11 de outubro de 2010

Lar Doce Lar

Tento ir lá fora
E a fumaça não me deixa respirar
No escuro não vejo
O sangue que teima em me molhar
Ouço gritos longe
De ódio e de pavor
Sinto gosto de culpa
Que aumenta minha dor

O que fizeram com aquele homem?
Aquele que pedia dinheiro para o vício
No fundo, ele era sábio
Se entorpecia, e não via o precipício
Onde está seu filho
Que os deuses lhe deram pra cuidar?
Você preferiu fechar os olhos
E não vê-lo se afundar

Antigamente havia pássaros
Que sobre beleza cantavam
Hoje eu vejo serpentes
Que no fruto proibido se esbaldam
O que você fez com seu tempo
Que deveria ter de sobra?
Preferiu se massacrar e vendê-lo
Para sustentar essa droga

E a alegria no seu olhar
Aquela que sempre quis ver
Só vejo lentes negras
Esconde o choro que insiste em descer
Havia um campo verde
Onde se via o sol nascer
Agora está pintado de vermelho
E vimos a paz morrer

Ainda transformarão a bondade
Em algo que se pode comprar
O brinde será um pouco de amor
Para te incentivar a gastar
Mas como as coisas estão
Matéria prima vai ser dificil de achar
O preço será alto
E ninguém estará disposto a pagar.

24 de setembro de 2010

O Homem que Falava de Amor

Era um homem como aquele que você vê
Todo dia na esquina a beber
Passa apressado, olha e tenta esquecer
as vezes desvia pra que ele não fale com você.

Estava sentado como sempre na calçada
Vendo o futuro e não querendo acreditar
Era um louco para quem passasse ali
Um profeta para quem quisesse ouvir

Mas um dia enquanto falava de amor
Alguém parou para escutá-lo

E esse alguém que ouviu acreditou
E esse alguém para casa o levou.

Agora o homem estava assim como você
Cabelo cortado e sem a barba por fazer
Era mais jovem do que todos pensavam
Trabalhava e do seu passado não falavam.

E de tanto ignorar o que fazia
Se alguém falasse de amor nem ele ouvia
O profeta foi deixado de lado
Amaldiçoando o próprio passado

Mas um dia quando na antiga calçada passou
Ele parou, não aguentou e chorou

Outro estava la em seu lugar
Falando que o amor não pode acabar.

9 de setembro de 2010

Boa Noite

Com seus dias cada vez mais corridos, não era difícil ele perder a hora de qualquer coisa, às vezes perdia a hora até de perder a hora.

Ele também não ficava muito surpreso se algo, dessas coisas pequenas do dia a dia, desse errado. Ficava por vezes bem nervoso, mas acabava relevando.

Às vezes ele não almoçava direito, outras vezes a refeição desfavorecida era a janta. Era difícil ele se concentrar pra estudar, sempre uma ou outra discussão aparecia em casa, e o chuveiro tinha parado de esquentar como antes.

Além disso, ele perdia o ônibus e esquecia de entregar trabalhos, alguns bêbados, mendigos, ou mendigos bêbados pareciam o adorar, e sempre que ele decidia comprar um café ele já estava frio, fraco e doce.

Ele machucou o dedo cortando a unha, e a unha tocando violão, isso sem falar de umas cordas que arrebentaram sem motivo aparente e de sua pulseira de estimação ter simplesmente sumido.

Mas, toda noite, quando ele se deitava, esquecia tudo isso.

Toda noite, quando se deitava, ele adormecia olhando para a foto dela, e todos os problemas do mundo, aqueles que o atribulavam, ou que não lhe diziam respeito, todas as dores e dúvidas, as pequenas ou imensas tragédias, tudo simplesmente sumia, até a hora dele pegar no sono.

Porque era olhando a foto dela que ele percebia que valia a pena enfrentar tudo aquilo que enfrentava todo dia, que valia a pena passar por cima de qualquer coisa, afinal, a noite aquele sorriso lhe faria companhia, e tudo estaria em paz.

1 de setembro de 2010

Repeat

Anos depois, se preparavam para mudar de casa. Para uma maior, ou menor, com varanda, ou sem, não importa.

O que importa é que, organizando a mudança, eles abriram aqueles armários que ficam no canto de cima, aquela caixas que se escondem debaixo da cama e viram o que tinha dentro de cada uma, com nem tanta paciência, mas ainda assim, nada passou em branco.

Riram com fotos antigas, com aquelas roupas ridículas e, como era de se esperar, se perderam em lembranças, compartilhadas e particulares, algumas até inesperadas e indesejadas, mas bem sabe que essas são as mais teimosas, e eram as maiores responsáveis pelos olhares vagos.

Tentaram montar uma árvore de Natal, aquela do primeiro que passaram juntos, que ele sem querer deixou a estrela de vidro cair e quebrar, e os dois, querendo, brigaram por isso.

Mas a maior lembrança que a árvore de Natal trouxe não foi da briga, e sim da reconciliação, e trocaram um beijo rápido, com os olhos brilhando.

Então, abriram uma outra caixa, essa de sapatos, estava cheia de fitas cassete, algumas que trocaram, outras que ouviam no carro, e mais um tanto particulares. Escutaram algumas, cantarolaram e debocharam do gosto um do outro.

Até que ele colocou aquela fita, e quando a música começou ele parou, na verdade, o mundo parou para ele, e nada existia além daquela música e do filme que vinha com ela.

Fazia muito tempo que não à escutava, gostava muito daquela banda desconhecida mas, por causa da correria da vida, acabou esquecendo dela, até aquele momento. A música, dá época que se conheceram, da época de menino perdidamente apaixonado e sonhador falou com ele de uma maneira inesperada, trouxe de volta aromas, sabores e sensações, trouxe uma lembrança daquelas fortes, em que você se sente exatamente como se estivesse naquela época.

No meio da canção, quando o refrão começou, ele desabou em um choro forte, como não chorava desde à época que escutava aquela música.

Ela ficou olhando pra ele sem entender, não sabia se consolava, se o abraçava ou simplesmente olhava.

Foi ele então que, em meio as lágrimas, lançou o olhar para ela, vem aqui, ele a abraçou, e fechou os olhos, para terminar de escutar a canção assim.

Exatamente da maneira como a escutou pela primeira vez.