Então eu só saí de casa e caminhei, lentamente, até o boteco que fica na esquina de onde morava antigamente, os bêbados residentes daquela sarjeta me reconheceram e, antes que começassem com o papo de “iae Cabelo, sumiu hein!” me pediram um cigarro, eu disse que não tinha, na verdade, pretendia comprar um maço, uma vez que esse boteco ainda vende os maravilhosos cigarros importados por ainda mais maravilhosos dois reais.
Foi aí que um deles, muito mais velho que todos, que tentava, em vão, se manter ereto usando um taco de sinuca como apoio me deu um maço quase inteiro. Porque você merece, é gente boa, Cabelo! Agradeci radiante, ele ainda fez questão de me pagar uma dose de cachaça, que aceitei sem cerimônia, então peguei meu vinho e desci de volta para minha casa, não me aguentando de felicidade.
Certa vez, um amigo me disse que, na verdade, eu gosto de ficar triste. Que faço meus comentários depressivos e maledicentes como se fossem precisamente calculados, que, na verdade, nem sou assim tão desgostoso da vida, que só acho bonito.
Pois bem, não, eu não sinto, necessariamente, nenhum prazer vendo a vida em tons de sépia, mas sei lidar muito bem com esse fato. As pessoas sempre me dizem, inclusive, que eu não pareço ser a pessoa que digo que sou.
Que bom.
O fato é que, para mim, não há o menor problema em não estar bem, em sentir, vinte e quatro horas por dia, um aperto idiota no peito, em nutrir, do nada, desprezo por qualquer coisa, em buscar fugas fáceis, fugazes, mas prazerosas, a esse maldito fardo chamado vida que um dia decidiram que, sabe-se lá porque, a gente merecia carregar. É mais digno e eficaz do que buscar paz interior, equilíbrio, ou qualquer merda do tipo.
Não há nada de errado em olhar para o mundo e ver que ele é feito, apenas, de um monte de gente fazendo de tudo para parecer aquilo que não é, se matando para tentar ser mais do que o outro, falando de amor mesmo sem nunca ter chegado perto de amar alguém, um monte de corpos se destruindo, se enganando.
Eu não sou o que sou porque gosto, apenas aceito muito bem esse fato. Talvez seja por isso que, socialmente, eu até consigo me manter no limiar do aceitável.
Acontece que a felicidade, a alegria e o alto astral, essas filhadaputagens todas, como as conhecemos, não passam de uma bela e genial jogada publicitária, você pode abraçar árvores, rir para os pássaros, andar rodopiando e cantarolando uma bela melodia o dia inteiro, você pode sonhar toda noite com unicórnios, até ter um cachorro idiota com nome mais idiota ainda num sobradinho amarelo em um lugar onde o clima é sempre ameno e não existem vendedores ambulantes nem caixa de correio por onde chegam as contas. Pau no seu cu, de duas uma, ou você toma certinho os remédios que o médico receitou, ou você mora em uma propaganda. Espero que te paguem bem pra isso, pelo menos.
Ao chegar em casa, com minha garrafa de vinho vagabundo e meu maço de cigarros ganhado, eu já não me sentia assim tão feliz.
Agora, que a garrafa acabou de acabar, muito menos. Vai ver é porque essa história nunca renderia um comercial.


3 comentários:
Henrique, minhas histórias também não renderiam comerciais. Quem sabe umas risadas num show de stand up qualquer, mas só.
Para ser sincera eu também não gostaria se não fosse assim. Não faço o tipo dona-de-casa-que-faz-bolos-gostosos-e-dá-o-nome-perfeito-na-gravata-do-marido.
Seu comentário, me roubou um sorriso, fique sabendo. Beijo.
minha histórias renderiam um casos de família ou um super pop (é, aquele horrível da luciana gimenez).
mas quanto ao que você comentou no meu post, acredito que você, em um comentário conseguiu dizer tudo que eu queria dizer, em um texto.
era aquilo mesmo.
venha desabafar mais vezes comigo.
você é sempre super bem vindo!
Assim, só Los Hermanos conseguem tocar na minha mente com tudo isto de " não, eu não sinto, necessariamente, nenhum prazer vendo a vida em tons de sépia, mas sei lidar muito bem com esse fato."
Não dá pra viver a base dos remedinhos, e não tô ganhando nada pra comerciais, o jeito é abraçar a realidade!
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