Debruçada na varanda ela pensava nisso que você pensaria nessas horas, ou seja, no seu cachorrinho, no cachorrinho da vizinha de cima que não para de latir, em dinheiro, nas provas, no bolinho de arroz que você comeu semana retrasada na casa da sua amiga, e na sua solidão.
Fazia apenas aquilo que fazemos tão bem, não só se sentia só, como pensava sobre sua solidão e, assim como nós, bolava mil maneiras de esquecer que era assim tão. Por isso tinha um cachorro e uma vizinha, por isso precisava de dinheiro e de estudar, por isso tinha uma amiga para ir comer bolinho de arroz na semana retrasada. Para esquecer que era só.
Até que uma melodia ingenuamente assobiada subiu aos poucos os andares que davam para a varanda, vencendo qualquer outro tipo de barulho insistente no meio da madrugada, como as notas cuidadosamente desenhadas em uma história em quadrinhos, um assobio cheio de falhas, tanto na afinação quanto em seu vigor. De qualquer maneira, era uma melodia que, até aquele momento, existia apenas para a garota da varanda e para seu avô que sempre a tocava na gaita.
Ela nunca teve curiosidade de perguntar que música era aquela, embora adorasse a canção, preferia manter assim, como a música dela e do seu avô. Até que o simpático senhor tocador de gaita morreu, e a música passou a ser apenas a música dela. Assim, mais singular impossível.
Então um estranho apareceu do nada com ela, no meio da noite e na frente de sua casa.
Ela não conseguia ver bem o sujeito que estava entoando tão mal e tão apaixonado as notas, mas parecia ser jovem e o homem mais bonito do mundo, já que conhecia aquela canção tão rara.
Era aquele que viajou por quilômetros com essa música na cabeça sem nem se lembrar de onde a conhecia, que estava naquela cidade de passagem e, bêbado, apenas parou debaixo daquele poste para descansar um pouco e tentar lembrar o caminho da casa do amigo onde estava hospedado, que toda noite sofria com tremores de amor e solidão, se engasgava com lágrimas e via o seu futuro nos sonhos, sem nunca se lembrar.
A moça limitou-se nesse momento a cantarolar a melodia, e deixar uma lágrima escorrer. Até que ele a viu, levantou cambaleante e disse com a voz engasgada que essa música é sua, meu amor.
Ela nunca perguntou de onde ele conhecia a melodia, de onde tinha vindo, ou como sabia que ela era seu amor.
Afinal de contas, ela finalmente pode voltar a dividir a sua canção com alguém. A canção deles.


6 comentários:
Canções sempre marcam as nossas vidas,e pode não ser uma única canção,e sim um albúm inteiro que lembre não o vô,e sim a mãe,se é que me entende...
Beeeeijos ♥
até então eu achava que gente solitária só gostava de gatos '-'
é bom ter alguém com quem dividir as coisas, principalmente as raras e boas, tipo essa música aí que deve ter saído da vitrola da Dercy Gonçalves - já que ninguém se lembrava de onde ela tinha vindo.
hehe
beijas, Miné ;*
Ah, mas que gracinha! Gaita... Despertou a saudade do avô... e meu lado toledano, viu? Haha, como encaixo nessas suas palavras...
O título, adorei! Enfim...
Beijos, Henrique.
E heis a questão: tudo que é bom deve ser dividido? Não. Multiplicado!
;)
Me lembrou 'O Som do Coração', da música que estranhamente foi deles e se ouviu tantas e tantas vezes interiormente.
Da primeira a última linha, está lindo *-*
E o comentário no post anterior é verdadeiro e de coração. *-*
Enfim, o que importa na vida é dividir pra poder multiplicar, os sentimentos entre si.
Beijos Henrique!
daqueles amores perdidos, enfim encontrados.
Charlie.
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