17 de agosto de 2011

Processo

De tudo que já foi chamado, ou é considerado precioso, nunca vi algo mais digno de tal título do que o seu sorriso.

É estranho, as vezes passamos um bom tempo conversando, as vezes ficamos quietos, nos raros momentos que temos sozinhos, mas você quase nunca sorri.

E eu sou mal acostumado nesse aspecto, confortável onde as pessoas (sempre vivendo em festa, sabe-se lá do que ou para quem) sorriem para qualquer coisa, qualquer piada, sorriem até para aquilo que nem escutaram mas sentem que devem sorrir.

Todas as pessoas banalizam o sorriso. Você não.

E às vezes estamos só nós dois e, por uma besteira qualquer, seus olhos (que eu ainda não defini a cor, mas constatei que combinam, seja como for, com seu cabelo, que eu também não sabia a cor, lembra?), tão belos e, assim como você, misteriosos, se enchem de um brilho estranho.

É um brilho sincero, diferente do resto das pessoas que raramente o tem, e quando acontece, nunca é na mesma intensidade.

E me lembro quando esse brilho apareceu na vez em que você disse, encabulada, que tinham nos visto, foi quando mais me encantou.

E não apenas o brilho, mas toda você, com sua mania de de mexer a perna (não é frio, nem nervosismo, já aprendi!) e seus cigarros, um atrás do outro, conhecer você, de verdade, se bem que pouco, me encantou.

E tem esse brilho, raro, sincero, assim como tudo em você. E eu já o conheço, bem o suficiente para saber o que vem depois.

Um sorriso.

E ele me enche de alegria, realização quase egoísta, me sinto feliz, agraciado por ter arrancado um sorriso teu, seja como for, fazendo uma piada, tentando te deixar a vontade, ou após dar um beijo na tua testa, que aprendi que você gosta, e nunca vou esquecer.

É quando você sorri que me sinto mais feliz ao teu lado, quando percebo aquele brilho no teu olhar, e sei que, tão sincero quanto, o seu rosto vai me mostrar, sem exagero, o sorriso mais bonito que já vi.

Um sorriso de verdade.

16 de julho de 2011

Incurável

Ela entrou no quarto onde ele, distraído, mexia no computador.

Ficou parada, encostada na cômoda. Ele, pousou seu olhar nela e não soube o que falar, afinal, era uma desconhecida, encostada com ar arrogante em sua cômoda.

Ele não sabia se gritava, se puxava conversa, se rezava, saia correndo ou fingia que nada estava acontecendo.

Foi o que escolheu, desceu novamento os olhos para o computador, jurando a si mesmo que tudo não tinha passado de uma alucinação.

Concentrou-se novamente em seja lá o que for que estava fazendo, e já nem pensava mais na estranha aparição, até que, ao levantar novamente os olhos, ela ainda estava lá. O fitando, com os olhos fundos e chorosos.

“Sabe quantas noites mal dormidas eu tive por sua causa?”

Não, ele não sabia. Ele nunca tinha a visto.

“É claro que você não sabe, me trata como uma desconhecida agora. Mas sabe, acho que estou cansada."

Ele também, afinal, não estava bêbado, só podia ser cansaço. Até pensou em resmungar algo, mas achou melhor não. Nem conseguiria.

“Chega uma hora em que a gente desiste, sabe? Pra que continuar nisso? Olha aqui a minha situação, meia hora parada feito uma idiota na sua frente e você aí, fingindo que não me vê, concentrado nessa porra de computador, fazendo sabe o que. Tem tempo pra tudo, menos pra mim.”

Mentira, ele não tinha tempo pra nada, isso ele sabia. Mas, ainda ainda assim, continuou quieto.

“Vai ficar aí quieto?”

“Não quero falar com você! Não sei, tenho medo.”

“É pra ter medo mesmo. É pra ter medo, pelo menos mostra que tem um pouco de vergonha na cara.”

Ele estava se amaldiçoando por ter dado papo aquela alucinação. Aquele fantasma, ou ladra, louca, sequestradora, extraterrestre, vizinha, o que fosse!

“Você não vai fazer nada comigo, né?”

Sentiu-se impotente. Merecedor de qualquer coisa que ela dissesse que ele era. Por mais bizarra que a situação fosse, sabia que, no fundo, ela estava certa.

“Não, não vou.”

Silêncio. Ele pensou em voltar para o computador e esquecer tudo aquilo, mas sabia que agora tudo era muito mais que apenas uma alucinação, era algo sério.

