Estava sentado com um amigo para beber. Conversar, no caso, era consequência, uma vez que ele também nem era assim tão amigo meu.
Que seja, estava sentado com um conhecido aleatório qualquer para beber e repartir a conta, olhar as mulheres, esse tipo de coisa. Mas, e você bem sabe como é, após algumas garrafas um conhecido aleatório qualquer já vira um amigo do peito, e um amigo do peito é aquele que está sempre disposto a ouvir, dar conselhos, brigar contigo, virar o copo, bater ele na mesa, botar a mão no seu ombro e dizer com os olhos marejados que você sabe que eu te considero pra caralho! Você é meu irmão, velho, gosto pra caralho de você, mesmo!
Porém, antes disso, oriundo de algum covil de filosofia barata, ou da preguiça de pensamento mesmo, o meu mais novo melhor amigo veio com um papo qualquer de trilhar o próprio caminho, seguir o coração, só faltou falar pra eu ter fé em deus. Pois bem, justo eu, que não faço idéia de pra onde ir.
Eu estava sentado em um bar que eu não gosto, com um cara que eu mal conhecia e, confesso, nunca senti vontade de conhecer melhor e bêbado. Veja bem, se eu soubesse o que quero da vida, onde chegar, pra onde seguir, o que conquistar, nesse momento eu com certeza estaria correndo atrás desse objetivo, e não gastando um dinheiro que eu não tenho pra ouvir conselhos enlatados de uma pessoa aleatória.
Mas ele, e eu acredito que, coitado, cheio das boas intenções, continuava com o papo, mas existe alguma coisa que você deve gostar de fazer, cara! Sim, existe, eu respondi, gosto de dormir bem, mas também não consigo! E escrever? Aqueles textos que você escreve são legais pra caralho! E daí? Você vai me pagar pra eu continuar mantendo aquele blog de merda? E eu continuava, impiedosamente, esmagando os seus conselhos com a minha já tão treinada desesperança.
Porra cara, desisto! Vou lá fora fumar um cigarro.
E então eu estava sozinho na mesa. Pedi uma dose de cachaça, e estiquei minha perna na cadeira da frente, senti vontade de fumar também, mas deixei quieto, queria aproveitar um pouco o momento sozinho.
Seguir o meu caminho, fazer o que meu coração manda. Grande bosta. A única coisa que meu coração ainda manda eu fazer é buscar, ao menos, me manter vivo. Tudo o que eu queria é saber onde chegar, podia ser qualquer coisa medíocre mesmo, como eu queria ser como esses que se contentam em trabalhar o dia inteiro, só para poderem comprar um celular de ultima geração, parcelar um carro qualquer, andar na moda, sei lá, qualquer merda desse tipo, sabe? Mas, atualmente, até pra levantar da cama eu tenho precisado de uma força de vontade quase sobrenatural, quem dirá para comprar um iPhone!
Eu poderia ter uma namorada sem graça, eu até me enganaria, diria para ela e para mim mesmo que era amor, nós iríamos ao McDonald´s, ao restaurante japonês, ao cinema, as festas de família, eu pararia de fumar, só beberia em ocasiões especiais. Assistiria, todo domingo, o jogo com o pai dela, explicaria para ele quais são os meus planos para o próximo ano, abriria uma poupança para ir juntando uma grana para os móveis e a lua de mel.
Mas eu detesto trabalhar, o mundo que me desculpe, se for o caso, sou o menos digno dos homens e posso lidar muito bem com isso. Mais além, odeio compromissos de família, também odeio McDonald´s e, ainda mais, comida japonesa. Detesto carros, detesto celulares, e detesto, em sua maioria, pais. Nunca consegui juntar um centavo, aliás, nunca consegui fazer nada daquilo que me propus.
É isso. Eu era um monte de merda bêbada sentado com as pernas esticadas num bar qualquer, segurando a vontade de fumar para não ter que voltar a conversar com um coitado que, bem intencionado, queria me ajudar. Eu podia ir embora dali, mas também não teria para onde ir, pelo menos, bebendo, o tempo passa mais rápido e, quando eu deito minha cabeça no travesseiro, apago que chega a dar dó.
