27 de fevereiro de 2012

Espelho

Sente aqui do meu lado
Pegue minha mão
E vamos contemplar a vermelhidão do horizonte

Se lembra de como eramos felizes?
Se lembra de quando podíamos rir sem culpa
De quando nos matinhamos sóbrios
E nossas perguntas podiam ser respondidas?

Agora, enquanto vemos a tropa em furia
Quando o brilho das espadas no sol nos cega
E o cheiro de sangue não nos deixa respirar
Você consegue se lembrar da época em que nos beijávamos o dia inteiro?
Fazíamos planos e só nos preocupávamos em sermos felizes?

Se lembra de quando ainda achávamos que isso era possível?

Tanta coisa foi perdida
Abrimos mão de nossa sanidade
De nossa santidade
De nossas almas

Hoje não tenho mais nada para vender
Hoje não tenho mais nada para salvar
Hoje não tenho mais nada pelo que zelar
Hoje eu tenho um coração velho
Calejado e acuado

Se lembra de quando tomávamos banho no rio
E ele ainda era limpo?
Se lembra de quando nos dávamos as mãos
E saiamos para passear sem sermos assassinados?
Quando eu acariciava seu cabelo
Passava mão por todo o seu rosto
E ainda assim não conseguia acreditar que tudo aquilo era real?

Então vamos contemplar as explosões
Vamos respirar fundo toda essa pólvora
Nos abraçar e ouvir o belo som
Das turbinas dos aviões
Dos tanques derrubando casas
Das bombas nucleares dizimando nosso Deus
Dos gritos de horror na casa ao lado
Da televisão

Vamos andar pelos escombros
E procurar nossos pedaços
Assinar uma TV a cabo
E furar nossos olhos

Deitar sob o sol do meio dia
E nos depararmos com um teto cinza
Com cheiro de pólvora e cor de morte

Abrir nossos corações, e lembrarmos de quando ainda podíamos cantar
Quando dançávamos despreocupados pelas planícies
E dormíamos na relva molhada
Se lembra dessa época?
Quando o mundo ainda vivia e nos oferecia algo?
Quando ainda falávamos em esperança
E tinhamos tudo pela frente?

Eu também não.

2 comentários:

quaresma. disse...

memória boa, hein! ;p

beeeijas, Miné! ;*

Ana Caroline disse...

"Lembra que o plano era ficarmos bem"