8 de setembro de 2011

Sigo o Som

Eram copos de plástico ferozmente disputados. Era uma música, não contestada por ninguém, indiscutivelmente boa, mesmo que mais da metade dos presentes nunca a tivesse escutado. Eram várias rodas, sobre vários assuntos, vários casais, vários cigarros, várias danças.

E ela.

Ele, em posse de um dos tão valiosos copos, podia jurar que tinha voltado no tempo e que ali, tanto tempo depois, dançava aquela que, incontáveis vezes, o tinha jogado de um abismo noite adentro, fazendo com que ele sentisse o vento passando cortante por sua face, o chão se aproximando furiosamente, e se esborrachasse em mais uma infindável queda.

Mas tanto tempo havia passado, e ele já não tinha mais certeza de nada. Mas podia ser ela, bem podia, com o peso de alguns anos, seu corpo já não tinha o mesmo frescor. Sua voz, que ele conseguiu distinguir rapidamente, continuava, de certa forma, a mesma, embora mais rouca, mais gasta.

Não era a voz que tantas vezes lhe ligou em momentos impróprios, o acordou no meio da madrugada, e que rompeu todos os limites do bom senso e do que é considerado sadio (tanto para as cordas vocais, quanto para os ouvidos alheios) quando uma borboleta qualquer aparecia.

Não era mais a voz que, um dia, falou que estava com outra pessoa, a mesma de sempre, mas que tudo ficaria bem.

E a sua risada, embora continuasse parecendo a de um pato, não tinha mais o tom tão espontâneo e divertido de outrora, sufocada pela musica alta e pelas vozes alheias, o que ele conseguiu ouvir foi um pequeno ruído, no fundo amargurado, um gemido, um suspiro, disfarçado de risada.

Mas ninguém que estava com ela percebeu, ninguém ali a conhecia tão bem como ele. Afinal, ele ainda tinha guardada, em uma caixa, a corrente que ela lhe deu, tirada de seu pescoço, ainda com seu perfume, naquela dia em que se encontraram casualmente na rua, e só se despediram dois dias depois, daquela época onde certas músicas ainda continham melodias definidas, certas conversas ainda podiam ser feitas, e o tempo, incrivelmente, era sempre favorável.

E, perdido nessas lembranças, ele passou por ela incontáveis vezes, tentando ter certeza, se fazer notado, aquela outra pessoa, a de sempre,  não estava com ela, ele não se surpreendeu, sabia que não daria certo mesmo, mas porque ela não voltou então? Ele aceitaria, sem ressentimentos, de braços abertos, apenas para poder ouvir aquelas musicas de novo.

E assim se passaram as horas da festa, assim uma música ótima foi trocada por outra excelente, até alguém trombar no rádio. Assim, os copos foram se tornando cada vez mais escassos, e, quando o Sol já anunciava o despertar daqueles que repousavam suas almas naquele ritual quase irracional de corpos e bebidas chacoalhantes, ele sentou ao seu lado, em um dos vários sofás espalhados pela casa, e simplesmente disse seu nome.

“Eu estava com medo de não ser mesmo você”.

E seus espíritos estão lá, abraçados, até agora. Pra sempre.

3 comentários:

Gabriela P. disse...

Que bonito! Mesmo, mesmo!


Ana Caroline disse...

Brisei.
Refleti.
Tantas verdades!

Ana disse...

É tarde pra ser sozinho...