Vai ver eu preciso de um grande amor, alguém que chegue e me fale, hei, vamos para a Guiana Francesa viver de artesanato? E então eu, embriagado de amor e falta de perspectiva, embarcaria sem olhar para trás, de mãos dadas com o amor da minha vida, partiria rumo ao meu destino. Será que é isso que é fazer o que o coração manda? O meu coração? Esse pedaço de carne podre sem escrúpulos? Se for isso, o meu se abstém completamente de suas obrigações.
Minha companhia voltou, eu sorri para ele, quando sentou, apontei uma garota qualquer que passava por lá, ele fez alguns comentários obscenos, eu concordei e ri, ficamos um tempo em silêncio e eu bebi um gole da minha cerveja. Começou a ficar constrangedor, então olhei para ele, nos fundos dos seus olhos e disse que sabe o que preciso, cara? Um grande amor, uma porra de um grande amor para ir para a Guiana Francesa! Ah, ele respondeu, mas com uma daquela eu iria até pra puta que o pariu.
Abaixei a cabeça, cocei o queixo, olhei a cachaça na mesa, vi que ela me olhava, peguei o copo, virei, bati na mesa, coloquei a mão no ombro do meu amigo. Brigadão pelos toques, os conselhos aí! Sabe que te considero pra caralho, né velho? Depois, só fui embora. Seguir não o meu próprio caminho, não o caminho que meu coração manda.
Sei lá, só saí cambaleando e fui embora.


7 comentários:
É complicado seguir tanto o coração como a razão. Eu na verdade não tenho seguido nenhum dos dois, só estou, sei lá "vivendo" acho. Meus dias podem se resumir em (mais uma) frase de Orlando Pedroso, que diz: "Abrir o olho acordar. Fechar o olho dormir. Entre isso, nada."
Beijos
http://cafeeocio.blogspot.com.br/
Henrique, eu odeio mac donald's, trabalho(principalmente) e comida japonesa... mas gosto de você(e não estou bêbada, rs)! Pena você estar tão distraído...
Lindo o texto!
excelente, henrique, excelente!
quando eu fico bêbada o máximo que eu consigo ser é vulnerável a tudo e dar risada. rio sem parar, como se não houvesse amanhã.
mas eu também seguiria meu coração assim, lado a lado, rumo à guiana francesa!
Cara, vc tem uma coisa na sua escrita, que olha.. é seu, é Miné.
Acho isso algo que com certeza incentivaria a lançar um livro. tá ai uma ideia, eu compraria.
bjs
Olha, menino, ir pra Guiana Francesa fazer artesanato?Eu nunca fui boa nisso não, mas topa ir pro banco da praça fazer aqueles origamis de passarinho para ver se quando a gente fizer mil e desejar alguma coisa, como diz a lenda, se realiza?
Todo mundo procura um amor que te tire do rumo e mostre direções que nunca se tinha cogitado. Todo mundo.
Nem sei o que te dizer além disso, porque sou bem dessas que diz: siga seu coração, só para não ter que tomar uma decisão mais pensada. Planos estragam tudo.
Uma vez li em algum lugar, no meio de tanta informação lixo, que clichês só são repetidos assim com tamanha frequência porque tem algum fundo de verdade, se não não seriam tão usados.
Ou isso, ou falta de criatividade mesmo.
Boa Henrique! Gostei da tua escrita e visão da vida...
[]s
Adoro filosofias e os devaneios que surgem em mesas de bar. São sempre as mais sinceras e espontâneas. E realmente, ninguém pode te aconselhar ou te dizer qual é o seu caminho. Essa é uma descoberta (ou a tentativa de) que você deve fazer por si só. Mas, uma coisa eu aprendi. É justamente estando com outras pessoas, fazendo exatamente isso que você fez, que faz com que tenhamos alguns insights e momentos de compreensão sobre aquilo que buscamos. E mesmo não sabendo qual é o seu caminho, pode ter certeza que você está no caminho certo.
Bjos!
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