Sempre tem o maldito momento onde eu resolvo procurar meu celular, descobrir a hora, e querer morrer.
É uma idiotice, sou carente, inseguro, medroso e, bem, e sei lá mais o que. Na verdade, não faz mesmo diferença. As horas passam no ritmo delas, às vezes, parecem correr, em outras, se arrastam, tudo bem, deixo para elas o comando do mundo, que passem no ritmo que bem entenderem, desde que me deixem em paz. Mas não deixam.
E os filmes vão só até a metade, os discos só até a terceira música, as conversas só até o esperado, os amores, abortados, as alegrias, passadas no cartão, a paz, enrolada em um guardanapo de papel, virando cinzas.
E as horas, devorando tudo. As horas passando, trazendo as estrelas, a Lua, com seu brilho cada vez mais fraco, e, depois, o Sol, impiedoso, magnânimo, soberbo, arrogante. Eu o vejo aparecer, praticamente todo santo dia pela janela, acordando os malditos pássaros que não calam o bico, e o filho da puta do vizinho, que não vê razão em sua vida se não tomar banho, as quinze pras seis da manhã, berrando alguma musica qualquer do, sei lá, do Sérgio Reis, eu acho.
E nessas horas, quando começa a cantoria, a desgraça da luz da manhã entra pela janela e o mundo acorda, com os olhos vermelhos, correndo atrás do ônibus, batendo o ponto, tomando um café fraco com pressa, pensando apenas nos minutos de cochilo que vai conseguir depois do almoço, é nessas horas em que eu coloco meus pés no chão, procuro meus chinelos e vou até a janela. O Sol queima minhas retinas, e sou acometido por um sentimento de impotência insuportável, lá se foi uma noite, e eu não fiz nada, lá vem mais um dia, e eu não farei nada.
Eu olho as horas, a noite está passando da metade para o final, eu ainda não sinto um pingo de sono, no computador, as mesmas coisas de sempre, coloco alguma música bem calma, viro para a parede, fecho os olhos, e me concentro na escuridão que, por milésimos de segundo eu vejo.
Infelizmente, mais uma vez, minha cabeça não para, quando dou por mim, já estou sentado na cama, encostado na parede, contemplando as roupas jogadas no chão, tentando pensar em algo que não doa, tentando lembrar de algum momento feliz, tentando não sentir vontade de chorar.
Mas as horas passam, e logo vem a manhã, logo vem os pássaros, e logo vem o maldito Sérgio Reis, me lembrando que, pelo menos, eu pude ouvir todas as músicas que gosto pelo menos umas três vezes cada durante a noite. Porque agora vem o dia, e, nele, essas manhãs desgraçadas costumam ser parte mais suportável.


3 comentários:
A minha vizinha gosta de Alcione. Acho engraçado e me divirto. Sérgio Reis também não me incomodaria. Sou daquela teoria, "se não pode vencê-los, junte-se a eles". Hehehe!
Bjos
penso como a larissa. junte-se a eles!
A questão talvez nem seja o Sérgio Reis... tudo tem uma sincronia horrível quando mirada pro negativo. Só negativo de foto que é bacana.
As horas não passam pra mim e me sinto como vc, talvez ela passe e não vi pq me aliei a ela. Soa estranho. Mas a verdade é que tudo uma hora consome e tudo faz girar, pensamos que viver talvez é só deixar o tempo passar.
Estava ouvindo Belle & Sebastian e até brinquei no seu face que anima, talvez seja só o acaso, mas achei ideal pra ouvir lendo esse texto, pq ao ler ele não sei se fico triste ou feliz.
Beijo Miné.
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