27 de março de 2013

Elas Rolam Menos do que Costumam Cantar Por Aí

uma pedra
uma pedra repousa
incansável
impassível
morta
ao lado de
um monte
de bosta

uma pedra
não se abala
com a chuva
com o sol
nem com os insetos
que botam seus
ovos
repletos de
maldição
em sua
carcaça
cheia de
lodo

ela não chora
quando alguém a pisa
nem se importa
quando dizem que
ela fica em seus caminhos
em seus caminhos
ela fica
e foda-se

quando o faminto
desmaia ao seu lado
ela vira o rosto
quando as nações
se explodem
ela boceja
quando a velha senhora
não consegue atravessar a rua
a pedra está lá
para que a velha
tropece

você é um
insensível
do
caralho
foi o que ela me disse

uma pedra
uma pedra repousa
incansável
impássivel
morta
ao meu lado

talvez ela sinta pena
talvez ela só esteja
no lugar errado
na hora
errada.

19 de março de 2013

Pelos Pecados de Todos Nós

E tem também esse cara, que a gente chama, carinhosamente, de Jesus. Sem que ele saiba, claro.

Jesus, esse infeliz, Jesus, a ultima pessoa que eu podia supor que, um dia, me faria sentir remorso.

Esse é o cara estranho, que vive no mesmo bar, sentado sozinho, olhando as pessoas com uma cara de acusação, não bastasse isso para ganhar o sagrado apelido, certa vez, ele veio, e sentou-se à nossa mesa.

E aí, e é sempre nesse ponto, que os problemas começaram.

Esse cara, coitado. O foda é que tenho pena dele. Aliás, pena não, pena eu sinto de um cachorro de rua com a pata machucada, sendo tocado aos berros e pontapés pelo dono gordo e suarento de algum açougue de segunda categoria, o que eu sinto pelo Jesus chega um pouco mais perto de ser compaixão, melhor, o que nutro por ele, não tem exatamente um nome, mas, nas palavras de seu xará, se resumiria com um perdoai-vos pois eles não sabem o que falam. Essa merda de sempre

Sentou, não me lembro porque, isso a madrugada já ia alta, minha cabeça então, mais alta ainda, conversávamos aos gritos qualquer coisa que não costuma deixar as pessoas felizes, e lá veio Jesus. E foi a partir dessa noite, que ele ganhou seu apelido. Descobrimos então que o Jesus, até então Aquelecaraquesentanocanto, é católico.

Veja bem, você pode ser católico também. Azar o seu, digo, existem muitos católicos por aí, alguns milhões, por sinal, mas o que surpreende no fato do Jesus ser católico é que, bem, eu não costumo freqüentar lugares cheios de religiosos, se bem me entende. Pior ainda, o desgraçado é daqueles católicos “de verdade” e, até onde me lembro, veio falar conosco para espalhar a sua mensagem de paz, misericórdia, pecado, inferno, pedofilia, preconceito e amor.

E aí, uma fervorosa discussão começou entre ele e meus companheiros de mesa, eu, que geralmente me abstenho desse tipo de coisa, também ousei jogar alguns argumentos na roda, se bem me lembro, mais para apaziguar a situação com aquele papo de respeitar as diferenças, do que, necessariamente, acabar com a fé do nosso novo e querido amigo.

Mas aquela bosta não acabava, os ânimos ficavam cada vez mais exaltados, as pessoas gritavam cada vez mais, Jesus então, tenho quase certeza, começou a soltar algumas afirmações ligeiramente fascistas, essas coisas de gente que curte uma oração.

Então eu levantei da mesa, cambaleei até a esquina, não me lembro exatamente para que, se para conversar com alguém, mijar, fumar um baseado, tudo ao mesmo tempo, sei lá. E, quando voltei, me deparei novamente com a face maldita de Jesus, sentei e soltei a frase que, além de enfurecer meu amigo, o fez levantar da mesa, voltar para seu altar no canto do bar e, assim, dar fim a discussão.

Não é, necessariamente, o tipo de coisa que saio por aí falando a torto e a direito, mas, espero ao menos que você saiba como é, as vezes a gente é filho da puta pra caralho, mesmo. Hoje, Jesus continua freqüentando o mesmo bar, as vezes, algumas pessoas se sentam e passam uns minutos com ele, mas logo vão embora, não sei se assustadas ou diretamente para uma paróquia, provavelmente a primeira opção, não é um bar onde pessoas que desejam ser convertidas parecem freqüentar.

E, quando me lembro de minhas ultimas palavras para esse infeliz, sempre sentado no canto, sempre bebendo cerveja com alguma coisa estranha, sempre com a mesma expressão de maluco, sinto como se todas as penas do mundo caíssem sobre ele, e, então, ele inventa esse lance de católico para si mesmo, e, então, ele tenta interagir com os outros os catequizando, mesmo que nem ele acredite naquele monte de merda, e, então, ele fica sempre sozinho, no mesmo bar, no mesmo lugar, todo dia.

“Eu quero mais é que Jesus morra afogado em um monte de merda” eu gritei.

Mas sinto que Jesus já não vive ha um bom tempo.

***

Sobre esse quase um mês de completa ausencia, olha, cuide de sua vida. Anda foda o lance de tempo pro meu lado (de qualquer maneira, vira e mexe eu posto algo direto no meu facebook, se fizer muita questão, fique a vontade).

26 de fevereiro de 2013

Sobretudo, Sobre Nada

Numa noite qualquer, o eterno e literal chove-não-molha, saio para fumar um cigarro, a garoa quase me congela, um cachorro vagabundo me lança um olhar de piedade.

