19 de março de 2013

Pelos Pecados de Todos Nós

E tem também esse cara, que a gente chama, carinhosamente, de Jesus. Sem que ele saiba, claro.

Jesus, esse infeliz, Jesus, a ultima pessoa que eu podia supor que, um dia, me faria sentir remorso.

Esse é o cara estranho, que vive no mesmo bar, sentado sozinho, olhando as pessoas com uma cara de acusação, não bastasse isso para ganhar o sagrado apelido, certa vez, ele veio, e sentou-se à nossa mesa.

E aí, e é sempre nesse ponto, que os problemas começaram.

Esse cara, coitado. O foda é que tenho pena dele. Aliás, pena não, pena eu sinto de um cachorro de rua com a pata machucada, sendo tocado aos berros e pontapés pelo dono gordo e suarento de algum açougue de segunda categoria, o que eu sinto pelo Jesus chega um pouco mais perto de ser compaixão, melhor, o que nutro por ele, não tem exatamente um nome, mas, nas palavras de seu xará, se resumiria com um perdoai-vos pois eles não sabem o que falam. Essa merda de sempre

Sentou, não me lembro porque, isso a madrugada já ia alta, minha cabeça então, mais alta ainda, conversávamos aos gritos qualquer coisa que não costuma deixar as pessoas felizes, e lá veio Jesus. E foi a partir dessa noite, que ele ganhou seu apelido. Descobrimos então que o Jesus, até então Aquelecaraquesentanocanto, é católico.

Veja bem, você pode ser católico também. Azar o seu, digo, existem muitos católicos por aí, alguns milhões, por sinal, mas o que surpreende no fato do Jesus ser católico é que, bem, eu não costumo freqüentar lugares cheios de religiosos, se bem me entende. Pior ainda, o desgraçado é daqueles católicos “de verdade” e, até onde me lembro, veio falar conosco para espalhar a sua mensagem de paz, misericórdia, pecado, inferno, pedofilia, preconceito e amor.

E aí, uma fervorosa discussão começou entre ele e meus companheiros de mesa, eu, que geralmente me abstenho desse tipo de coisa, também ousei jogar alguns argumentos na roda, se bem me lembro, mais para apaziguar a situação com aquele papo de respeitar as diferenças, do que, necessariamente, acabar com a fé do nosso novo e querido amigo.

Mas aquela bosta não acabava, os ânimos ficavam cada vez mais exaltados, as pessoas gritavam cada vez mais, Jesus então, tenho quase certeza, começou a soltar algumas afirmações ligeiramente fascistas, essas coisas de gente que curte uma oração.

Então eu levantei da mesa, cambaleei até a esquina, não me lembro exatamente para que, se para conversar com alguém, mijar, fumar um baseado, tudo ao mesmo tempo, sei lá. E, quando voltei, me deparei novamente com a face maldita de Jesus, sentei e soltei a frase que, além de enfurecer meu amigo, o fez levantar da mesa, voltar para seu altar no canto do bar e, assim, dar fim a discussão.

Não é, necessariamente, o tipo de coisa que saio por aí falando a torto e a direito, mas, espero ao menos que você saiba como é, as vezes a gente é filho da puta pra caralho, mesmo. Hoje, Jesus continua freqüentando o mesmo bar, as vezes, algumas pessoas se sentam e passam uns minutos com ele, mas logo vão embora, não sei se assustadas ou diretamente para uma paróquia, provavelmente a primeira opção, não é um bar onde pessoas que desejam ser convertidas parecem freqüentar.

E, quando me lembro de minhas ultimas palavras para esse infeliz, sempre sentado no canto, sempre bebendo cerveja com alguma coisa estranha, sempre com a mesma expressão de maluco, sinto como se todas as penas do mundo caíssem sobre ele, e, então, ele inventa esse lance de católico para si mesmo, e, então, ele tenta interagir com os outros os catequizando, mesmo que nem ele acredite naquele monte de merda, e, então, ele fica sempre sozinho, no mesmo bar, no mesmo lugar, todo dia.

“Eu quero mais é que Jesus morra afogado em um monte de merda” eu gritei.

Mas sinto que Jesus já não vive ha um bom tempo.

***

Sobre esse quase um mês de completa ausencia, olha, cuide de sua vida. Anda foda o lance de tempo pro meu lado (de qualquer maneira, vira e mexe eu posto algo direto no meu facebook, se fizer muita questão, fique a vontade).

2 comentários:

aline disse...

até eu senti uma pontada de pena do jesus.


pelo jeito, tempo é uma coisa que não tem nos visitado há algum tempo mesmo.

Indigente disse...


terça-feira, 12 de julho de 2011
Era Vidro, E se Quebrou

Amizade é uma coisa estranha.

Todos temos, ou ao menos já tivemos, o que acreditamos ser o melhor amigo.

É geralmente aquele que aparece meio do nada, começa sempre sem pretensão, pode ser que, no começo, um até estranhe o outro.

Mas o tempo passa e, o que é pra ser, sempre acaba sendo.

Vocês se vêem cada vez mais próximos até que, se não se encontram todos os dias, ao menos não deixam de pensar um no outro. Fazem planos, trocam segredos, você geralmente conhece mais do seu amigo que de você mesmo, ou do que ele próprio. É uma certeza, vocês estarão sempre juntos.

É claro que surgem as brigas, os desentendimentos, mas duram pouco, quase nada, nem dez minutos. Sem o amigo, as coisas perdem a graça.

Mas o tempo passa.

E, nada, absolutamente nada, resiste a ele.

O seu amigo vai ficando estranho, você, consequentemente, também, vocês vão se falando menos, por mais que ainda se gostem, é um afastamento quase natural.

As pessoas mudam, seus amigos também.

Até que chega o ponto onde vocês não se reconhecem mais. E aquela amizade que parecia eterna, não passa mais de um carinho, forte, mas ainda assim, insuficiente para levar a amizade a diante.

Você olha para o seu amigo e ele mudou tanto que você simplesmente não sabe mais o que conversar com ele, parece que os papos antigos não o interessam mais, e você também não sabe se conseguiria mantê-los, não com esse amigo.

E, então, por mais que doa, cada um segue seu caminho.

Obrigado a todo mundo que, nesses quase quatro anos, me acompanhou, por um período que seja, nesse blog.

As alegrias que eu senti com ele, o orgulho, são indescritíveis, mas, infelizmente, não dá mais.

Consegui um mísero tempo, e um último resquício de inspiração agora, e só não estou chorando um mar porque minha irmã está no mesmo quarto que eu. Sei que vou chorar quando estiver sozinho.

Sinto que, por mais que seja uma bosta, a melhor coisa que já fiz até hoje, foi esse blog.

Talvez, um dia, eu volte. Quem sabe.

Até lá, vou continuar no Daquilo que Não se Vê, e na minha vida medíocre.

Obrigado, de coração. Se alguém ainda lê isso aqui.