É que não assistia novelas, porque, certamente, cada beijo ali o faria desabar em lágrimas, assim como fazem com o poeta.
Acontece que vivia em uma fase onde aquela simples conversa, que ia tão bem e só não teve um final perfeito, o abalou. Escutar, sem querer, os problemas da cunhada da vizinha lhe tirara o sono. Os vultos do corredor teimavam em aparecer, e a dor de cabeça voltara ainda mais arrasadora.
E aquela pequena foto, aqueles olhos, ainda tão jovens, pareciam lhe acusar de alguma coisa. O brilho discreto, porém vivo, deles dizia apenas “eu sei bem o que você sente aí no fundo. Sei perfeitamente o que eu deveria fazer, mas, meu amigo, nesse caso você se fodeu”. Olhos acompanhados de um sorriso.
Ele voltara ao ponto onde todas as alternativas se revelavam apenas desvios para o mesmo lugar... Nenhum.
E o telefone não tocou. Se tocasse, ele nem teria percebido, não sabia onde estava o celular mesmo.
E ninguém apareceu logo pela manhã com um saco de pão fresco, o coração aberto, e um sorriso sincero. Se aparecesse, daria com a cara nas portas, os remédios para dormir, excepcionalmente aquele dia, fizeram muito bem o seu trabalho.
E quando a tarde do dia seguinte, pra ele madrugada, lançou seus fulgurantes raios de sol, exatamente no rosto do nosso herói deprimido, ele pensou em levantar.
Para fechar a cortina.
Ao invés disso, ele simplesmente virou de lado, e colocou o travesseiro no rosto, torcendo para acordar só no dia seguinte, em que a previsão era de chuva e frio.


4 comentários:
muito bom o texto, bem escrito...
Se psicologo fosse, sinais de depressão no personagem do texto acharia!hauhau
abraço
eu pude imaginar toda uma cena, gosto quando isso acontece. parece uma legitimação do que está escrito.
hoje faz frio e chove bastante por aqui... tempo bom pra dormir.
Ai menino, isso me fez lembrar uma época tão dificl, uma delicia poder dizer, que isso passa.
O legal do escrever é você poder dizer aquilo que se passa com você, ou a ideia de algo que se passa em sua mente, e não ser necessário dizer "Poxa, o Henrique está numa depre", ou quem sabe se convencer disso, rs.
O texto me lembrou tantas músicas, e tantos momentos.
A que começo a escutar agora é "eu não quero ver meu rosto antes de anoitecer...", Terra de Gigantes, de EngHaw.
O lance do telefone, eu ri, rs.
Enfim, gosto cada vez mais de seus textos, Henrique.
Beijos e bom resto de semana!
;*
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