3 de fevereiro de 2013

O Último dos Dias Doces

Não é como se, um dia, tivesse sido diferente. Não me lembro de quando isso começou, na verdade, lembrar das coisas nunca foi o meu forte, mesmo.

Mas há uma lembrança que sempre volta a minha mente, uma tarde quente, perdida, eu devia ter cerca de cinco, seis anos, o fato é, sem ter algum motivo aparente, eu abri o portão de casa e comecei a caminhar, para um lado que, sabia eu, não levava a muitos lugares.

O sol estava forte, me lembro que, caminhando para o oeste, ele me cegava, eu apertava os olhos, colocava a mão na frente, e seguia.

Na verdade, eu não queria, necessariamente, fugir de casa, como muitas crianças fogem, a vontade que eu tinha era, apenas, de que alguma coisa acontecesse. Aquela tarde, enquanto assistia a qualquer porcaria na televisão, me lembro de que, toda a angustia que eu já sentia, todos os dias, quando ficava lá sozinho (sem fazer a menor idéia de que o nome daquele maldito aperto no peito era angustia) começou a ficar insuportável. E então, eu desejei estar em qualquer outro lugar, que não fosse o que eu, no momento, estivesse.

E saí andando. Para o desconhecido.

Na época, morava em um bairro consideravelmente afastado, logo, minha rua acabou em um terreno baldio, uma espécie de pasto, ao fundo, passava uma rodovia. Não pensei duas vezes para começar a, também, atravessar o mato. Ainda não me sentia bem, na verdade, quanto mais eu andava, mais queria andar. Não pensava se ia perder a minha família, que eu poderia ser seqüestrado, mutilado, estuprado, sentir uma vontade repentina de voltar e me ver perdido, me desesperar, esse tipo de coisa. Eu só queria ir embora, sempre, tudo o que sentia era isso, vontade de ir embora, de sumir.

Antes de terminar o pasto, e chegar à rodovia, vontade de chorar, algumas estrelas já brilhavam forte, a lua, pequena, não servia para bosta nenhuma, mas não chorei por medo do escuro, chorei porque, naquele momento, entendi a minha situação. Eu fugia, não sabia de onde, nem meu destino, e então me vi encurralado por uma mistura de desespero e auto-piedade, nesse momento, percebi que não chegaria, jamais, a algum lugar. Percebi, com minha mente infantil, que tudo aquilo era inútil.

E então, no acostamento daquele turbilhão de carros e caminhões, alguém parou, um homem e uma mulher, pareciam ser casados, perguntaram se estava tudo bem, respondi que sim, e que não tinha idéia do que estava fazendo ali, eles se olharam meio desconfiados, meio preocupados, perguntaram se eu sabia onde era a minha casa, eu sabia. Me levaram.

Em casa, o choro foi geral, minha mãe prometeu agradecer a deus todos os dias de sua vida por ter colocado aquele casal no meu caminho, eles disseram que não foi nada, aquela merda de sempre. Depois, ela foi para o quarto me perguntar o que tinha acontecido, eu fingi que dormia. Ela, provavelmente por medo, nunca mais tocou no assunto, mas passou um bom tempo me tratando de uma maneira constrangedoramente carinhosa.

Essa lembrança, acredito que a mais nítida da minha infância, sempre volta a minha mente nas noites de insônia, e, então, percebo que, por mais que aquele casal tenha aparecido e me levado para casa, eu continuei vagando naquela estrada, fugindo, com lágrimas nos olhos e esquecendo, a cada passo, o caminho de volta.

3 comentários:

Ana Caroline disse...

Depois que deu o primeiro passo pra fora do portão, e a ânsia dos próximos passos chegaram, ali percebeu que não iria parar.

Larissa Bello disse...

Te compreendo perfeitamente. Sempre senti uma forte atração por esse sentimento de se descobrir o desconhecido e a inquietação latente dentro de mim. E quer saber? Agora vejo que trilhar tal caminho é fascinantemente um grande prazer e não mais angustiante.

Bjos!

Dani disse...

Tem dias que me sinto assim, angustiada, com vontade de caminhar sem rumo. Apenas caminhar.
Essa angustia é natural do ser humano, por isso não busco encontrar essas respostas de perguntas existenciais, as coisas simples da vida me bastam.
E assim vou, caminhando.
Beijos