25 de junho de 2012

Botox, Armani e Porra de Camelo Caolho

Tinha sido mais uma das eternas noites de final de semana, onde se faz de tudo, menos dormir. Voltava para a casa um pouco depois do meio dia de um domingo qualquer, de ressaca ou meio bêbado, não lembro, com fome descabelado com bafo amarrotado mal humorado dor de estomago desesperado por um cigarro ou um gole de café.

Mas bem.

Fosse ego, fossem drogas, fosse o que fosse, é o que é. Eu estava bem. Aí, do nada, só pra pensar em algo mesmo, lembrei do meu antigo emprego, empresa grande, serviço bom, salário irrepreensível.

Férias, décimo terceiro, almoço, vale transporte, programa de participação nos resultados, plano de saúde, plano de carreira... Oito horas e quarenta e oito minutos de trabalho, uma de almoço, uma pra chegar, dois ônibus, um ônibus pra voltar, meia hora. O que todo mundo ali queria, no fundo, não era plano de carreira, era um plano de fuga!

Duas horas e meia só pra almoçar, chegar e ir embora do paraíso. Oito horas e quarenta e oito minutos sem alma. Dá tempo pra caralho, faça as contas aí que não sou bom com isso.

Me lembro da Gerente, A Chefe, A Grande da Empresa, mandava e desmandava aos brados, esbanjando autoridade e competência. Nova, muito mais nova do que muitos outros funcionários, aliás, funcionários não, colaboradores, de crachá e tudo. Colaboradores, devidamente uniformizados, penteados, perfumados. Os espertos, entrando mais cedo e saindo mais tarde, fazendo tarefas dos outros para “agilizar os processos”, diminuir os custos, aumentar o lucro, essa porra toda. Um monte de abutres, isso sim. Ambiciosos, egoístas, cristãos, em sua maioria, monstros, competindo ferozmente entre si em nome do trabalho em equipe

Pois bem, A Gerente. A Ícone da Eficiência, o máximo onde alguém ali dentro daquele inferno pode chegar um dia, é um cargo abaixo do dela.

Uma das pessoas mais tristes que já vi.

Cruzei por um cara fumando na rua, aproveitei o fato de não estar nem um pouco apresentável e pedi um cigarro, ele deu o mais rápido possível. Sentei para fumar na frente da clinica de odontologia do maior hospital publico aqui da cidade, é uma espelunca, o hospital todo, mas antes o que mais chamava a atenção era essa clinica, que estava com a fachada particularmente fodida.

Pois bem, reformaram... A fachada. Deu mesmo um novo ar, ar de botox, velha com maquiagem mal feita, roupa remendada.

Aí lembrei quando a tal Gerente inventou de colocar botox, com menos de quarenta anos, já tinha feito seiláeu quantas plásticas, acompanhamento com nutricionista, personal trainer, essas porras todas. A dieta dela era especial, os cremes importados, o perfume sabe deus do que ou da onde, de porra de camelo caolho, tinha um cheiro estranho, mas parecia ser caro. Uma delicia, diziam as colaboradoras com seus Avons ou, no máximo, algum importado desses que todo mundo gosta de falar o nome, algum Armani, alguma porra assim, comprado no Paraguai, o menor frasco, mas por menos da metade do preço, menina!

Seja como for, cheirando porra de camelo, suor, Armani ou algum desodorante qualquer, o fato é que a mulher ficou um monstro de botox.

Igual aquela porra daquela clinica, com o logotipo da universidade responsável pelo hospital pintado de maneira desproporcional, era evidente o fato de que, embora a fachada estivesse toda reformada, a parte de dentro continuava chapinhada na merda.

Então eu, ali sentado, amarrotado, despenteado, com o olho inchado e sem qualquer vestígio de perfume, voltando para a casa ao meio dia e meio de um domingo depois de um final de semana particularmente intenso, fumando um cigarro ganhado de um desconhecido, com um real e dez centavos no bolso, até o fim do mês. Embora tenha o meu particularmente grande milhão de conflitos internos e eternas crises existenciais, me sentia muito bem. Como não me sentia ha muito tempo.

O condomínio onde a gerente morava era ali perto, umas putas dumas casas, naquela altura do campeonato ela já tinha levantado, feito um bom café da manhã, lido o jornal, malhado, passado uns quinze tipos de cremes na cara, na mão, na pálpebra, na canela e na buceta. Se preparava para sair almoçar com alguma amiga igualmente cheia de cremes alguma salada com o preço de uma compra inteira no supermercado, enrolaria mais um pouco, distribuiria mais alguns sorrisos monstruosos de botox, voltaria pra casa, entraria no seu quarto e, se não fosse ligar o computador para adiantar uma coisa outra do trabalho, talvez ligasse para a mãe.

Mas o fato é que depois de tudo isso, ela ficou lá, na puta da casa dela, sozinha. Como sempre. E por mais maquiagem que ela passe, mais tratamentos de beleza que faça, perfumes caros e roupas de grife que use, pode até consertar aquele primeiro e horrendo botox com alguma dessas maneiras “revolucionárias” de que a medicina estética tanto se orgulha, ela continua horrível, continua desprezível, continua sozinha.

Porque o que estragava ela era o olhar, não de maldade, mas de uma crueldade, uma indiferença profissionalizada, um olhar apagado, cinza, inquisidor, acusador, inquieto, triste.

Fiquei com vontade de chorar e tratei de terminar logo meu cigarro ganhado e ir pra casa.

Eu estava bem.

6 comentários:

quaresma. disse...

tô aqui rindo, imaginando tudo que você descreveu, principalmente A Gerente! '-'
hehe

e que você permaneça bem então (:

beijas, Miné! :*

aline disse...

assim como você, também já fui uma trabalhadora padrão em uma dessas empresas padrão, mas que não oferece plano de saúde. descobri que assim como os seus colegas de trabalho, eu também só tinha um plano de fuga.
a dona da empresa trabalhada na malhação, na lipoaspiração, no botox. assim como A Gerente. com seus muitos dinheiros no banco.
e, acredite, eu na minha qualidade de trabalhadora padrão muito mal assalariada, sempre estive melhor que ela.

excelente texto, excelente!

quaresma. disse...

tô perando tu responder, viu? (:

o que tu gosta de fazer? o que não suporta? qual sua cor favorita? tu tem mania de que? existe alguma música que não pode faltar no seu dia? qual sua melhor cantada? como anda sua vida literária? qual a matéria mais odiada no ensino médio? você não pode morrer sem antes fazer o que? tem alguma comida favorita? usa perfume? o que gosta de fazer quando tá sozinho? tem algum número/cueca/dia da sorte? pratica algum esporte ou exercício físico? toca algum instrumento musical? quais são suas intenções ao escrever?

pronto, arrumou! hehe

;p

ps: se eu parar de comentar é porque o google descobriu que eu sou um robô! '-'

Renata disse...

"Embora a fachada estivesse toda reformada, a parte de dentro continuava chapinhada na merda."

Descreveu mais de 80% da população. Todo mundo devia ter consciência do quão na merda se encontram.

Josi Fabri disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Josi Fabri disse...

Conheci essa Gerente, fui também mais uma das suas colaboradoras, que entrava antes do horário e pah, que se esforçava inutilmente para ver gente sentada durante duas horas conversando com o colaborador do lado enquanto eu me matava pra corrigir erro de português dos outros, enfim... tristes tempos aqueles hahaha

Parabéns pelo texto Henrique, expressou o que muitos sentem/sentiam, embora inconscientes disso. :)


Josi