11 de janeiro de 2012

O Prazer é Todo Meu

Como a lágrima que não consegue descer
E esse nó na garganta
Somos todos humanos, afinal
Somos todos aparência e mentira
Somos todos amor.

Fracos e inconsequentes
Nos matando por maneiras de fugir
Sábia ingratidão
Daqueles que não são bons, e querem mais - qualquer coisa.
Daqueles que não acham que respirar seja uma dádiva.

Foi um prazer te conhecer
E chocar nossas máscaras naquele beijo
E quando a minha cair
Por favor, não se assuste
Por mais que a imagem que eu vejo todo dia no espelho também não me convença
Só tenho medo da solidão.

Caminhamos todos de mãos dadas
Para a casa do Diabo
E ainda perdemos tempo nos preocupando em sermos o que não somos
Em sentirmos o que não existe - não em mim
Em chorar pelo que não merece - não você

Ontem, fiquei triste a toa
Triste por querer minha inocência de volta
Pena que ela tenha ficado
Na minha última atitude sincera, um bom tempo atrás.

Agora, já não sei quem sou
Não que faça diferença
Eu nunca soube mesmo - e tenho medo de saber.

9 de janeiro de 2012

Doce Amargor

Ao acordar, no fim da tarde, tudo o que ele conseguiu sentir foi desespero.

A luz do Sol entrava pela janela e deixava a casa, que não tinha nenhuma lâmpada acesa, com um clima melancólico e opressor, fazendo com que qualquer um se sentisse um invasor ali.

Ele não fazia a menor idéia de que horas eram, nem por quanto tinha dormido, sua cabeça doía e sua respiração era pesada.

Na falta de algo mais forte e destrutivo, resolveu preparar um café. Para isso, se aventurou pelo corredor escuro e claustrofóbico, tentando assimilar o que tinha acontecido nas ultimas horas, tentando justificar para si mesmo o que tinha dito, e minimizar o que tinha escutado.

E então, como uma antiga montanha ou um rio que nunca parou de correr, ela estava sentada na área da casa, olhando as primeiras estrelas aparecerem no céu e fumando vagarosamente seu cigarro, ele tentou ignorar o turbilhão de sensações que o afligiram e falar com o tom mais normal do mundo que “vou fazer um café, quer um pouco?”.

Não funcionou, e sua voz saiu rouca, baixa e deprimente. Ela também sussurrou algo que ele só identificou como um “não obrigado” por causa de seu movimento com a cabeça.

De qualquer maneira, ele preparou dois copos. Encheu um para si, e deixou o resto no bule.

Tinha sido um dia difícil. Uma manhã vagarosa, um almoço traiçoeiro e uma tarde impiedosa. O que ele queria era poder, naquele momento, dormir e acordar dez anos depois. Ou antes.

Se tivesse mesmo que acordar.

De qualquer maneira ele não conseguiu deixar de abrir um sorriso quando escutou o barulho do fogão sendo aceso e, instantes depois, alguém assoprando qualquer coisa.

Ele pode voltar a dormir em paz, ela tomou o melhor café de sua vida, sem um mísero grão de açúcar.

3 de janeiro de 2012

O Dia da Libertação

Terá um sorriso ainda alguma força?
Quando se matam por papel
E trocam papel por morte?

Onde quem mais tem mais pode
Onde quem pode tem o que quer
E quem quer não pode nada,
Um abraço vale de algo?

Um pôr do Sol
Ou incontáveis flores
De infinitas cores e indescritíveis aromas
Vão nos salvar de nossa furia quando seu irmão me matar?

E aquele cardume de peixes
Aquele pássaro tão talentoso
Com sua musica de melodia tão brilhante
E suas penas de tons tão únicos
Vão sobreviver quando enjoarmos deles?

Sangue derramado em nosso nome
Sacrificio jogado na nossa cara
Pão dormido com café fraco
Cheiro nauseante e almoço vagabundo
Noites em claro e lágrimas escondidas
Porres inconsequentes, desilusões
Contas no final do mês, pilulas mágicas com a formula da felicidade - conformismo
Auto enganação, auto mutilação, automóveis.
Vão nos salvar de algo?

O que nos resta
Se minha última gota de sanidade
Escorreu pela minha testa quando corri para pegar o onibus?
Quando a minha ultima alegria verdadeira
Vai ser jogada ao mar num ato infantil?
Se a felicidade está em liquidação
E ainda assim não temos dinheiro para comprar?

