Então eu sentei no meio de um pasto que fica aleatoriamente localizado no meio de uma área urbana, sempre o achei um lugar tranquilo, sedutor, uma espécie de oásis no meio do caos e do frenesi da cidade. Ainda mais aquele horário, quase dezoito horas. Saí de uma tarde de expediente especialmente enfadonha com umas latas de cerveja e, pronto, me enfiei no meio do mato.
Eu queria escrever.
Comecei a lembrar do meu dia, meu finais de semana, o monte de merdas que eu sempre teimo em fazer, lembrar como vem sendo cada vez mais difícil olhar pela janela sempre mal iluminada e constatar que, bem, lá vem mais um dia. Largar o travesseiro, procurar o chinelo, dar aquela coçada burocrática na bunda e no saco, respirar fundo e ir lá fora, encarar a vida. Essa filha da puta.
Às vezes eu queria escrever como o Neil Gaiman, ficar falando de sonhos e sociedades secretas de bruxas nos subterrâneos de Londres, talvez uma confraria de demônios expurgados do inferno e colecionadora de almas, solitários fantasmas chorando suas penas na escuridão de um casarão abandonado, qualquer coisa assim. Olhe para o Neil Gaiman, ele nunca parece triste, muito pelo contrário, ele é bem sucedido, todo mundo reconhece, às vezes até demais, sua obra, ele é até meio bonitão. E suas histórias falam de medos ancestrais e, muitas vezes, de horrores que parecem inimagináveis, queria ser assim, transformar minhas histórias em um mar de tripas amaldiçoadas, e pronto. Sem arrependimentos, sem copos quebrados, lágrimas desperdiçadas ou poças de vomito pra fora da privada, ao invés de ter tanta pouca fé nesse mundo, teria fé até em outros!
Nada de corações partidos, apenas membros decepados e heróis carismáticos.
Estava na metade da segunda lata e a luz começou a ficar fraca de verdade, eu já tinha que erguer meu pequeno caderno para o céu se quisesse conferir se o que eu tinha escrito ali estava, minimamente, legível. Estava, até. Dei um longo gole e tentei, no tranco, voltar para o ponto onde eu tinha parado.
Ao longe, passou um carro berrando uma música qualquer da moda, parei de novo, desconcentrado, e tentei entender a letra da música, não consegui distinguir muita coisa, mas não havia muita novidade, o nome de algum carro caro, os cantores tentando convencer os ouvintes de que, melhores que eles na cama, apenas seus respectivos pais. Algo assim, bem poético.
E enquanto esses filhos da puta estavam, provavelmente, tomando algum uísque importado em qualquer lugar com o ambiente climatizado, eu estava tomando cerveja quente, enfiado no meio do mato, segurando, feito um idiota, um caderninho amassado e uma caneta que insistia em falhar, sem enxergar nada. E, pior ainda, querendo escrever algumas merdas de “versos sinceros”.
Me senti um monte de bosta, um infeliz de um monte de bosta de vaca que quer ser poeta, veja que animador! E entendi, talvez, porque vem sendo tão difícil sair da cama pela manhã.
Nessas horas, nunca há um lugar onde eu realmente quero estar, algo que eu deseje mesmo, de fato, fazer nesse novo dia. Olhei para os prédios no horizonte, não havia algupem ali que, naquele momento, eu pudesse ligar e dizer que olha, será que tem como nos vermos um pouco mais tarde? Acho que preciso conversar, dormir bem, me sentir vivo um pouco, pra variar, que acha?
Escureceu de vez, pra ajudar, esfriou também. Uma porra de vento frio passou cortando meu rosto, levantei com certa dificuldade e minha ultima lata de cerveja na mão e decidi caçar meu rumo, sem saber ainda qual seria.
Depois, em casa, resolvi decifrar a minha maldita letra para ver se o que eu tinha escrito no meio daquele monte de mosquitos e carrapichos tinha valido de algo. Estava uma bosta, e algum bicho estranho me picou, deixando uma marca que coça de maneira insuportavelmente eficiente.


2 comentários:
Quem sabe se a cerveja estivesse gelada não seria diferente?
Acho que este lance de levantar é que atrapalha toda a realidade que há em nossos sonhos, ou mesmo nos pesadelos, é este sair da cama que começa a deixar tudo um tanto quanto difícil hein. :B
Tá, eu tenho gostado de levantar porque tenho bastante coisa a fazer, e porque estou até gostando do sol matinal, e da quantidade de café que vem pelo longo do dia.
Mas, nada é como nos livros incríveis que ando lendo.
eu queria ter um lugar assim, no meio da confusão. mesmo no interior, as coisas são tão concretas que eu chego a ter pena das ruas.
e eu prefiro alguém assim, como você, que quer ser poeta do que aqueles caras lá... do ambiente climatizado e do uísque importado. e aposto que você também, prefere ser esse.
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