2 de novembro de 2012

Considerações Sobre os Sentimentos do Sol

Era tudo mais simples antigamente. Ontem mesmo, parecia tudo muito mais fácil. Nove horas da manhã, a luz da aurora me parece tão ingênua que eu quase chego a sentir pena dela. Perambulando pelas ruas, tentando achar o caminho de casa, quando o sol bate em meus olhos e momentaneamente me cega, não consigo deixar de dar um sorriso amargo.

O ralo do banheiro estava com problema, a água simplesmente não ia embora e, na medida em que caía do chuveiro, ia formando uma pequena piscina abaixo de mim, aquela poça ensaboada, tomando o banheiro todo me enchia de agonia.

Tirei o dia para ouvir músicas que não ouvia faz tempo, músicas de um outro tempo, onde tudo era misterioso. Lembro de minha alma clamando por algo. Qualquer coisa. Lembro que, naquele tempo, minha alma ainda perdia seu tempo com essas merdas. Até hoje não consegui nada, e minha alma jaz muda, inerte. Músicas difíceis.

A tarde, quando tentei procurar alguma coisa para comer ou, no mínimo, mastigar e me sentir vivo, olhei pela janela e o sol começava a se por. Logo seria a hora de, talvez, procurar alguma companhia, algum copo.

A água continuava lá, teimosa, empoçada, me desafiando. Já era difícil entrar no banheiro sem molhar os pés, e o sol se punha, ao som daquelas malditas músicas, eu me empunha esse martírio sabe deus porque, a luz entrava fraca pela fresta da cortina, o calor era insuportável.

Meu estomago revirava só de pensar em comer algo, acendi um cigarro, algumas estrelas começaram a aparecer, no horizonte, a luz já agoniava.

A mesma luz que eu vi nascer, enquanto me arrastava para casa, brilhante, esperançosa, agora definhava num horizonte de um roxo fúnebre, para, horas depois, voltar radiante de novo, cheia de esperança.

A luz do sol é, provavelmente, a entidade mais ingênua do universo.

Quando dá as caras, toda manhã, sem falta, ela sempre parece esperar o melhor para o dia. Olhando um amanhecer, talvez você também pense que, enfim, o dia que há de vir valerá a pena.

O cigarro acabou, a noite começou, desisti de comer e fui procurar uma camiseta para sair, entrei no banheiro e a água continuava lá, olhei para ela, esbranquiçada, e vi ali, embalados pelos ecos daquelas canções de tempos distantes, todos os meus antigos sonhos empoçados, abandonados, lentamente, imperceptivelmente indo pelo ralo. Mas não sem antes me perturbarem um pouco mais. Federem, molharem meus pés. Ali, abandonados como aquela água nojenta. A caminho do esgoto.

Talvez você pense que, enfim, o dia que há de vir valerá a pena. Mas ele passa, a luz vai ficando mais fraca, e toda a esperança que você sentiu na aurora, com a brisa suave, a luz pacificadora e a adorável melodia dos pássaros, não passa então de uma agonizante decepção, o crepúsculo tem uma luz tão amarga.

Saí e já era noite. Procurando o primeiro lugar onde eu pudesse achar bebida barata.

Dessa vez, fiz questão de não ver o sol nascer. Nem de entrar no meu banheiro enquanto aquela maldita água e os ecos daquelas músicas continuaram por lá.

4 comentários:

Larissa Bello disse...

Realmente, às vezes nossos ralos entopem e nos enlouquecem. Mas, nada que um encanador não resolva. E pode ser apenas algo que foi acumulando ali e exitamos em limpar. Afinal, é difícil e dá trabalho. Mas, depois, pode ter certeza, a água escorrerá e tudo fluirá novamente.

Bjo!

Ana Flavya disse...

Os ralos entopem e nos transbordam. Precisamos fazê-lo escoar.

Saudades dos seus textos, estou de volta.

Beijos Miné !

Dani disse...

É bom o ralo entupir algumas vezes na vida, deixar que nossos sentimentos e sonhos frustrados não realizados tomem conta. Pelo menos antes de desentupir e tudo isso ir embora novamente, pensamos nessas coisas e tentamos não repeí-las.

aline disse...

o sol me deprime, quando eu tenho que ficar trancada em uma calça jeans, dentro de uma sala, de tênis.
odeio ver o sol nascendo e tendo a certeza que tudo será apenas repetição... ainda bem que eu sinto muito sono de manhã.