E então, esses dias entrou um cara novo pra trabalhar comigo. Cheguei no colégio, entrei na quadra, e lá estava ele.
Do tipo geração-saude-que-gosta-de-curtir-a-vida. Barba bem feita, cabelo loiro meio comprido, meio penteado, meio veado. Roupas esportivas, celular da moda, cara de responsável.
Eu cheguei, com uma puta de uma ressaca, olhei pra cara dele, dei um aceno, empurrei um dos moleques e sentei em um canto da arquibancada esperando alguma coisa acontecer. E ele veio falar comigo, apertou a mão, se apresentou, mas nunca lembro seu nome. Formado em educação física, que surpresa! Nem perguntou o que eu fazia, na conversa com ele, o que interessa, é ele.
“Porque eu, controlo uma turma com mais de oitenta alunos, lá no Santa Felicidade, conhece o Santa Felicidade?”
“Porra, lá é foda, né?”
“Lá é bicho feio, e gostam de mim. Porque eu, uma vez ia sair de um colégio e disse, quero que me paguem vinte e dois reais a hora-aula, eles me pagavam dezenove, sabe? Aí não quiseram pagar, fui embora, passou duas semanas, me ligaram e disseram que pagariam os vinte e dois!”
“Porra, três reais hein cara!”
“Então, e aí, no final do mês, juntando tudo, dá quase uns quinze”
Quinze reais a mais no final do mês, um grande motivo de orgulho, sem dúvidas.
“Mas por quê? Porque eu, lá, o que eu fazia, ninguém mais faz.”
Não gosto. Não gosto de gente segura de si. O cara não tinha do que reclamar, apenas as suas glórias pra contar. Quase virei pra ele e disse que “cara, consigo zerar Super Mario World em meia hora! Porque eu, jogo desde criancinha, cara, ali ninguém faz o que eu faço!”
Pois bem, me limitava a concordar genericamente, sem nem prestar atenção direito no que ele dizia.
“Porque eu, agora to namorando, mas até o final do ano passado, vixe, tinha que ver cara, nem eu acreditava em mim, olha aqui, ó meu celular aqui ó, só o numero da mulherada, essas daqui a maioria eu comi tudo já, cara, e tudo safada, hein!“
“Oi? Ah, é! Mulher é foda mesmo.”
Fomos almoçar. Era peixe, de novo, o maldito peixe. Não é ruim, mas é que é sempre peixe, ou porco. Então é claro que peixe é motivo de frustração. Achei que ele fosse calar a boca na hora de comer, não tem porque ficar falando muito, tem é que ocupar a boca comendo.
“Porque eu, cara, eu faço um peixe gostoso, hein! Com vinho branco, cara, gosta de vinho branco?”
“Hein?” eu tinha engasgado com um espinho.
“Vinho branco, gosta de vinho branco?”
“Ah, vinho! Gosto! Mas prefiro uma cerveja. Ou uma cachacinha e tal. Ou conhaque, conhaque é bom também.”
“Mas com peixe?”
“Que peixe? Esse peixe? Sei lá, pode ser, mas é melhor depois”
“Não, to falando pra cozinhar o peixe com vinho! Com conhaque, cachaça, essas coisas, não dá!”
“Ah, sei lá, se pá não mesmo”
Entendi, ele é do tipo que convence a namorada a ficar em casa, comendo fondue e bebendo um vinho qualquer de trinta reais (que ele acha que é coisa fina, porque estava ao lado de uma bandeira do Chile na prateleira do supermercado, mas que é praticamente a mesma merda daqueles de cincão, com a diferença de ter umas “normas de degustação” no rótulo), quando sabe que a outra, o esquema que ele conheceu aquele dia no bar depois da pelada, a prima do amigo, vai estar na mesma balada.
Azar o dele, fondue é uma bosta.
“Então, faço um com vinho branco”
“Hmm, pode crer, deve ficar massa”
“Cara, fica uma delícia, cara!”
Esses caras que gostam de cozinhar, qual é a deles também, né? Será que eles acham que, sabendo fazer uma coisa ou outra um sábado perdido qualquer pra namorada sem graça estão isentos do rótulo de machistas? Será que isso é ser descolado e tal? Eu queimo miojo, só sei fazer café e fritar ovo, mas aposto que respeito muito mais uma mulher que esse idiota que fica três horas cozinhando peixe com vinho. Por sinal, deve ficar uma merda esse peixe aí. Sou muito mais pizza de caixinha, um cachorro quente, qualquer coisa, mas não perder metade da noite tirando espinho de peixe, e ainda desperdiçar uma garrafa de vinho pra isso.
“E agora, cara?”
“E agora o que?”
“Agora, o que a gente faz?”
“Bom, sei lá, eu vou lá fora fumar, você... você faz o que quiser, ué. Quer um cigarro?’
A cara de espanto dele foi engraçada, deprimente, mas engraçada. Eu podia ter oferecido uma pedra de crack, aposto que a reação seria a mesma.
“Não, cara, não! Valeu! Mas não fumo não, só bebo de vez em quando mesmo, cara! Isso aí faz um mal do cacete, vicia e tal”
“É to sabendo”
Coloquei a mão nos bolsos, constatei que, pela terceira vez na semana, tinha perdido meus fósforos. Ele ainda olhava pra mim.
“Então você não vai ter fósforo ou isqueiro aí, né?”
Claro que não. Saí xingando atrás da zeladora que sempre fuma comigo lá no fundo, ela é uma pessoa legal, aposto que nem sabe o que é fondue.


3 comentários:
PUTZ, cara! que situação, hein, cara.
boa sorte com o mala (ou melhor, cara).
ai Henrique, como é bom ler seus textos, esse tá sensacional. Você é mto ácido hahahaha adoro!!!
Cadê seu livro de crônicas? ia fazer sucesso! hahahaha
Seu talento é irritante... rs rs rs. Parabéns por mais esse texto. É sempre um prazer lê-lo. Abraços....
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