9 de agosto de 2012

Silenciado

Uma bela noite de segunda-feira, o clima estava ameno, o céu estrelado, o trânsito estranhamente tranquilo, as pessoas sorridentes, e eu, um pouco mais que o de costume, querendo morrer.

Então, no caminho de volta para a casa, pensei que precisava de alguém, não alguém para fazer sexo loucamente a madrugada inteira, não alguém para encher a cara, isso eu faria sozinho, se tivesse dinheiro, não alguém para jogar conversa fora e esquecer os problemas do mundo. Precisava de alguém para ouvir, abraçado a mim, as minhas amarguras, tudo o que deu errado no meu dia, para acariciar meu cabelo, dar algum conselho enlatado não pedido que eu não iria seguir. Alguém, sabe?

Então, lembrei de você, pensei em passar na sua casa, aparecer assim, do nada. Eu até tinha a desculpa daquele livro que esqueci aí. No caminho, fumei incontáveis cigarros, andando na velocidade de quem vai para a forca, pensava se estava mesmo fazendo bem, não descobriria se não o fizesse.

Você me recebeu de braços abertos, até. Vim buscar meu livro, eu disse, forçando um sorriso simpático, deve ter parecido uma careta, mas lembro que, no esforço para fazê-lo, não consegui falar direito. Ou seja, você até me recebeu de braços abertos, mas o melhor que eu consegui fazer foi uma careta e grunhir.

Que? Você respondeu daquele seu jeito, já sem paciência, meu livro, dessa vez, desisti do sorriso e das frases longas, ah, ta, sobe aqui.

Tomei um daqueles seus chás estranhos, perguntei se estava tudo bem, estava, você disse, não perguntou como me sentia. Não esperei, comigo não está, lancei assim, sem cerimônia, não estava mesmo. Você não pareceu se animar, devia ter pensado que eu usei a desculpa do livro para, logo que acabasse o chá, começasse com uma conversa mole sobre estar com saudade, sentasse mais perto, alisasse seus cabelos, falasse que adoro quando você se faz de difícil, soltasse mais alguma piada besta, virasse seu rosto para mim e te beijasse, depois, no outro dia, quando acordássemos, quem sabe eu esquecesse outra coisa na sua casa.

Mas não, aquela noite, mais que tudo, eu queria desabafar, nem pensava, a priori, em dormir com você, idealizava apenas um romântico beijo de despedida, com os olhos marejados, depois um longo abraço, onde eu beijaria a sua cabeça e diria que porra, só você pra conseguir fazer eu me sentir tão bem assim tão rápido, sussurraria um obrigado, e beijaria sua cabeça de novo, emocionado.

Pois bem, embora um pouco decepcionada com o rumo estranho da visita e da conversa, você perguntou o que eu tinha, era tudo o que eu queria, então, comecei.

E falei, falei, falei, segurei o choro, pelo que me lembro, pelo menos umas quatro vezes, você ouvia, distante, e eu falava, cruzava as pernas de um lado para o outro, apertava meus dedos, mordia os lábios.

Ao fim de tudo, eu nem me lembro o que você disse, mas não me deixou melhor, não mudou a minha vida, não me emocionou, não foi nada demais. E não porque você tentou e não conseguiu, e sim porque você, simplesmente, achou todo o meu desabafo um saco, nunca foi para isso que você se envolveu comigo, esse tipo de coisa em mim, você nunca buscou.

Relações modernas, romances modernos. Quando estamos juntos, é lindo, assistimos a qualquer programa idiota de domingo abraçados no seu sofá minúsculo e sem nem olhar para a televisão, de madrugada, caso um de nós perceba que o outro está dormindo meio longe, fazemos questão de logo puxá-lo para junto. Mas depois, caso nos encontremos na rua, nos cumprimentaremos com um beijo no rosto, conversaremos algo genérico por três minutos, prometeremos um ao outro nos vermos em breve, pode até acontecer, pode não, não costuma fazer diferença. E então, num final de semana qualquer, se um liga para o outro para, não sei, quem sabe tomarmos uma cerveja, fazermos algo hoje à noite, e o outro não puder porque, sabe o que é, minha mãe morreu, ou então, não sei, tem uma faca atravessada na minha garganta, quem sabe na próxima semana, ou na próxima vida, aquele que ligou vai lamentar, apenas, porque sabe que vai ter de se contentar com algum site de pornografia, uma vez que o infeliz da faca na garganta era sua ultima opção, e, semana que vem, tem aquela festa que não quer perder.

Depois da sua consideração genérica ao meu desabafo exagerado, um certo clima estranho se formou, olhei para os lados, vi as horas, bati a mão no meu livro em cima da mesa e, bem, é isso, vou indo.

Você não insistiu para que eu ficasse, você sequer mudou a sua expressão facial, nos despedimos com um beijo insosso e um meio abraço constrangido, ainda alimentei uma esperança de que, me vendo indo embora, você, sei lá, perguntasse se hey, espera, ta tudo bem mesmo? Não aconteceu, claro, e tomei meu rumo.

Foi por isso que, chegando à frente do seu prédio, eu simplesmente desisti e fui logo para a casa me trancar no quarto e passar o resto da noite, que seria longuíssima, rolando na cama e sentindo pena de mim mesmo.

Um comentário:

aline disse...

alguém, sabe? sim, eu sei. mas é tão difícil achar esse alguém...