E você, um dia, vai voltar para casa contemplando as estrelas, veja só que clichê! Vai revirar os seus bolsos atrás de um cigarro, e atravessar a rua quando alguém suspeito estiver vindo de encontro a você! Um dia, você vai parar numa padaria qualquer para comprar uma cerveja que vai alegrar sua caminhada, vai tentar lembrar para onde está indo e pensar se realmente vale a pena chegar, vai pensar em amor e se sentir só, vai sentir solidão e querer ser amado, e vai virar a porra da cerveja.
Um dia, você vai virar uma esquina e, de uma casa qualquer, vai sair um música linda, talvez você até pare na calçada para ouvir um pouco, talvez você acelere o passo, fugindo da melodia e, mesmo assim, não conseguindo evitar uma lágrima. Vai chegar o dia em que qualquer canção fará sentido, qualquer declaração será verdadeira, e todo mundo valerá a pena, você vai se entregar as luzes cintilantes da casa, se perder naquele monte de corpos, sentir que pode tudo, e, por isso, fazer nada, deixar que o tudo se faça sozinho.
Não vai dormir, nem vai lembrar que precisa, não vai sentir falta, não quer perder tempo.
Vai parar em momentos aleatórios e simplesmente mirar o horizonte, apreciar as luzes que brilham longe, o sol se pondo, o céu vermelho, vislumbrar a imensidão do mundo, e abraçá-lo, se perder da infinidade, criar suas próprias regras, e se sentir bem, apesar de tudo.
Vai sentir saudade, vai dançar e não se cansar, vai voar sem sair do chão, vai sonhar sem fechar os olhos, e fechar os olhos para sonhar, deitar e se mover inconscientemente, as paredes derretem, os copos brilham, as pessoas deixam rastros, a música te envolve, seu corpo desintegra, você é alguém, em algum lugar, e mais nada, o resto é efêmero.
O resto. Tudo.
Vai passar, e a vida quer te engolir, você vai terminar a caminhada, deitar na sua cama e perceber, enfim, que é manhã, quase tarde, e que, uma hora ou outra, você tem que acordar. Dormir, sonhar, abrir a geladeira e pegar o requeijão, fazer um café, deitar de novo, dessa vez no sofá, ouvir uma música e morrer.
Até a próxima ligação, a próxima carona, o próximo dia de sol após um outro chuvoso.


2 comentários:
a sequência da vida cotidiana... porque as ligações sempre acontecem!
repetecos cotidianos:
sem eles,
que seria
da vida?
beijo,
doce de lira
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