Existe um tipo de diálogo que me encanta muito, quando deitados lado a lado, simplesmente nos olhamos, e através desses olhares, em meio aos suspiros e a respiração pesada, recuperando o fôlego, fazemos as mais belas declarações existentes.
Bicho, você tem certeza de que está mesmo em condições de trabalhar? Perguntaram pra mim esses dias, assim que cheguei me arrastando no trabalho, exalando cachaça, com um olho semi-aberto e o outro fechado. Claro que to, poxa, resmunguei de volta, certeza? O pessoal lá embaixo ta preocupado com você, se estiver passando mal e tal, você ta suando um monte, cara! É o calor, respondi, ta foda.
Acho que qualquer dia desses, em que chego abraçando a garrafa de café, saindo de cinco em cinco minutos pra fumar, vão acabar me mandando embora. Agora ainda tem essa menina nova, gostosinha até, mas uma porta com a cintura fina, uma bunda grande até demais, roupa da moda e o cabelo descolorido. Ainda não escutei uma coisa que preste sair da sua boca, e meu chefe, esse mesmo tão preocupado com meu bem estar e sua reputação enquanto pessoa que não deixa vagabundos bêbados trabalharem com ele a adora, o carinho é tanto que ele não consegue fazer mais nada sem sua ajuda, e nem manter mais um simples diálogo sem tocá-la. Nunca a vi se importar, pelo jeito é mesmo amor verdadeiro.
No nosso caso, toque também é o que não falta, mas antes de nossas conversas, nelas, só precisamos estar abertos, um piscar de olhos mais demorado, um suspiro preso, e já sabemos mais um do outro do que em uma conversa de horas. E se os pés então, delicadamente, se encontrarem, talvez estejamos falando demais, talvez, fica mais um pouco, que o café já ta quase pronto.
Já assistiu As Branquelas? Tirando os eventuais bom dia e outras emocionantes conversas profissionais, foi a única coisa que ela me disse, meio do nada, daquele jeito irritantemente ingênuo e abobalhado dela, que? As Branquelas, já viu? Aquele filme duns negão? É! Ela ficou radiante, esse mesmo! Não, nunca assisti não. VOCÊ NUNCA VIU AS BRANQUELAS? Nossa, calma, não, nunca vi, desculpa! É muito bom, eu vi ontem de novo, sempre rio um monte, é, ouvi falar já, mas não é bem meu tipo de filme... E que tipo de filme você gosta? Uns mais sérios, sei lá, ai credo, ela respondeu com uma cara de nojo, odeio filme triste.
Me reservei ao direito de dar a conversa por encerrada, ela também não pareceu fazer questão de continuá-la, então foi lá prestar sua essencial e indispensável ajuda ao chefe.E até hoje me olha como o cara estranho e mal-humorado, que fuma feito um desesperado, não toma banho e só assiste filme de desgraça. No fundo, ela nem está assim tão errada.
E depois, quando já tivermos, em míseros instantes, dito todo o necessário, talvez ainda falemos, sobre o dia, sobre lembranças e histórias engraçadas. Não há um boa noite, um tchau, nem um dorme com deus, alguém sempre só dorme primeiro, mas, por nos abraçarmos, já fizemos todos esses votos burocráticos de bem aventurança possíveis, e, muito mais importante, todas as juras que, sabe-se lá porque, nunca saem de nossas bocas.


6 comentários:
Maravilhoso, Henrique! Adorei como você inseriu os diálogos dentro do texto corrido. E ainda por cima, mesclou duas situações paralelas. Genial!!
Bjos
PS: E sim conhaque ainda vai, mas vinho barato, não dá! Rsrsrs...
Crônica gostosa.
Encantou minha quarta-feira.
E sobre a Marina Colasanti, achei aquele poema na minha antiga apostila de literatura. Me apaixonei.
Faz um bom tempo que não escrevo crônicas, tenho me prendido em poemas, métricas e parnasianismo forjado.
Mas crônica me encanta pra caramba e, sinceramente, suas crônicas são tão gostosinhas quanto a colega de trabalho. huahuhauhaa
Beijooo, se cuida! Boas festas procê - já desejo porque não sei se vou pintar por aqui neste fim de ano.
ai henrique, que coisa mais bonita!
adorei a inter-relação dos diálogos e como eles casaram.
adorei!
O que mais me encantou foi como descreveu o 'amor verdadeiro' entre o chefe e a garota gostosa. Um relacionamento tão superficial, que nos dias de hoje é até considerado amor.
Henrique,
As coisas na vida e a própria vida não se acabam, e só. Pode ter certeza. E acho que você sabe disso, de certa forma. O que acontece é que elas terminam tal como a conhecemos. Ou seja, tudo sempre se transforma. E é essa a verdadeira essência da vida e de tudo que nos cerca.
Bjo grande!
Referente a sua resposta ao meu comentário, te respondi via e-mail. Vc viu?
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