Numa noite qualquer, o eterno e literal chove-não-molha, saio para fumar um cigarro, a garoa quase me congela, um cachorro vagabundo me lança um olhar de piedade.
Quatro e pouco da manhã, e esgotei todas as merdas que podia pensar, já me preocupei com tudo, dos pobres diabos morrendo de fome na África ao que vou comer amanhã no almoço, obvio que, justamente por essa ironia tão cruel, não é isso que me tira o sono.
Pois bem, vejo algumas fotos, acho aquela caixa, releio umas cartas. Aqueles três copos de cerveja a mais, e a garota dos seus sonhos beijando um imbecil qualquer, é foda. As luzes piscando, toda aquela confusão, será mesmo ela? Então você anda, como quem não quer nada, em direção ao excitado casal, pois bem, estava enganado, não era um imbecil, mas um cara que parece ser muito mais legal e interessante que você.
Foda-se. Também não é algo que vale a pena, mais três copos, numa dessa, já não fazem diferença, aquele lindo e fatalista poema idealizado se perde entre os vultos e a música indecentemente alta. Mais três copos (ou seriam doses? Garrafas?), você esta de cueca, as quatro da tarde, no sofá de casa.
E então, em que pensar, com o que se importar? O cigarro acaba, quase congelei, mas ainda estou seco, abro a geladeira, um gole d´agua, acho uma linguiça frita, deve estar ali ha uns quatro, cinco dias, cheiro um pouco, parece boa até, a devoro como se fosse uma fruta. Mais um gole na garrafa, agora eu durmo.
Uma hora depois, levanto e vou vomitar, a chuva aperta lá fora, esqueci de fechar a janela. Algumas roupas estavam no varal, as merdas de sempre, não fecho, nem recolho, coloco alguma música melancólica, deito e fico sentindo pena de mim mesmo, por ser tão burro a ponto de comer comida podre no meio da madrugada apenas por não ter o que fazer.
Numa dessa, os infelizes da África continuam rastejando. Sorte a deles que não mataram suas fomes com linguiça podre.
Os delírios de um personagem qualquer em um filme que não entendi. Aliás, acho que nunca entendo os filmes que assisto, andam cada vez piores, aqueles rostos sempre tão maquiados, mais conhecidos que o motorista do ônibus de sempre, não parecem se importar muito com os dramas tão sérios e sinceros que vivem. A vida, mesmo com o mundo acabando numa chuva de meteoros, mesmo com uma ameaça terrorista, mesmo quando o infeliz descobre que o amor de sua vida o traiu com nove caras diferentes em uma semana, ao mesmo tempo, parece muito mais fácil do que quando você levanta de madrugada passando mal.
Depois, me lembro de algum quadro de Van Gogh que a professora nos tempos de colégio mostrou, lá está ele, com aquele olhar estranho, sem uma orelha. Cara de sorte, ele tinha com o que se importar, uma puta, se importou tanto o infeliz que foi lá e arrancou uma orelha. Vai entender.
Então você se toca de que, independente do seu estomago, você não está bem, seja pela garota bacana pegando o cara mais bacana ainda, seja pela porra da lingüiça, pelos copos de cerveja a mais, a inveja repentina e absurda de um cara que cortou a própria orelha ou pelos moribundos da África, vai ver, é por tudo isso e nada ao mesmo tempo.
O problema é justamente esse, não ter o que dizer. Quando você não se importa com muita coisa, então, se importa com tudo, e qualquer vento que passe fora do lugar, é um furacão.
Amanhece, fecho desesperado as cortinas, aperto os olhos e o travesseiro, vai ver, até deixo escapar uma prece.
Acordo, a fome aperta, amaldiçôo o fato de ter comido a linguiça na madrugada, teria um dia inteiro para passar mal. Agora, faço qualquer coisa fresca e volto a dormir, uma longa noite me espera.


2 comentários:
Que dia hein? Nunca tive um dia desses de nostalgia na madrugada. Ótimo texto.
saudade de te ler.
a dor da intoxicação alimentar, já senti e não gostei.
Postar um comentário