Aquela escuridão, aquele silêncio. Apenas ruídos longíquos de máquinas. A fumaça pesada, seca, acre. As palavras soltas com cada pingo de emoção homeopaticamente dosado.
A voz que falhava, os sussurros e suspiros vindos daquele monte de rostos ocultos na escuridão. O brilho fraco, a luz mórbida e trêmlua daquelas velas.
Uma oração herege, maldições sagradas, heresias salvadoras. Canhão de luz na cara, a mesma música triste, sempre na mesma hora, os mesmos passos.
Os tapas no rosto. O gole d´agua de segundos contados. O imenso texto decorado falando de morte.
Descrença.
Drama, humilhação, vultos que no anonimato da penumbra observam a tudo com sadismo. Com suas trêmulas mãos entrelaçadas apenas esperam, como abutres, que a anunciada carcaça se entregue logo a seu destino.
As últimas ofensas, as maledicências derradeiras, a lágrima vindoura.
E então tudo acende, os vultos ganham forma, e parabenizam a carnificina romântica que acabaram de assistir.
Reverência e sorriso.
Ela volta para o camarim e escova os dentes, o gosto na boca é horrível, ela nem fuma de verdade. Tira a maquiagem, respira um pouco, toma um gole d´agua sem pudor dessa vez e não vê a hora de voltar para casa.
Encostar sua cabeça no peito dele, acariciar levemente sua coxa e sentir um beijo suave na testa.
Fechar os olhos e agradecer por não ter que fazer, também da felicidade, encenação.


3 comentários:
O bom é poder sair de cena com a certeza que não é o drama que se vive a cada dia.
Agora, pensa em quem diariamente encena, aquelas pessoas que encenam sorrisos, e que representam alguém que não são.
Enfim, só quis pensar de forma global.
Ah, Henrique, se tu curtir teatro, venha pro festival aqui em Curitiba, tem de tudo, do bom e do melhor. :D
Enfim, esta vida está corrida não é?! Adorei o texto, mais um vez.
Beijão. :D
pode estar sumido, mas aparece e deixa a gente sem ter oq dizer.
Lindo, simplesmente, valendo sempre a pena te ler.
excelente texto!
não ter que encenar a felicidade, a melhor parte.
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