Me lembro muito bem que, quando criança, adorava andar deitado no banco de trás do carro e observar as árvores passando sobre a minha cabeça. Não sei por que, mas para mim, eu nunca estava apenas indo para a casa, ou para a escola, ou para onde fosse quando estava nessa posição, deitado no banco, olhando as árvores, eu estava indo para qualquer lugar melhor, um lugar onde a paz de apenas observar todo aquele verde era duradoura, um lugar bom, um lugar tranquilo, um lugar que, enfim, que nunca chegava.
Minha vida é particularmente desinteressante, não faço nada que mereça crédito ou destaque, não cultivo nenhum grande talento, nenhum hobby descolado ou qualquer outra qualidade excepcional que faça com que as pessoas desejem minha companhia, na verdade, as vezes eu sinto que elas fazem é questão de não serem vistas comigo. Sou sempre o ultimo a ser citado, convidado ou lembrado, e, na maioria das vezes, acaba sendo sempre por educação mesmo. Ao menos elas ainda se importam em serem educadas.
Portanto, uma das únicas coisas que me deixa realmente frustrado, é quando o café que faço sai uma merda. Veja bem, eu sei fazer absolutamente nada. Não sou um grande músico, não desenho, não sou bonito, não canto, não sou simpático, não danço, não sou engraçado nem carismático, não sei nem andar de bicicleta direito. Mas sei fazer café, é um dos únicos prazeres que ainda faço questão de cultivar, um dos únicos momentos do meu dia em que dou valor, uma das únicas coisas que me faz sentir vivo, e, às vezes, ainda dá errado.
Me sinto um merda, mais do que de costume, fico com vergonha, frustrado, com raiva! A vontade que dá é de quebrar a cozinha inteira. Sou tão patético e deprimente que posso ficar dois anos seguidos retido na faculdade, mas o que me frustra e deixa triste é quando não consigo fazer um café bacana.
Um dia, eu inventei de deitar no banco de trás durante uma viagem, uma das únicas lembranças que tenho com meu pai, não me lembro para onde estávamos indo, só sei que uma manhã, do nada, ele apareceu em casa, o que já era, por si só, uma novidade, pois bem, além dele aparecer, ainda disse que a gente ia viajar, eu então só entrei no carro e fui com ele.
Mas não há árvores na beira da estrada, pelo menos não naquela.
Era um dia particularmente feio, nem completamente nublado, nem ensolarado, um daqueles dias onde as nuvens são cinzas demais e, ainda assim, meio espalhadas, mortas, não dá nem para enxergar desenhos nelas. A luz do sol é apagada, não há pássaros, nem vento, nem vida. Um céu morto, para um dia abafado, um céu morto, para um dia morto.
E eu queria ver árvores, árvore, poste, fio, árvore, árvore, fio, poste.
Não sabia para onde estava indo, não sabia por que tinha ido viajar do nada com meu pai naquele dia feio, o céu não estava bacana, eu não sentia nenhuma paz, nenhuma alegria, só angustia e desespero, além disso, sempre tive medo de estrada.
Me lembro perfeitamente, fechei os olhos e chorei em silencio o caminho inteiro, fingindo dormir, e torcendo para estar em casa o quanto antes.
Hoje, voltando para a casa, lembrei desse dia, o céu estava ensolarado até demais, seria um belo dia para eu deitar no banco de trás e sonhar com um mundo bom, mas, com um metro e oitenta e seiláquanto de altura, fica um pouco inviável fazer tal manobra, além disso, andar de carro tem sido luxo, eu estava a pé, pra variar.
Cheguei em casa com uma dor de cabeça filha da puta que não passou até agora, não havia ninguém, novidade. Resolvi tomar um banho e fazer um café.
Que ficou uma bosta. Sinto, até agora, que foi o pior café da minha vida. Acabei com o bule como quem toma veneno apenas para que ninguém de casa percebesse a merda de café que fiz.
Olhei pela janela da sala, dá pra ver algumas árvores do mesmo angulo em que eu as via do carro se eu deitar no sofá, nunca tinha percebido isso.


3 comentários:
li este texto no dia que você postou, li, reli... não consegui comentar.
me deu um nó na garganta e eu fiquei sem ter o que falar.
um momento assim, tão seu e tão cru.
gosto do que você escreve, é como se você estivesse ali dentro, o tempo todo.
HAHAAHAHAH vc me vem com cada título... ai a gente começa a ler, e tcharam... vc sabe escolher os nomes dos textos kkkkkkkkkkkk
Sempre será meu post favorito. ^-^
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