(ou: Poema Para o Motorista do Ônibus)
Logo que acordo ligo a TV
E tomo tragédia no café-da-manhã
E no almoço, com o rádio ligado
Saboreio uma desgraça, no capricho
E ganho a vida com o chicote
Encravado incontáveis e furiosas vezes nas costas da minha alma
E a fumaça que respiro
É a do meu corpo queimando nas chamas da desilusão
Amo com um pedaço de carne podre
Que contaminou o resto do meu corpo
Desgraçado pelo alimento saudável
Veneno que o homem plantou
Me divirto tomando banho no sangue
Daqueles que não tem mais nada além disso
Gozo com um cadáver gélido
Que esfria meus impulsos de carinho
Moro sob uma tenda de ossos
Revestida com o suor amargo
Rezo para bestas mortas
Que já se devoraram em sua própria orgia
E morro, no final de cada dia
Quando deito mnha carcaça sobre as brasas
Sabendo que não morreria
Se para descer ao inferno, não precisasse de asas
Sou um homem de bem
Uma dona de casa exemplar
Um filho obediente
Com o corpo doente
E uma alma para salvar
Escravizado, sem conhecer meu senhor
Gozo da liberdade, sem pudor
Vivo em um mundo maravilhoso
E sonho com um futuro glorioso.
***
Poema escrito ha mais ou menos um ano, no ônibus, em um pedaço aleatório de papel que achei dentro da mochila que era minha fiel escudeira nos tempos de office boy. Na época, criei uma relação de amor e ódio com ele, e então, antes que tomasse coragem de publicá-lo no blog (ele quase foi parar em um zine aqui que, infelizmente, ficou só no belíssimo projeto gráfico), eu o perdi. Hoje, encontrei e não pensei duas vezes antes de soltá-lo aqui, antes que ele fuja de novo.


3 comentários:
eu acho que o motorista tem o direito de ler essas palavras, só acho!
beijas, Miné! ;*
saudade.
quem dera a minha rotina fosse assim, tão poesia.
essa penúltima estrofe é tudo que eu tenho de mim pra hoje.
sou uma mulher de bem
uma dona de casa exemplar
uma filha obediente
com o corpo doente
e uma(s) alma(s) pra salvar.
Gostei demais do palavreado.
Flores e
até.
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