(ou: Mais um Texto Para Chamar Atenção)
Dia desses, faz um pouco de tempo já, uma cena grudou na minha cabeça.
Só não espere nada emocionante, não vi alguém ajudando alguém, uma criança morrendo de fome na esquina, ou um gato confortavelmente deitado na barriga de um cachorro feroz com cara de feliz.
Pra variar um pouco, entrei no ônibus, que, também surpreendentemente, não tinha um santo lugar vago para remédio.
Pois bem, me acomodei confortavelmente em um canto do veículo, próximo de uma garota com, sei lá, uns dezesseis anos.
Ou uns vinte e cinco. É impossível saber a idade dessas meninas.
Seja como for, lá estava eu e lá estava ela. Mas não, não me apaixonei perdidamente ou algo do tipo, pra ser bem sincero, eu mal a olhei. O que me chamou a atenção, na verdade, foi um cara.
Um pouco mais novo (ou mais velho, né) que ela, ele entrou no ônibus e logo ativou o seu modo charmoso, parou exatamente ao seu lado e ficou a olhando de cima em baixo.
Não me pergunte que sentido isso faz, mas parecia fazer algum para ele.
Ela até esboçou algum sorriso, de satisfação ou constrangimento, e logo desceu. Eu também ri um pouco, da cara dele. Mas disfarçadamente para não apanhar.
Ele continuou lá com a pose, torcendo para que alguma outra garota perdida dentro do ônibus o achasse, no mínimo, interessante, levantasse de seu lugar e fosse lá sorrir para ele. Ele então diria para ela que estava voltando da academia, e passaria o seu facebook, eles conversariam um pouco por lá, marcariam um encontro, começariam uma história qualquer e, um mês e meio depois, iriam cada um para o seu canto, porque ele foi na casa de um amigo, sem avisar, e, coincidentemente, uma menina que ela não gostava estava por lá e, reza a lenda, ela até buscou uma cerveja para ele.
Bem, mas não foi isso o que aconteceu, como eu já disse, o máximo que ele conseguiu foi me fazer rir disfarçadamente.
Pouco tempo depois, chegou a hora do galã descer e, no mesmo ponto que ele, uma mulher, por volta dos quarenta anos, com uma criança no colo e umas sacolas na mão.
Do tipo que, definitivamente, não é a presa do bonitão.
Os dois foram ao mesmo tempo em direção a porta, ela se equilibrando de maneira quase sobrenatural com o moleque no colo e as sacolas cheias de chuchu e detergente, ele com uma das mãos no bolso e a outra deslizando sedutoramente pelos cabelos, com o olhar vago.
Quando chegaram na porta já aberta, com o ônibus já parado, o Don Juan quase atropelou a infeliz das sacolas, fazendo-a derrubar uns chuchus, e descendo de forma irresistível as escadas.
Bem, se eu não estivesse nessa história apenas como observador, e sim como personagem, eu, obviamente, não seria a garota cobiçada.
Não seria o galã, pois, infelizmente, sou feio (e tenho alguns neurônios), nem a mulher com o moleque e as sacolas. Também não seria o moleque.
Eu seria um dos chuchus esparramados, que devem estar naquela esquina até hoje.


3 comentários:
existem casos que só rolam dentro do ônibus e são os casos que eu mais gosto (:
há quem diga que chuchu não tem graça, mas eu acho que tu seria um chuchu bem engraçadinho, hehe
beeeeijas, Miné! ;*
Começou o ano bem, hein?! Hahaha, mas falando sério, chuchu ao molho branco, especialidade da mamãe, é um dos meus pratos favoritos, nada insignificante! Hahaha, aprecio.
Ônibus sempre com boas histórias para um bom observador.
HUAHUAHUAHUHA
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