4 de julho de 2011

Instantâneo

(Não aconteceu nessa ordem, nem com essas palavras, talvez nem tenha acontecido. É só uma história. Um sonho perdido num começo de madrugada)

Sabe que você me lembra uma antiga… Amiga? É engraçado isso. O vento passava cortante, assim como os carros, a fumaça dos cigarros deslizava no ar da madrugada com uma suavidade quase surpreendente, ia em direção à luz amarelada do poste em frente, e criava um efeito enebriante que, somado ao seu já alterado estado de consciência, o fazia falar qualquer coisa que lhe desse na telha, ela parecia, de certa forma, disposta a escutar. E isso é bom ou ruim? Ela fez essa pergunta clichê, mas não era culpa dela, é sempre o que passa na nossa mente nessas horas. Ele ficou um tempo em silêncio, observando a fumaça que subia enquanto tragava seu cigarro. Eu não sei. É bom lembrar dela, mas é doloroso, ao mesmo tempo. Ela não disse nada, olhava para o poste também, depois virou o rosto e apenas o olhou com seus olhos tão grandes e inquisidores, ele se sentiu desconfortável,  mas, entendeu subitamente do que falava. Acho que sei porque você me lembra ela. Não é fisicamente? Talvez até fosse, um pouco, ele parou para pensar na hora, os olhos, as maçãs do rosto, a cor da pele, eram até bastante parecidas, mas não era disso o que falava. Não, é outra coisa, é esse silêncio, sabe? Não. Quando falo algo, tanto você, quanto ela, ficam em silêncio, parece que sabem que existe algo a mais a ser dito, vocês me obrigam a falar tudo, não dá pra esconder nada, apenas com esse silêncio e esse olhar, tão interessado e, sei lá, parece que vocês querem extrair o máximo de mim, geralmente conseguem. Poxa, sério isso? Você sabe do que estou falando, né? Acho que não. Não é proposital? O que? O silêncio! Não, não é, mas acho que te entendo, achei legal isso. De certa forma é, mas as vezes chega a ser um exercício mental conversar contigo, mas eu gosto. Quem era essa sua amiga? Coisa antiga, lembro que quase apanhei por causa dela certa vez, sabe, no fundo eu sou besta mesmo, lembro que foi eu ficar com ela uma vez, e já pensei em namorar pra sempre e tudo o mais, mas eu era besta, molecão. Molecão quantos anos? Sei lá, era besteira, devia ter uns quatorze. Nossa, moleque mesmo. Pois é. O silêncio caiu sobre eles de novo, e eles não faziam idéia de quanto tempo já tinha se passado, ele jogou seu cigarro no chão, e o apagou com os pés. Você nem fumou o cigarro inteiro! Não gosto muito desse finalzinho, chegando no filtro, muito amargo. Ah, sei. Mas obrigado, mesmo assim. Oi? Pelo cigarro, eu digo. Ah, de nada. Agora ele se concentrava em observar a fumaça que ela expelia, tinha se encantado pelo efeito que ela criava no ar, por um momento esqueceu de tudo que estava acontecendo ali. Mas sabe… Foi ela quem cortou o silêncio dessa vez, Não quero que  esse fato limite as suas atitudes comigo. Isso deu um nó na cabeça dele, afinal, que diabos ela estava querendo dizer? Não, não limita em nada não, porque acha que isso aconteceria? Não sei. Eu não te lembro ninguém? Ele perguntou isso sabe-se lá porque, perguntou por perguntar. Lembra o Marcos. Ele tinha, de certa forma, medo que ela dissesse isso, Marcos era o ex dela, o cara que eles encontraram algumas horas antes e que ela disse que tinha vontade de beijar toda vez que olhava. Fisicamente? Ele sabia que se pareciam. Não sei, ele foi a decepção amorosa que eu te disse, eu sempre penso que, sei lá, sempre penso em ter alguém sabe? Queria que os caras que ficam comigo quisessem algo a mais. Sei como é. Por isso gosto de caras românticos. Acho que você ia gostar de mim então. Ele não fazia idéia do que estava fazendo, não sabia se queria algo com ela, sentia que ela queria algo com ele, não tinha certeza, mas parecia que, de certa maneira, ele tinha que levar aquilo a diante, ver no que iria dar, entender que maldito jogo ela estava jogando, se estivesse jogando algum. Queria entender o que se passava em sua mente, o que se passava na mente dela, nos corações, em tudo ao redor. Só não sabia como. O vento passou cortando e lhe trouxe uma nova estratégia, que ele não sabia se fazia sentido ou não, tentou deixar ela tomar a dianteira. Sabe, talvez alguma ações minhas fiquem limitadas sim. Porque? Porque, talvez, eu tenha medo de tomar certas atitudes com você que eu teria também te tomar com ela, por medo de me machucar, sobretudo depois da primeira vez que ficamos. Mas eu não sou ela. Foi enfática. Eu sei disso. Ele também. Mas ainda assim, sou meio bunda mole. Não acho. Porque não? Porque você nunca tomou atitude de bunda mole! Tipo quais? Ah, sei lá, você não é lerdo, não é preguiçoso, não é retardado, e até agora não precisou chegar em uma menina pra eu saber se você tem coragem ou não. Ele quis ter coragem naquela hora, mas não entendeu, pra variar, o que ela quis dizer com aquilo. E se ela só estava afim de conversar um pouco mesmo? Mas, que diabos, como foram parar nesse assunto então? Eu acredito no amor, ela falou, do nada, depois de apagar seu cigarro. É mesmo? É sim, embora tenha deixado de acreditar por um tempo. Porque? Se não for indiscreto perguntar. Por causa do Marcos. Ele sentia vontade de decifrá-la, mais do que qualquer coisa. Se lembrou que, tinham conversado a pouco, e ela lhe disse que existem pessoas que sentem prazer na depressão. Ele sabia que ela falava de si. Disse qualquer coisa, para tentar animá-la, quem sabe, não se lembrava se tinha conseguido. Agora eles estavam perdidos naquele jogo de gato e rato, que talvez nem existisse de fato, que talvez não passasse de fantasia da parte dele, geralmente era.

De qualquer maneira, ele entendeu que, o que pretendia, antes de qualquer coisa, era conhecê-la. Entender o prazer da depressão, entender aquele olhar que lhe trazia lembranças, que o desafiava e amedrontava, aquele coração conturbado, passado, solidão, o monte de fugas, essa frieza, esse ar inabalável. Aliás, não precisava entender, bastava conhecer, estava, de certa forma, fascinado. Naquele momento, queria lhe dar um abraço, e então, deixar acontecer o que tivesse que acontecer. Por mais que ele tivesse outros amores, queria também aquele.

Queria fazer com que ela se sentisse querida. Ele era mesmo besta, sabia disso, ingênuo, sempre acabava nisso de amar todo mundo, simpatizar com todo mundo, se preocupar e se interessar por todo mundo. Besta, bunda mole. O amor vale a pena, mesmo com todas as decepções, elas fazem parte, sabe? Se você não amar todas as vezes como se fosse a primeira vez mesmo, não é amar, quebrando a cara ou não, o amor é isso, entende? Ela disse que entendeu.

Ficou pensando em algum jeito de provar…

3 comentários:

Gabriela P. disse...

Você tá invocado com o nome Marcos. :b

Ana disse...

O amor encanta no remanso.

Ana Andreolli disse...

acho incrivel quem consegue desprender assim, esperar oq acontece, minha ansiosidade nunca me deixou... sempre fui mto direta, acho q por isso fiquei muito tempo sozinha!