Quão linda ela é
a câmera a sua frente, discreta
registra seu momento espontaneo
capta o brilho dos olhos
cada fio de cabelo
milimetricamente desarrumado
o sorriso, sincero
o momento, eterno
e as bombas continuam caindo
se quiser, você também os ouve chorar
ainda ontem, perdi minha mãe
e um deus foi massacrado
cortaram sua cabeça
na frente de seus pais
estupraram sua irmã
e seu pai viu tudo
chorando lágrimas de sangue
enquanto lhe davam choques
em nome da paz
quão bem nós estávamos
correndo, rindo, nos amando
a natureza sorrindo para nós
as luzes cintilando em nossas pupilas dilatadas
nossas fumaças formando espirais eternos
nossas garrafas esvaziadas
nossas abraços sentidos
nossos sentidos livres
e a noite, sempre curta
e os dias, sempre eternos
não passa
quão linda ela é
ninguém ousa discordar
desfilando sua enganação
nos corações fracos de jovens perdidos
proclamando sua ruína
com seus olhos tão negros
tão brilhantes
e os lamentos que ouvimos
em meio aos barulhos de metralhadora
não nos importam mais
admiremos a sua beleza
e aproveitemos a noite
o sangue que escorre, não nos atinge
a luz do luar, ainda nos transporta
enquanto houver tempo
para um outro mundo
que, lindo e resplandecente
se eterniza em fotos de sorrisos sinceros
de cabelos esvoaçantes
de felicidade espontanea
quão linda ela é
a humanidade, sorrindo por míseros segundos
assim, a emolduramos
e é esse retrato que seguramos
quando, por um segundo, ousamos duvidar
que somos felizes
pois lá está nosso sorriso
de um instante insignificante
mas eterno
enquanto isso
as bombas continuam caindo.


4 comentários:
Olá, Henrique. Estou seguindo seu blog.
Bjs.
menino Henrique, me perdoa o trocadilho, mas vc me 'henriquece'! Que coisa tensa de ler.
Será mesmo que por trás de toda guerra há uma história de amor?
Segundo o livro que terminei de ler, sim. E ler esse poema me fez pensar nisso.
O mundo está longe de ser perfeito e a humanidade também. No entanto, é o poder do nosso olhar sobre ambos que pode modificá-los. E você já parece estar exercitando isso. Belo e contundente texto, Henrique!
Bjo.
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