“Quer dizer, pensando bem, vou fazer o que devia ter feito a muito tempo. Te deixar sozinho, não é isso que tanto aprecia, que tanto quer de uns dias pra cá? Ficar sozinho, você e essa merda de computador? Pois então, que fique! Cansei! Adeus!”

E saiu batendo a porta.

Ele olhou para o lado, e viu que não estava sozinho na foto que ficava no porta retratos ao lado do monitor.

Na foto.

12 de julho de 2011

Mais Ingratidão

Numa dessas noites meio quentes e meio frias, com muitas e poucas estrelas, onde ninguém sabe direito o que quer ou o que sente, uma melodia o envolvia.

Aquelas notas passavam dançando na sua frente, cortando o ar, criando cores enebriantes e obscuras, como a própria música.

Os sons pareciam vir de tempo longíquos, carregando todas as dores que já passaram por esta terra e, sem tentar minimizá-las ou algo do tipo, apenas as entendia.

E ele adorava.

Era naquela canção de dores e medos ancestrais que ele repousava as suas próprias.

Era através daquelas notas lentas e soturnas que ele compreendia cada lágrima que já havia descido pelo seu rosto, cada aperto no seu peito, e todas as dúvidas.

Naquela música, sentia saudade e remorso, saudade de coisas que nem ao menos vivera e de amores antigos, remorso pelo que, um dia, fez com eles.

E a dúvida, a vontade de mudar tudo, jogar tudo pro alto, o desconforto que sentia, e tinha o medo, tinha a pena.

Tristeza.

Mas a música acabou, e com o fim dela, o som dessa noite o invadiu.

Nos míseros segundos que semparam uma música de outra, ele escutou os barulhos de alguma festa. Música alta e risadas ainda mais, copos sendo cheios, pessoas dançando.

Ele não se importou, logo veio a outra música, e ela era ainda mais triste que a anterior.

***

Pois é.

4 de julho de 2011

Instantâneo

(Não aconteceu nessa ordem, nem com essas palavras, talvez nem tenha acontecido. É só uma história. Um sonho perdido num começo de madrugada)

