28 de julho de 2014

Sobre Determinado Amaciante de Roupas que Voltou a Ser Usado em Casa



E então houve esse dia. Finalmente o armário foi aberto, e as gavetas, lentamente, começaram a ser esvaziadas. É impressionante como uma ausência se impõe mais do que uma besta sentada no sofá da sua casa esperando uma xícara de chá. Um mês. Talvez um pouco mais, ou um pouco menos.
A vida é uma dádiva, alguns diriam. Mas, seja dádiva, seja maldição, seja qualquer coisa, está fadada a acabar. Assim como nossos gostos tão peculiares, nossas aventuras e experiências arrebatadoras. Do que você se recordará quando estiver em seu leito de morte, afinal?
Há quem sonhe em ser lembrado, reconhecido. Quem coloca o amor a si mesmo como sua maior prioridade. Autoconfiança e realizações. Há inclusive, e justamente por causa disso, uma certa overdose de realizações. Com medo de aceitar a derrota, o erro, a falha, algumas pessoas se esforçam para ver o lado coca-cola da vida, como tanto aprenderam nos comerciais, nas igrejas, nos funerais. E então, qualquer merda se torna aprendizado.
Mas isso é tudo uma grande besteira. A lembrança burocrática dos ditos grandes feitos que supostamente carregarão de você não passarão de ecos distorcidos daquilo que você forjou. Seremos apagados do tempo, até que sobre, no máximo, uma sombra de uma mentira que tentaram perpetuar sobre nós. A lembrança de você mal consegue te manter vivo antes da sua morte, quem dirá depois disso. Desista de aprender, desista de ensinar. Ninguém está interessado em sua historia, nem estará, não dessa maneira. Por mais que eventualmente a enfiem goela abaixo de pobres incautos. Viver já é o suficiente. Se você conseguir não estragar muito a vida dos outros, e amar alguém, então já terá concluído o maior dos feitos imagináveis
Um silencio imperava em casa de maneira palpável. Eu, inclusive, ainda guardo um pouco dele debaixo da minha cama. Uma a uma as roupas foram sendo tiradas, analisadas. Algumas tinham suas historias, outras, nem tanto. Então eram dobradas e caíam em uma caixa qualquer. Roupas, então jóias e bijuterias. Papeladas, um ou outro bilhete da mega-sena. Três cadernos repletos de receitas. Tudo, lentamente, foi encontrando seu lugar.
E lá se foi mais uma vida. Sem grandes realizações, sem um nome escrito para as gerações posteriores, exceto em uma lápide fria e simples. Lá se foi mais uma vida. De maneira normal, como todas as vidas, afinal de contas, se vão.
E eis o fim.
O fim, este, nunca considerado, nunca pensado. O fim só veio quando teve que vir. Não há o que acabe antes da hora, muito menos o que demore demais para se findar.
Minha caixa, já tenho. E faço questão de enchê-la aos poucos. O fim, chega. Então espero que haja quem termine o trabalho para mim. Com calma, amor, e um sorriso discreto nos lábios, de quem entende que teve o melhor que podia.
Quando a tarde terminou, fomos comer alguma coisa. Não conversamos muito, mas também não derrubamos lágrima alguma. O dever fora cumprido, a consciência estava limpa. Descansaríamos em paz.

Um comentário:

Vanessa A. disse...

Nossa! É a única coisa que consigo dizer depois de ler esse texto! E que o fim se torne em um novo começo, seja ele qual for e onde for. :)