27 de julho de 2010

Senta Aí

E quando voltávamos pra casa
Você falava como quem sabe o diz
Abra os olhos, rapaz
Veja e vá ser feliz

Enquanto você lamenta
Foge, finge e fenece
A vida corre,
Então se apresse

Não sabe o que é amor
se soubesse não sofreria
se soubesse não se enganaria
se soubesse, amigo, não fugiria

Pensa que não sabe do que falo
Acha que não sei o que sente
Não se pergunte, não duvide
Ouça, e aceite

Porque um dia tudo há de passar
E o passado, então presente
Te causará lágrimas
Nem um pouco sofridas,
Afinal, saberá o que é amar

Deus sabe o que faz
Basta que o deixe fazer
O tempo que te corre, rapaz
É o mesmo que te fará morrer

O dia chegará
Para você e para mim
Não acumule amarguras
Podemos estar próximos do fim

Mas antes você conhecerá o amor
Viverá e aproveitará
Antes, amigo, você concordará
Que valeu a pena esquecer
E de verdade amar.

15 de julho de 2010

Os Sonhos

Eis que aquela caixa estava em cima de sua mesa, lacrada e cheia de coisas pra dizer.

Aquela que ele esperava nunca receber, que nunca quis, agora deveria ser aberta. Deveria ser rasgada e escancarar para ele seu conteúdo, suas entranhas. Um para o outro.

O cigarro já queimava sua mão e sujava o chão de cinzas. Ele apenas o acendeu e não tragou um vez sequer, apenas olhava para aquele pedaço de papelão. Fechado, frio, inflexível, e cheio. Até a borda.

Ele não abrira a caixa, mas sabia muito bem seu conteúdo. Era aquilo que ele vinha fugindo a muito tempo. Hoje ele tinha tudo o que sonhou. Mas não tinha a certeza de que os sonhos partiram de si.

Toda noite, toda manhã, toda tarde, ele se perguntava isso, quem moldou os meus sonhos? Afinal, quem sonhou? Quem conquistou?

Toda noite, toda manhã, toda tarde, ele não chegava a resposta alguma. O apartamento era silencioso, alto, espaçoso e confortável. O cristal da taça vazia a sua frente era o melhor. Tão bom que nem o refletia.

Que penso estar fazendo? Será uma maldita caixa que vai acabar com tudo? Tudo, tudo o que? Não tem fim, não tem começo, não tem eu, com os olhos fechados ele se recusava a olhar para a frente.

Passou um bom tempo assim, tempo que nem o relógio em seu pulso, mesmo sendo o mais preciso, saberia dizer, tempo que não fez sentido para ninguém, além dele. Tempo dele que dizia apenas para ele o que deveria fazer.

A taça, finalmente, refletia seu dono.

E quando ele abriu os olhos, se viu retirando o conteúdo da caixa.

Se viu tremendo. Se viu com medo. Se viu chorando.

Se viu.

7 de julho de 2010

Tudo Ótimo

As vezes penso que todo o tempo é tempo de menos. Paro pra pensar se tudo um dia vai acabar, e por tudo, quero dizer tudo mesmo, das árvores aos amores, dos shoppings centers as cachoeiras, tudo. Por isso que o tempo me parece curto. Pior, penso se  tudo não acabará antes para mim, porque, não acredito que morremos para o mundo, e sim o mundo que morre para nós, e mesmo que  tudo não se acabe,  tudo para o tudo,  tudo para mim um dia acabará. E sei que comparado ao tempo de tudo, ele acabará para mim relativamente rápido. Não só para mim, seria pretensão e um certo pessimismo acreditar nisso, tudo acaba rápido para todos e então penso se todos aproveitaram tudo. Acredito que não. Por isso que penso que todo o tempo, o tempo de tudo, do meu tudo, é tempo de menos. Penso em cada segundo que não fez sentido e acho que poderia ter dado um sentido a eles. Ao menos um sentido bom, aquele segundo que eu briguei sem querer, e aquele que quis brigar, até aquele segundo que desperdicei pensando em outro segundo desperdiçado.

Já aqueles que passei longe de você, esses me deixam triste.

No fundo, a discussão se resume a isso. Floreio um parágrafo inteiro com filosofias vãs para dizer que o que me entristece, que o meu arrependimento, é ter passado tempo sem você, longe de você, passado tempo sem te conhecer. Mas é claro que, do tempo que me foi dado, pouco se passou. Rápido, mas pouco.

E então, me alegro ao saber que ainda temos tudo pela frente.