Sabe que você me lembra uma antiga… Amiga? É engraçado isso. O vento passava cortante, assim como os carros, a fumaça dos cigarros deslizava no ar da madrugada com uma suavidade quase surpreendente, ia em direção à luz amarelada do poste em frente, e criava um efeito enebriante que, somado ao seu já alterado estado de consciência, o fazia falar qualquer coisa que lhe desse na telha, ela parecia, de certa forma, disposta a escutar. E isso é bom ou ruim? Ela fez essa pergunta clichê, mas não era culpa dela, é sempre o que passa na nossa mente nessas horas. Ele ficou um tempo em silêncio, observando a fumaça que subia enquanto tragava seu cigarro. Eu não sei. É bom lembrar dela, mas é doloroso, ao mesmo tempo. Ela não disse nada, olhava para o poste também, depois virou o rosto e apenas o olhou com seus olhos tão grandes e inquisidores, ele se sentiu desconfortável,  mas, entendeu subitamente do que falava. Acho que sei porque você me lembra ela. Não é fisicamente? Talvez até fosse, um pouco, ele parou para pensar na hora, os olhos, as maçãs do rosto, a cor da pele, eram até bastante parecidas, mas não era disso o que falava. Não, é outra coisa, é esse silêncio, sabe? Não. Quando falo algo, tanto você, quanto ela, ficam em silêncio, parece que sabem que existe algo a mais a ser dito, vocês me obrigam a falar tudo, não dá pra esconder nada, apenas com esse silêncio e esse olhar, tão interessado e, sei lá, parece que vocês querem extrair o máximo de mim, geralmente conseguem. Poxa, sério isso? Você sabe do que estou falando, né? Acho que não. Não é proposital? O que? O silêncio! Não, não é, mas acho que te entendo, achei legal isso. De certa forma é, mas as vezes chega a ser um exercício mental conversar contigo, mas eu gosto. Quem era essa sua amiga? Coisa antiga, lembro que quase apanhei por causa dela certa vez, sabe, no fundo eu sou besta mesmo, lembro que foi eu ficar com ela uma vez, e já pensei em namorar pra sempre e tudo o mais, mas eu era besta, molecão. Molecão quantos anos? Sei lá, era besteira, devia ter uns quatorze. Nossa, moleque mesmo. Pois é. O silêncio caiu sobre eles de novo, e eles não faziam idéia de quanto tempo já tinha se passado, ele jogou seu cigarro no chão, e o apagou com os pés. Você nem fumou o cigarro inteiro! Não gosto muito desse finalzinho, chegando no filtro, muito amargo. Ah, sei. Mas obrigado, mesmo assim. Oi? Pelo cigarro, eu digo. Ah, de nada. Agora ele se concentrava em observar a fumaça que ela expelia, tinha se encantado pelo efeito que ela criava no ar, por um momento esqueceu de tudo que estava acontecendo ali. Mas sabe… Foi ela quem cortou o silêncio dessa vez, Não quero que  esse fato limite as suas atitudes comigo. Isso deu um nó na cabeça dele, afinal, que diabos ela estava querendo dizer? Não, não limita em nada não, porque acha que isso aconteceria? Não sei. Eu não te lembro ninguém? Ele perguntou isso sabe-se lá porque, perguntou por perguntar. Lembra o Marcos. Ele tinha, de certa forma, medo que ela dissesse isso, Marcos era o ex dela, o cara que eles encontraram algumas horas antes e que ela disse que tinha vontade de beijar toda vez que olhava. Fisicamente? Ele sabia que se pareciam. Não sei, ele foi a decepção amorosa que eu te disse, eu sempre penso que, sei lá, sempre penso em ter alguém sabe? Queria que os caras que ficam comigo quisessem algo a mais. Sei como é. Por isso gosto de caras românticos. Acho que você ia gostar de mim então. Ele não fazia idéia do que estava fazendo, não sabia se queria algo com ela, sentia que ela queria algo com ele, não tinha certeza, mas parecia que, de certa maneira, ele tinha que levar aquilo a diante, ver no que iria dar, entender que maldito jogo ela estava jogando, se estivesse jogando algum. Queria entender o que se passava em sua mente, o que se passava na mente dela, nos corações, em tudo ao redor. Só não sabia como. O vento passou cortando e lhe trouxe uma nova estratégia, que ele não sabia se fazia sentido ou não, tentou deixar ela tomar a dianteira. Sabe, talvez alguma ações minhas fiquem limitadas sim. Porque? Porque, talvez, eu tenha medo de tomar certas atitudes com você que eu teria também te tomar com ela, por medo de me machucar, sobretudo depois da primeira vez que ficamos. Mas eu não sou ela. Foi enfática. Eu sei disso. Ele também. Mas ainda assim, sou meio bunda mole. Não acho. Porque não? Porque você nunca tomou atitude de bunda mole! Tipo quais? Ah, sei lá, você não é lerdo, não é preguiçoso, não é retardado, e até agora não precisou chegar em uma menina pra eu saber se você tem coragem ou não. Ele quis ter coragem naquela hora, mas não entendeu, pra variar, o que ela quis dizer com aquilo. E se ela só estava afim de conversar um pouco mesmo? Mas, que diabos, como foram parar nesse assunto então? Eu acredito no amor, ela falou, do nada, depois de apagar seu cigarro. É mesmo? É sim, embora tenha deixado de acreditar por um tempo. Porque? Se não for indiscreto perguntar. Por causa do Marcos. Ele sentia vontade de decifrá-la, mais do que qualquer coisa. Se lembrou que, tinham conversado a pouco, e ela lhe disse que existem pessoas que sentem prazer na depressão. Ele sabia que ela falava de si. Disse qualquer coisa, para tentar animá-la, quem sabe, não se lembrava se tinha conseguido. Agora eles estavam perdidos naquele jogo de gato e rato, que talvez nem existisse de fato, que talvez não passasse de fantasia da parte dele, geralmente era.

De qualquer maneira, ele entendeu que, o que pretendia, antes de qualquer coisa, era conhecê-la. Entender o prazer da depressão, entender aquele olhar que lhe trazia lembranças, que o desafiava e amedrontava, aquele coração conturbado, passado, solidão, o monte de fugas, essa frieza, esse ar inabalável. Aliás, não precisava entender, bastava conhecer, estava, de certa forma, fascinado. Naquele momento, queria lhe dar um abraço, e então, deixar acontecer o que tivesse que acontecer. Por mais que ele tivesse outros amores, queria também aquele.

Queria fazer com que ela se sentisse querida. Ele era mesmo besta, sabia disso, ingênuo, sempre acabava nisso de amar todo mundo, simpatizar com todo mundo, se preocupar e se interessar por todo mundo. Besta, bunda mole. O amor vale a pena, mesmo com todas as decepções, elas fazem parte, sabe? Se você não amar todas as vezes como se fosse a primeira vez mesmo, não é amar, quebrando a cara ou não, o amor é isso, entende? Ela disse que entendeu.

Ficou pensando em algum jeito de provar…