Quatro e pouco da manhã, e esgotei todas as merdas que podia pensar, já me preocupei com tudo, dos pobres diabos morrendo de fome na África ao que vou comer amanhã no almoço, obvio que, justamente por essa ironia tão cruel, não é isso que me tira o sono.

Pois bem, vejo algumas fotos, acho aquela caixa, releio umas cartas. Aqueles três copos de cerveja a mais, e a garota dos seus sonhos beijando um imbecil qualquer, é foda. As luzes piscando, toda aquela confusão, será mesmo ela? Então você anda, como quem não quer nada, em direção ao excitado casal, pois bem, estava enganado, não era um imbecil, mas um cara que parece ser muito mais legal e interessante que você.

Foda-se. Também não é algo que vale a pena, mais três copos, numa dessa, já não fazem diferença, aquele lindo e fatalista poema idealizado se perde entre os vultos e a música indecentemente alta. Mais três copos (ou seriam doses? Garrafas?), você esta de cueca, as quatro da tarde, no sofá de casa.

E então, em que pensar, com o que se importar? O cigarro acaba, quase congelei, mas ainda estou seco, abro a geladeira, um gole d´agua, acho uma linguiça frita, deve estar ali ha uns quatro, cinco dias, cheiro um pouco, parece boa até, a devoro como se fosse uma fruta. Mais um gole na garrafa, agora eu durmo.

Uma hora depois, levanto e vou vomitar, a chuva aperta lá fora, esqueci de fechar a janela. Algumas roupas estavam no varal, as merdas de sempre, não fecho, nem recolho, coloco alguma música melancólica, deito e fico sentindo pena de mim mesmo, por ser tão burro a ponto de comer comida podre no meio da madrugada apenas por não ter o que fazer.

Numa dessa, os infelizes da África continuam rastejando. Sorte a deles que não mataram suas fomes com linguiça podre.

Os delírios de um personagem qualquer em um filme que não entendi. Aliás, acho que nunca entendo os filmes que assisto, andam cada vez piores, aqueles rostos sempre tão maquiados, mais conhecidos que o motorista do ônibus de sempre, não parecem se importar muito com os dramas tão sérios e sinceros que vivem. A vida, mesmo com o mundo acabando numa chuva de meteoros, mesmo com uma ameaça terrorista, mesmo quando o infeliz descobre que o amor de sua vida o traiu com nove caras diferentes em uma semana, ao mesmo tempo, parece muito mais fácil do que quando você levanta de madrugada passando mal.

Depois, me lembro de algum quadro de Van Gogh que a professora nos tempos de colégio mostrou, lá está ele, com aquele olhar estranho, sem uma orelha. Cara de sorte, ele tinha com o que se importar, uma puta, se importou tanto o infeliz que foi lá e arrancou uma orelha. Vai entender.

Então você se toca de que, independente do seu estomago, você não está bem, seja pela garota bacana pegando o cara mais bacana ainda, seja pela porra da lingüiça, pelos copos de cerveja a mais, a inveja repentina e absurda de um cara que cortou a própria orelha ou pelos moribundos da África, vai ver, é por tudo isso e nada ao mesmo tempo.

O problema é justamente esse, não ter o que dizer. Quando você não se importa com muita coisa, então, se importa com tudo, e qualquer vento que passe fora do lugar, é um furacão.

Amanhece, fecho desesperado as cortinas, aperto os olhos e o travesseiro, vai ver, até deixo escapar uma prece.

Acordo, a fome aperta, amaldiçôo o fato de ter comido a linguiça na madrugada, teria um dia inteiro para passar mal. Agora, faço qualquer coisa fresca e volto a dormir, uma longa noite me espera.

18 de fevereiro de 2013

A Mão Gélida na Esquina

“Eu estou te deixando”. As noites que se arrastavam, aquelas horas eternas, as conversas cíclicas que, invariavelmente, acabavam em choro.

É como subir um degrau, evoluir, passar de fase. Deixar um fardo. Assim, fiz questão de descrever o fim de uma relação comigo, não se vai a lugar algum quando se tem alguém bêbado atrás para carregar, quando você sempre tem que se perguntar se ele não vai te trocar por uma cerveja no bar da esquina, ou se, ao final da noite, ele vai estar embriagado demais até para um mísero abraço, para pronunciar, sem se embolar nas palavras, um dorme bem que seja.

Era tudo o que eu tinha para falar. Não posso mentir, muito menos me enganar, já vivia perdido, imagine sozinho. Olhei para o lado, um par de olhos que conheço muito bem brilhava, o sorriso maldoso, ansioso, me causava arrepios. A solidão mal podia esperar para me receber com um abraço.

Não tinha para onde fugir, nunca tive, na verdade. Mesmo se tivesse, fiz questão de deixar claro que não fazia muita diferença. Ela estava me deixando, nessas horas, não resta muita coisa para um pobre diabo fazer além de ir embora, caçar um canto, chorar escondido as magoas de ser um filho da puta, um incapaz de manter um relacionamento sequer por pura fraqueza.

“Eu estou te deixando, é o fim, você entende? Você acabou com a gente”. Entendo, claro que entendo, nunca consegui jogar essa culpa em outra pessoa além de mim, elas constroem, eu destruo, seja por desleixo, por medo, por preguiça. É assim que funciona.

Chega um ponto em que me sinto um parasita, destruindo de dentro para fora, arrancando lágrimas, quase como se fosse por prazer, para sobreviver.

“É uma ótima escolha”, respondi.

Acendi um cigarro e fui embora, o sorriso na esquina abriu mais um pouco, o frio aumentou, assim como o bom e velho aperto no peito. Dei as mãos para a solidão, e partimos juntos para a escuridão.

Amor é isso, então? Bom, é o que costumam dizer.