De que vai adiantar chegar no topo do monte mais alto
E apreciar toda a beleza do mundo
Se o Diabo não quer mais abrir mão dele?

Se eu posso morrer de fome
Se eu posso te matar antes
Se você pode me matar
Se nunca iremos nos conhecer
Se eu posso odiar
E ser odiado
Se você entrasse na minha casa,
sentasse no meu sofá e gritasse aos quatro cantos do mundo que é eu
Meu cachorro te abanaria o rabo
Minha mãe lhe ofereceria um café
Meu Deus te mandaria para o inferno
E eu estaria no meu quarto alheio a tudo.

E amanhã, quando eu acordar, estarei melhor
Vou pensar na criação do homem
E no que ele criou
E vou querer dormir de novo, e tentar não sonhar mais.

O que nos resta, afinal de contas?
Um beijo?
Festa de Ano Novo?
Fé?
Gasolina aditivada?
Amor?
É isso que vai nos ajudar?

O que colocará um fim nisso tudo?
Quem decide ate onde aguentaremos?
O que restou, agora no fim?
Um rio? Uma praia? Uma árvore ancestral?
Uma pintura na parede gélida de uma caverna?
Uma bandeira na lua?
Nós?
Deus, ou a Dow Jones?

2 de janeiro de 2012

Seleção de Elenco

(ou: Mais um Texto Para Chamar Atenção)

Dia desses, faz um pouco de tempo já, uma cena grudou na minha cabeça.

Só não espere nada emocionante, não vi alguém ajudando alguém, uma criança morrendo de fome na esquina, ou um gato confortavelmente deitado na barriga de um cachorro feroz com cara de feliz.

Pra variar um pouco, entrei no ônibus, que, também surpreendentemente, não tinha um santo lugar vago para remédio.

Pois bem, me acomodei confortavelmente em um canto do veículo, próximo de uma garota com, sei lá, uns dezesseis anos.

Ou uns vinte e cinco. É impossível saber a idade dessas meninas.

Seja como for, lá estava eu e lá estava ela. Mas não, não me apaixonei perdidamente ou algo do tipo, pra ser bem sincero, eu mal a olhei. O que me chamou a atenção, na verdade, foi um cara.

Um pouco mais novo (ou mais velho, né) que ela, ele entrou no ônibus e logo ativou o seu modo charmoso, parou exatamente ao seu lado e ficou a olhando de cima em baixo.

Não me pergunte que sentido isso faz, mas parecia fazer algum para ele.

Ela até esboçou algum sorriso, de satisfação ou constrangimento, e logo desceu. Eu também ri um pouco, da cara dele. Mas disfarçadamente para não apanhar.

Ele continuou lá com a pose, torcendo para que alguma outra garota perdida dentro do ônibus o achasse, no mínimo, interessante, levantasse de seu lugar e fosse lá sorrir para ele. Ele então diria para ela que estava voltando da academia, e passaria o seu facebook, eles conversariam um pouco por lá, marcariam um encontro, começariam uma história qualquer e, um mês e meio depois, iriam cada um para o seu canto, porque ele foi na casa de um amigo, sem avisar, e, coincidentemente, uma menina que ela não gostava estava por lá e, reza a lenda, ela até buscou uma cerveja para ele.

Bem, mas não foi isso o que aconteceu, como eu já disse, o máximo que ele conseguiu foi me fazer rir disfarçadamente.

Pouco tempo depois, chegou a hora do galã descer e, no mesmo ponto que ele, uma mulher, por volta dos quarenta anos, com uma criança no colo e umas sacolas na mão.

Do tipo que, definitivamente, não é a presa do bonitão.

Os dois foram ao mesmo tempo em direção a porta, ela se equilibrando de maneira quase sobrenatural com o moleque no colo e as sacolas cheias de chuchu e detergente, ele com uma das mãos no bolso e a outra deslizando sedutoramente pelos cabelos, com o olhar vago.

Quando chegaram na porta já aberta, com o ônibus já parado, o Don Juan quase atropelou a infeliz das sacolas, fazendo-a derrubar uns chuchus, e descendo de forma irresistível as escadas.

Bem, se eu não estivesse nessa história apenas como observador, e sim como personagem, eu, obviamente, não seria a garota cobiçada.

Não seria o galã, pois, infelizmente, sou feio (e tenho alguns neurônios), nem a mulher com o moleque e as sacolas. Também não seria o moleque.

Eu seria um dos chuchus esparramados, que devem estar naquela esquina até hoje.