2 de julho de 2010

Transcrição Sentimental

Escrevo isso sentado em um ponto de ônibus, acabei de sair de uma prova da faculdade e quero logo chegar em casa. É noite e faz um frio considerável, considerável também é minha dificuldade de escrever no escuro iluminado apenas por escassas luzes ao meu redor cujos efeitos minha própria sombra faz questão de minimizar.

Aliás, tal dificuldade sequer é justificada, não sei ao certo porque escrevo, acredito que é porque venhos transbordando sentimento e, de um jeito ou de outro, tenho que descarregá-lo.

Lembrei-me agora de outra vez que, para extravazar um pouco o sentimento, escrevi em um local inusitado. Embora o sentimento fosse totalmente diferente. Escrevi em um quarto de hospital, fui passar a manhã lá, também após fazer provas, com minha avó, e enquanto ela dormia, escrevi. Naquela ocasião, fim de ano (a partir daqui escrevo dentro do ônibus), de 2008, o sentimento era tristeza, angústia, frustração. Cerca de seis meses depois, quase um ano atrás, ela faleceu, e eu não escrevi sobre, por na época não conseguir, e porque pra mim falar o que quer que fosse soaria como uma espécie de oportunismo.

Naquela vez, falei sobre o tempo, frequentemente falo sobre o tempo, ele passa, corre, como esse ônibus.

Vou descer.

***

Estou em casa, ja jantei e ainda estou com a mesma calça velha, camiseta de pijama e camisa de brechó, roupa que usava no ponto de ônibus quando comecei a escrever isso, na televisão ligada a minha frente uma orquestra toca uma música, ou sinfonia, ou concerto, ou peça, seja o que for é inacabável e belo.

Recomecei este texto justamente por causa da orquestra, a música, que acabou agora, é inspiradora. Concerto nº2 para Piano em Fá Menor op. 21, de Chopin, a apresentadora acabou de dizer que foi isso que escutei. Foi bonito. Como dizia, foi inspirador. Acho que de um jeito ou de outro, vai me ajudar, neste texto sem sentido, a extravazar esse meu sentimento contido.

Eu falava, antes de descer do ônibus, do tempo, que corria como o próprio ônibus. Eu desci e aqui no meu sofá as músicas são intermináveis.

Ouvindo as canções eu me sinto bem, confesso que entendo pouco de música em geral e muito menos de música clássica, mas ainda assim, amo escutá-las (embora nem sempre, quase nunca, vá atrás). Amo a forma como o tempo não passa e como posso viajar enquanto as escuto. Não só viajar, antes de recomeçar a escrever eu entrei em contato com todos os sentimentos que transbordam, e isso é bom, muito bom.

Mas, afinal, quais são esses sentimentos? Pensando um pouco acho que posso reduzi-los a um só e, por sua vez, transformá-lo em um estado de espírito: amor.

Não só sinto amor, eu vivo amor (e é totalmente diferente, quando o amor transforma-se em um estado de espírito tudo pode dar errado porque você está bem, está amparado e, no fundo feliz. Uma felicidade verdadeira, que provêm, justamente, do amor). Um ano e seis meses atrás eu escrevia angustiado sobre o tempo, hoje eu escrevo com amor.

Com o último parágrafo comecei a terceira folha em meu caderno, acho pouco. Falei de amor, e por mais que escrevamos, sempre será puco para falar dele.

Amor, tempo, atualmente tudo o que escrevo é sobre isso. Amor e tempo, esse texto trata disso, o poema passado também, e o próximo texto, que ja esta escrito (foi escrito acho que domingo e seria publicado ainda essa semana, não fosse esse entrar na frente), também será.

Penso porque o tempo sempre habitou tanto os meus pensamentos. Deve ser porque eu finalmente me dei conta de que ele passa.

E por incrível que pareça, passa mais devagar as vezes, quando entro em contato com meus sentimentos, em contato profundo comigo mesmo e com todo o amor, ele parece passar mais devagar, as músicas da televisão parecem intermináveis.

No fundo, me pareceu agora que a vida é feita dessas duas opções: Você pode ficar no ônibus, relembrando a dor a angústia que sentia no passado enquanto o tempo passa veloz, ou deitar em seu sofá e escutar música clássica enquanto sente, a flor da pele, o amor, e o tempo então, passa devagar, torna-se seu aliado para que você desfrute de tudo o que ele tem a te oferecer.

Eu escolho a segunda opção, afinal, tudo o que quero é que o tempo passe o mais devagar possível, que seja eterno, quando estiver com amor.

Com o meu amor. Com ela.

***

Escrito na noite do dia 29 de Junho. As parte em itálico entre parênteses foram adicionadas agora, e o texto que escrevi no hospital é este.