15 de outubro de 2012

O Último Abraço de Boa Noite

Você foi embora, me deixando com meus cigarros, um livro melancólico, uma garrafa pela metade de conhaque, algum baseado num canto qualquer e uma música incrivelmente triste.

Sem saber direito como se despedir você saiu com pressa, procurando as suas coisas que tem um dom incrível de se espalhar pela minha casa. O celular, a carteira, a meia. Uma coisa em cada cômodo, peregrinos de mais uma noite especialmente intensa.

Você saiu assim, como sempre. Eu me perdia no livro e procurava um cinzeiro. Bebericava o conhaque e fazia umas caretas, tentando ignorar tudo o que tem acontecido. Levar tudo naturalmente, é a vida, você diria, as coisas acontecem, ninguém precisa se culpar, nem se responsabilizar.

Você volta que eu sei, cedo ou tarde, geralmente cedo, a campainha vai tocar e você vai dizer apenas que “sou eu”. Depois, como sempre, é tudo um mistério.

Você volta, sempre volta. Mas, às vezes, um pedaço seu, o que mais gosto, está longe, apreciando outras paisagens, sentindo outros aromas, se arriscando, como sempre, em amores diferentes.

Aquele livro que você tanto gosta e deixou aqui pra eu ler estava uma bosta, sinceramente. O conhaque começou a fazer efeito, então terminei mais um cigarro, deixei o livro de lado sem fazer a menor questão de marcar a página e fui dormir mais um pouco. A noite tinha sido muito longa, e eu ainda precisava digerir tudo o que tinha acontecido.

Acordei no fim da tarde, a luz moribunda do sol entrava pelas cortinas de um verde bucólico, deixando essa casa com uma opressora melancolia, pensei em sair, mas seriam sempre as mesmas coisas, então apenas peguei mais um entre os meus milhares de cobertores e deitei em frente à televisão.

Você volta, mas eu desisti de esperar. Sinceramente, agora quem tem que decidir voltar ou não sou eu. Você tocando aquela porra de campainha agora, ou daqui um ano.

E trate de esperar, sei que pra você não será sacrifício nenhum. Então vê se senta logo, enche a sua cara, faz as suas merdas de sempre, e espera. Você ainda precisa criar muita vergonha nessa sua cara pra merecer alguém como eu.

Depois, como sempre, não precisa se preocupar que eu te ajudo a achar sua meia, seu celular, sua carteira e seu coração, que, mais do que pequenas bugigangas, você vive deixando jogado por aí.

3 comentários:

aline disse...

quase como se fosse eu, que perdesse as coisas desse jeito por aí...

Luís Montteiro disse...

Sim, volta, um dia. Talvez.

Belo texto. Abraços rapaz.
"

Renata disse...

Pessoas assim nunca perdem o coração, porque elas nunca o entregam de verdade.

haha se meio que ficou subentendido que vamos viver um grande amor fazendo fazendo passarinhos de papel, o minimo é te indicar para um meme (: