4 de março de 2012

No Fundo, Todo Final é Feliz

Aquela escuridão,  aquele silêncio. Apenas ruídos longíquos de máquinas. A fumaça pesada, seca, acre. As palavras soltas com cada pingo de emoção homeopaticamente dosado.

A voz que falhava, os sussurros e suspiros vindos daquele monte de rostos ocultos na escuridão. O brilho fraco, a luz mórbida e trêmlua daquelas velas.

Uma oração herege, maldições sagradas, heresias salvadoras. Canhão de luz na cara, a mesma música triste, sempre na mesma hora, os mesmos passos.

Os tapas no rosto. O gole d´agua de segundos contados. O imenso texto decorado falando de morte.

Descrença.

Drama, humilhação, vultos que no anonimato da penumbra observam a tudo com sadismo. Com suas trêmulas mãos entrelaçadas apenas esperam, como abutres,  que a anunciada carcaça se entregue logo a seu destino.

As últimas ofensas, as maledicências derradeiras, a lágrima vindoura.

E então tudo acende, os vultos ganham forma, e parabenizam a carnificina romântica que acabaram de assistir.

Reverência e sorriso.

Ela volta para o camarim e escova os dentes, o gosto na boca é horrível, ela nem fuma de verdade. Tira a maquiagem, respira um pouco, toma um gole d´agua sem pudor dessa vez e não vê a hora de voltar para casa.

Encostar sua cabeça no peito dele,  acariciar levemente sua coxa e sentir um beijo suave na testa.

Fechar os olhos e agradecer por não ter que  fazer, também da felicidade, encenação.

3 comentários:

Ana Caroline disse...

O bom é poder sair de cena com a certeza que não é o drama que se vive a cada dia.
Agora, pensa em quem diariamente encena, aquelas pessoas que encenam sorrisos, e que representam alguém que não são.
Enfim, só quis pensar de forma global.

Ah, Henrique, se tu curtir teatro, venha pro festival aqui em Curitiba, tem de tudo, do bom e do melhor. :D

Enfim, esta vida está corrida não é?! Adorei o texto, mais um vez.

Beijão. :D

Ana Andreolli disse...

pode estar sumido, mas aparece e deixa a gente sem ter oq dizer.

Lindo, simplesmente, valendo sempre a pena te ler.

aline disse...

excelente texto!
não ter que encenar a felicidade, a melhor parte.