21 de novembro de 2012

Nada Mais de Meio-fio Pintado de Branco

Dia desses assisti um filme besta pra caralho. Não digo nem ruim, besta mesmo.

Esse negócio de lembrança é uma coisa muito estranha, de um tempo pra cá, lembrar tem sido tudo o que venho fazendo. Vários passados, os vários eus que, nesse meu curto espaço de martírio chamado vida, já fui. Assim, sinto que, se houver alguém em algum lugar com poderes divinos disposto a perder tempo comigo, tudo o que esse alguém tem feito é brincar com essa minha carcaça descabelada. Já tem um bom tempo que, toda noite, vem sendo a mesma coisa, sinto um sono infernal, corro fechar a janela, o livro, o notebook, os olhos.

E então começo a lembrar.

As melodias românticas com letras ingênuas que um dia compus reverberam na minha mente com uma clareza assustadora, com os arranjos que idealizei, as emoções que senti. Os primeiros abraços, as últimas promessas.

Os porres que eu tomei escondido, e aqueles que fiz questão de esfregar na cara dos outros. As mentiras que contei de propósito, e as que eu disse pensando que eram verdades. As brigas que nunca aconteceram, todas as lágrimas, uma por uma, que segurei, e os sorrisos amargos, aquelas caretas bizarras, que as sucederam.

E então passo horas acordado.

Filme idiota. Um casal qualquer de adolescentes apaixonados, a tal descoberta do sexo que as pessoas teimam em colocar em qualquer sinopse desse tipo de filme, e que, na maioria dos casos, não passa de um boquete mal feito ou uma apertadinha no peito, um ou outro palavrão calculado. A trilha sonora brega pra porra, aquele cantor maldito. Até ele tinha que me trazer lembranças. Lembranças de muito tempo atrás, e da semana passada. Desgraçado.

Um dia, após vomitar sucessivas vezes na borda da privada, eu apenas me entreguei, passei a noite no banheiro mesmo, suando conhaque e vinho barato, com a gola da camiseta cheia de um vomito avermelhado, fedido pra caralho. Acordei coisa de doze horas depois, sem saber direito com o que tinha sonhado, com a cabeça explodindo. Agarrei a beirada da pia e tomei um gole de água, vomitei de novo, dessa vez, na pia mesmo. Fazia muito tempo que ninguém entrava lá para se certificar de que estava tudo em ordem, nunca me importei muito com isso. Fui até a geladeira, a garrafa de conhaque não tinha acabado, considerei a hipótese fumando um cigarro, achei melhor comer alguma coisa antes.

Depois agarrei o conhaque e o violão, a garrafa acabou, minha pseudo-sobriedade também, as melodias, mais uma vez, voltaram, não sabia se esmurrava o instrumento fingindo tocar, se berrava as letras ou se chorava, fiz tudo ao mesmo tempo, numa cena patética, tão patética que nem no filme idiota que eu assisti ela entraria.

Essas canções eu nunca mais escrevi. Aliás, nunca mais escrevi música alguma.

E ele ia bem até, o filme. O personagem só se fodia, culpa de suas escolhas erradas, ingenuamente egoístas, eu estava me identificando. A descrença com que ele olhava para o futuro, a indiferença quase reconfortante com que ele lidava com sua situação deplorável, sua covardia. Ele era um cara legal até.

Mas então, como em todo filme besta, algo gera um estalo de consciência no herói, ele tem uma reveladora epifania, e decide correr atrás do seu sonho, do seu grande amor que, sabe deus como ou porque, está parado na praia, olhando para o nada, lá, como um poste, dizendo para o mundo, mande o meu grande amor correr aqui até mim, estou vulnerável, e agora vejo como é dele que preciso para ser feliz.

E então temos a cena final. Tudo lindo, a praia, os olhares de cumplicidade, as mãos dadas. Esse filme conseguiu ir ainda mais longe e, como cereja do bolo, colocou um puta cachorro fofinho no meio.

Como disse, filme besta pra caralho. Aposto que o desgraçado que escreveu essa porra ainda compõe canções apaixonadas.

4 comentários:

Larissa Bello disse...

Henrique,

Antes de mais nada, obrigada pelo seus comentários. E que bom que você gosta do que escrevo.

Agora, pelamordeDeus, precisamos melhorar seu gosto por bebidas e filmes! Rsrsrsrs... Podemos nos entorpecer de maneira mais refinada. Se quiser, me adiciona no MSN que a gente conversa mais sobre esses e outros assuntos: leurysmsn@hotmail.com

Bjos!

aline disse...

ah, eu sou dessas também, que vê esses filmes babacas pra caralho e ainda consegue ficar pensando na própria vida.
acho que a nossa vida é babaca pra caralho também!

Ana Andreolli disse...

Pior, aposto que que o desgraçado que escreveu essa porra ainda está apaixonado. Mas ó, a gente sabe que isso vai e volta. Guarde o nome do roteirista, logo teremos um filme de terror.

Jéssica Trabuco disse...

Preciso confessar o quanto estava sentindo saudade de ler as coisas que escreve. Esse texto foi feito de uma maneira tão incrível que eu passei mal com vc e toquei-bati no meu violão enquanto tentava cantarolar alguma coisa e o choro vinha. Ótimo texto, como sempre (: