13 de novembro de 2012

Cervejas Quentes no Caminho Para Canaã

Me lembro que havia uma árvore. A gente é tão idiota às vezes. Pela janela do meu antigo serviço, um tanto afastado da cidade, eu olhava para os longínquos pastos e então, quase no horizonte, enfeitando o topo de uma colina, com uma simpática estrada de terra por perto, havia tal árvore.

O calor sempre insuportável, no meio daquele sol desgraçado, eu olhava e contemplava sua sombra, trancado em uma sala com ar condicionado o dia inteiro, aquela sombra é que realmente me parecia refrescante, sonhava deitar ali, pegar um livro, passar a tarde encostado no tronco, lendo e fumando, talvez até um baseado, ficar ali, relaxando, em plena tarde de terça-feira. Mas eu tinha os fatídicos relatórios de sempre. Os relatórios, os e-mails, os telefonemas, os prazos.

Tenho esse problema, de olhar algo que, a primeira vista parece inatingível, e enfiar na cabeça que é daquilo que preciso para ficar em paz. Não costuma funcionar mais.

Dia desses tentei recordar todos os meus amores, todos os “eu te amo” que lancei por aí. Todos os sonhos que já quis ter acreditado, foi uma puta perda de tempo. Tudo passou muito rápido e, hoje, a única coisa em que acredito é que, não importa no que eu acreditar, não vai dar certo.

Um dia eu surtei, no meio do expediente, comecei a sentir um pânico inexplicável, os relatórios pareciam sentenças de morte, as risadas das pessoas me assustavam, eu tremia, com os olhos cheios de lágrimas. As vozes ecoavam de maneira infernal na minha mente, eu sentia que podia desmaiar a qualquer momento.

Então me chamaram para conversar, eu vou morrer aqui, disse, se preocuparam, mas com o funcionário, com o lucro deles, com a máquina que, pouco tempo depois de vencida a garantia, inventou de dar problema. Talvez fosse apenas trocar uma pecinha ou outra.

Não foi, dois dias depois abri mão de tudo o que tinha pra receber, e dei o fora dali.

Ainda perturbado, com a primeira tarde livre em muito tempo, não sabia o que fazer. Olhei para a estrada, lembrei da árvore. Saí na caminhada. No caminho, passei em um posto, comprei um monte de cerveja, e peguei meu rumo.

Então começou uma subida, o sol estalava na minha mente, a cerveja esquentava. Por incrível que pareça, eu não sentia a liberdade transcendental que havia idealizado, a árvore, minha terra prometida após anos de lamúrias e escravidão ainda tinha um deserto em seu caminho. E eu ainda achava que podia desmaiar a qualquer momento, sem falar que aquela estrada vazia a minha frente formava uma metáfora tão óbvia que chegava a me irritar. Sentei num canto, acabei com a última cerveja e acendi um cigarro.

Enxuguei uma lagrima solitária que brotou e olhei para a subida que me esperava, o sol me cegou, não havia uma nuvem para remédio no céu, e eu já estava ensopado de suor. Porra de árvore o caralho, pensei, e peguei o caminho de volta.

3 comentários:

Laurie. disse...

Nossa, isso é desanimador. A gente sonhamos, criamos diálogos e quando arrumamos tempo (o que cada vez esta mais raro) não é aquilo o que esperávamos, é tipo, muito decepcionante e frustante.

Depois de muito tempo sem aparecer aqui, continua me surpreendendo com seus texto.

beijos;*

Antônio LaCarne disse...

lindas as tuas palavras, texto muito sensível, parabéns!

aline disse...

eu tinha um trabalho de corno, de corno manso, sabe? porque eu acredito que todo castigo pra corno é pouco. e eu tinha um emprego desses, de castigo. e aí eu ficava vendo a rua, as pessoas todas pareciam tão mais livres, tão mais felizes... e elas caminhavam com roupas de algodão, tomavam sorvetes e passavam por mim. eu ali, encolhida dentro de um uniforme social, tomando cafés desesperadamente e com um ventilador na minha cara, me descabelando. um dia, eu larguei toda aquela merda. e a minha vida de gente livre na rua, não era mais tão interessante. por que a grama do outro é sempre mais verde?