É que não assistia novelas, porque, certamente, cada beijo ali o faria desabar em lágrimas, assim como fazem com o poeta.
Acontece que vivia em uma fase onde aquela simples conversa, que ia tão bem e só não teve um final perfeito, o abalou. Escutar, sem querer, os problemas da cunhada da vizinha lhe tirara o sono. Os vultos do corredor teimavam em aparecer, e a dor de cabeça voltara ainda mais arrasadora.
E aquela pequena foto, aqueles olhos, ainda tão jovens, pareciam lhe acusar de alguma coisa. O brilho discreto, porém vivo, deles dizia apenas “eu sei bem o que você sente aí no fundo. Sei perfeitamente o que eu deveria fazer, mas, meu amigo, nesse caso você se fodeu”. Olhos acompanhados de um sorriso.
Ele voltara ao ponto onde todas as alternativas se revelavam apenas desvios para o mesmo lugar... Nenhum.
E o telefone não tocou. Se tocasse, ele nem teria percebido, não sabia onde estava o celular mesmo.
E ninguém apareceu logo pela manhã com um saco de pão fresco, o coração aberto, e um sorriso sincero. Se aparecesse, daria com a cara nas portas, os remédios para dormir, excepcionalmente aquele dia, fizeram muito bem o seu trabalho.
E quando a tarde do dia seguinte, pra ele madrugada, lançou seus fulgurantes raios de sol, exatamente no rosto do nosso herói deprimido, ele pensou em levantar.
Para fechar a cortina.
Ao invés disso, ele simplesmente virou de lado, e colocou o travesseiro no rosto, torcendo para acordar só no dia seguinte, em que a previsão era de chuva e frio.

