos.

E o que espera de mim, afinal? Um salgadinho sabor picanha? Eu posso te dar um, posso te dar uma caixa, posso te dar uma picanha de verdade, se quiser! Mas o que faria com ela, não é? Não se abraça uma picanha, e ela não dirá para você, sangrando, que tudo ficará bem.

Vai ver é isso, não passo de um pedaço de carne.

5 comentários:

Cynthia Osório disse...

quero morar aqui. engoli facilmente todo mau humor. adorei.

Larissa Bello disse...

Sempre estamos à procura de algo que nos preencha, não é mesmo? E sim, de vez em quando eu proseio. Hehehehe! E não, não me tornei vegetariana.

Bjos!

aline disse...

seria legal se a gente abraçasse a picanha e tudo ficasse bem, não é mesmo? sinceramente, eu ia adorar.
tô precisando de uma dose de esperança também... pra onde esses dias estão indo?

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Era o de picanha grelhada?
puts perdeu um salgadino mó top...
=D