30 de abril de 2012

A Flor da Pele

É que não assistia novelas, porque, certamente, cada beijo ali o faria desabar em lágrimas, assim como fazem com o poeta.

Acontece que vivia em uma fase onde aquela simples conversa, que ia tão bem e só não teve um final perfeito, o abalou. Escutar, sem querer, os problemas da cunhada da vizinha lhe tirara o sono. Os vultos do corredor teimavam em aparecer, e a dor de cabeça voltara ainda mais arrasadora.

E aquela pequena foto, aqueles olhos, ainda tão jovens, pareciam lhe acusar de alguma coisa. O brilho discreto, porém vivo, deles dizia apenas “eu sei bem o que você sente aí no fundo. Sei perfeitamente o que eu deveria fazer, mas, meu amigo, nesse caso você se fodeu”. Olhos acompanhados de um sorriso.

Ele voltara ao ponto onde todas as alternativas se revelavam apenas desvios para o mesmo lugar... Nenhum.

E o telefone não tocou. Se tocasse, ele nem teria percebido, não sabia onde estava o celular mesmo.

E ninguém apareceu logo pela manhã com um saco de pão fresco, o coração aberto, e um sorriso sincero. Se aparecesse, daria com a cara nas portas, os remédios para dormir, excepcionalmente aquele dia, fizeram muito bem o seu trabalho.

E quando a tarde do dia seguinte, pra ele madrugada, lançou seus fulgurantes raios de sol, exatamente no rosto do nosso herói deprimido, ele pensou em levantar.

Para fechar a cortina.

Ao invés disso, ele simplesmente virou de lado, e colocou o travesseiro no rosto, torcendo para acordar só no dia seguinte, em que a previsão era de chuva e frio.

23 de abril de 2012

Um Pequeno Conto que, Espero Eu, Seja Um Pouco Mais que Apenas um Monte de Metáforas Vazias

(Porque dessa merda eu já estou cheio)

Era um planeta. Perdido nas estrelas, no tapete de escuridão, na imensidão de luzes.

Um planeta, ao menos era o que diziam, um pequeno corpo celeste jogado na infinidade, com apenas um objetivo em toda a sua mísera existência, um objetivo que ele sequer escolhera, que seguia, instintivamente, sem nem ao menos saber por que fazia aquilo.

Ele apenas girava.

Com um universo inteiro ao seu dispor. Ele podia ser uma nebulosa, um cometa, uma estrela, um dinossauro, presidente dos Estados Unidos, formiga, um bule, um beijo, abraço, tapa, noite em claro, sussurro apaixonado, telefonema não correspondido.

Mas ele era um planeta, e ele girava. Eternamente, só, frio, triste e sem esperança.

Então, houve o dia em que ele cansou de apenas observar estrelas, cansou de girar em torno daquilo que nem ao menos compreendia. Admirou a eternidade ao seu redor. Enfim chegou o dia em que ele experimentaria o dedo impiedoso de deus acabando com sua existência medíocre.

E então, antes que ele terminasse seus dias como apenas mais um acidente cósmico, como nada mais que um planeta que apareceu e sumiu entre bilhões de outros planetas no universo, ele desviou seu olhar das estrelas longínquas e olhou para o caminho a sua frente. Acendeu um cigarro, levantou e andou.

Deixou de ser apenas um planeta, e foi ser seu próprio mundo.

20 de abril de 2012

Paradeiro

Eu não estou aqui
Não estou onde almas perdidas
Levam corpos a ruína

Estou do outro lado do mundo
Onde os gritos da mulher errante
Formam a música mais bonita que já ouvi

Estou onde minha letra é legível
Todo mundo me entende e leva a sério
Onde meu coração é vazio
E, na verdade, nem preciso escrever

Não estou aqui
Como diz o poeta em línguas estranhas
Em meio ao caos melódico

Estou junto dos peixes e das algas
Assustados com o homem
Que destruiu seu último império

Estou junto ao imenso eucalipto
Maior entre os seus
Que me conta segredos sobre nós
Sobre ele, e sobre mim
Sobre os insetos nos interiores
Das árvores, da terra
E de nossas almas

Sobre o ar que balança cabelos
Plantas e a água
Edifícios, casebres, e o próprio eucalipto

Que me conta segredos ancestrais

Segredos de quando engatinhávamos
Lutávamos com bestas
E conversavamos com homens do espaço

Segredos de quando eu ainda andava por aqui.

15 de abril de 2012

Como o Sol do Fim de Tarde que Entra Pela Janela e Me Faz Sentir Vontade de Chorar

Então crie coragem
Olhe nos meus olhos
E me diga o que fazer

Bem sabe que não procurei nada disso
Ontem, tudo que eu queria era dormir
Sozinho, que fosse

Eu sempre fui bom em reprimir
Em ignorar o que me aflige
E de fingir que nada tem piorado
Sempre foi meu dom sofrer só até onde me permito
Matar demonios como quem esmaga uma barata
Com ódio, repulsa e pavor
Por mim mesmo
Mas acho que dessa vez não vai dar certo
Justo agora, quando eu mais precisava

Estou sozinho em meio a ótimas companhias
Estou chorando com um sorriso no rosto
Confuso como só eu poderia
E a culpa, dessa vez, não é minha

Queria viver para sempre naquela foto amarelada
O personagem de um pedaço empoeirado da sua vida
Queria viver guardado em uma gaveta
Esperando que tuas mãos suaves me encontrem em uma tarde chuvosa
E derrubem lágrimas em meu rosto
Queria estar para sempre abraçado a ti
A luz de nossos grandes sorrisos trocados iluminando nossas vidas
Congelados em um pequeno recorte da infinidade
Sem lembrar que existe o mundo
Sem passado e sem futuro
Vivendo para sempre com meus dedos entrelaçados aos seus
Com o gosto de seu beijo e o calor de seu corpo
Sem esperar nem se preocupar com nada
Sabendo que esse presente será eterno

Mas o que me resta é tentar resgatas lembranças ébrias
Dos momentos que passei contigo
E dos que eu queria ter passado
Dos momentos que não passarei
E dos que eu prefiro esquecer
O que me resta, é idealizar uma vida para nós
Uma vida que não vai acontecer
Porque estamos falando de mim
E eu fujo da felicidade, antes que ela fuja.

Então crie coragem
Olhe nos meus olhos
E me diga o que fazer

Me diga logo para partir
Que já fiz a minha mala
No fundo, algumas garrafas de solidão
Mantas de lembranças
E travesseiros de angústia
Por cima de tudo
Em um lugar especial
Em uma moldura nova e do jeito que você gosta
A nossa foto de felicidade eterna
Para eu colocar na cabeceira da minha cama
E, toda noite, ter com o que sonhar.