12 de outubro de 2011

Quando a Luz Apenas Queima os Olhos

Falavam tudo dele: infantil, idiota, bruto, insensível ou até romântico demais.

Mas nunca alguém acertou. Nem mesmo ele sabia o que ele era, se tudo isso e mais um pouco, ou qualquer coisa completamente diferente.

O que ele sabia era do abismo a sua frente, era da iminente queda que ele observava friamente. O que ele sabia era do vento frio que passava como mil navalhas, era do aperto de incontáveis nós em seu coração, era dos rios de lágrimas que escorriam por dentro de seu peito, mantendo seu rosto seco e suas pernas bambas.

Ele podia não entender porque a maioria das pessoas mantinha sempre um pé atrás com ele, porque ele tinha tanto medo de ficar sozinho, mesmo quando, na maioria das vezes em que estava acompanhado, a vontade que ele sentia era a de ir embora.

E ficar sozinho.

Mas ele entendia que, naquele momento, tudo isso estava para acabar, as trevas o chamavam e ele só esperava a garrafa terminar. Porque ele bebia. E vinha gostando cada vez mais disso, gostava de sentir cada gota de álcool infectar o seu sangue, até levá-lo ao mais secreto dos lugares, onde suas pernas pesavam uma tonelada, pronunciar uma palavra era travar uma batalha interior e o mundo se movimentava de maneira desgovernada enquanto ele tentava se manter em pé apenas para não escandalizar aqueles que, tão maduros e conscientes de seus atos, julgavam-no impiedosamente .

A verdade é que ele não suportava mais o mundo desses que o julgavam. Esses que bebem, mas com consciência, desses que não bebem, daqueles que não fumam. “Faz mal” ele diziam, e ele sabia. O que ele não entendia era como alguém podia se prender nesse mundo. O que ele queria saber era o que havia de tão especial nesse monte de símios se odiando em silêncio que os fazia querer aproveitar essa barbárie repugnante até que um tal de Deus resolvesse que era hora de mandá-los para o inferno.

Eles só não sabiam que Deus os tinha abandonado há muito tempo. E que o inferno nada mais era que um paraíso perto do que eles já suportavam, mesmo que se enganassem com dinheiro, com amor, com álcool.

O vazio, o escuro, a morte sorrindo para ele no final daquela queda. Isso sim parecia ter algum sentido.

Então a garrafa acabou.

E ele a jogou do abismo, deu um pequeno passo na direção de sua salvação, fechou os olhos e mandou, em uma fração de segundo, todo mundo tomar no cu.

Pulou, e acordou. As lágrimas ainda molhavam seu peito, e ainda era madrugada, ele sabia que não ia conseguir mais dormir, vinha sendo sempre assim. Saiu silenciosamente porta afora e sentou no quintal que ficava nos fundos da sua casa. Acendeu um cigarro e fitou uma estrela qualquer.

Ela se apagou. E ele sentiu inveja.

2 comentários:

Ana Andreolli disse...

pqp, vc me toca msm.... que lindo isso!

"Ela se apagou. E ele sentiu inveja."

ouch!!

Maria Midlej disse...

Maravilhoso!
Senti um monte de coisas enquanto lia. Gostei dele, senti raiva dele, quis salvá-lo. rs

E o azar de não conseguir ''se apagar'' me fez sentir pena. :~

Adorei.

E vei, adoraria sentar prumas cervejas ctg. Imagina as conversas. hahaha
;*