19 de setembro de 2012

Na Contramão Rumo a Guiana Francesa

Estava sentado com um amigo para beber. Conversar, no caso, era consequência, uma vez que ele também nem era assim tão amigo meu.

Que seja, estava sentado com um conhecido aleatório qualquer para beber e repartir a conta, olhar as mulheres, esse tipo de coisa. Mas, e você bem sabe como é, após algumas garrafas um conhecido aleatório qualquer já vira um amigo do peito, e um amigo do peito é aquele que está sempre disposto a ouvir, dar conselhos, brigar contigo, virar o copo, bater ele na mesa, botar a mão no seu ombro e dizer com os olhos marejados que você sabe que eu te considero pra caralho! Você é meu irmão, velho, gosto pra caralho de você, mesmo!

Porém, antes disso, oriundo de algum covil de filosofia barata, ou da preguiça de pensamento mesmo, o meu mais novo melhor amigo veio com um papo qualquer de trilhar o próprio caminho, seguir o coração, só faltou falar pra eu ter fé em deus. Pois bem, justo eu, que não faço idéia de pra onde ir.

Eu estava sentado em um bar que eu não gosto, com um cara que eu mal conhecia e, confesso, nunca senti vontade de conhecer melhor e bêbado. Veja bem, se eu soubesse o que quero da vida, onde chegar, pra onde seguir, o que conquistar, nesse momento eu com certeza estaria correndo atrás desse objetivo, e não gastando um dinheiro que eu não tenho pra ouvir conselhos enlatados de uma pessoa aleatória.

Mas ele, e eu acredito que, coitado, cheio das boas intenções, continuava com o papo, mas existe alguma coisa que você deve gostar de fazer, cara! Sim, existe, eu respondi, gosto de dormir bem, mas também não consigo! E escrever? Aqueles textos que você escreve são legais pra caralho! E daí? Você vai me pagar pra eu continuar mantendo aquele blog de merda? E eu continuava, impiedosamente, esmagando os seus conselhos com a minha já tão treinada desesperança.

Porra cara, desisto! Vou lá fora fumar um cigarro.

E então eu estava sozinho na mesa. Pedi uma dose de cachaça, e estiquei minha perna na cadeira da frente, senti vontade de fumar também, mas deixei quieto, queria aproveitar um pouco o momento sozinho.

Seguir o meu caminho, fazer o que meu coração manda. Grande bosta. A única coisa que meu coração ainda manda eu fazer é buscar, ao menos, me manter vivo. Tudo o que eu queria é saber onde chegar, podia ser qualquer coisa medíocre mesmo, como eu queria ser como esses que se contentam em trabalhar o dia inteiro, só para poderem comprar um celular de ultima geração, parcelar um carro qualquer, andar na moda, sei lá, qualquer merda desse tipo, sabe? Mas, atualmente, até pra levantar da cama eu tenho precisado de uma força de vontade quase sobrenatural, quem dirá para comprar um iPhone!

Eu poderia ter uma namorada sem graça, eu até me enganaria, diria para ela e para mim mesmo que era amor, nós iríamos ao McDonald´s, ao restaurante japonês, ao cinema, as festas de família, eu pararia de fumar, só beberia em ocasiões especiais. Assistiria, todo domingo, o jogo com o pai dela, explicaria para ele quais são os meus planos para o próximo ano, abriria uma poupança para ir juntando uma grana para os móveis e a lua de mel.

Mas eu detesto trabalhar, o mundo que me desculpe, se for o caso, sou o menos digno dos homens e posso lidar muito bem com isso. Mais além, odeio compromissos de família, também odeio McDonald´s e, ainda mais, comida japonesa. Detesto carros, detesto celulares, e detesto, em sua maioria, pais. Nunca consegui juntar um centavo, aliás, nunca consegui fazer nada daquilo que me propus.

É isso. Eu era um monte de merda bêbada sentado com as pernas esticadas num bar qualquer, segurando a vontade de fumar para não ter que voltar a conversar com um coitado que, bem intencionado, queria me ajudar. Eu podia ir embora dali, mas também não teria para onde ir, pelo menos, bebendo, o tempo passa mais rápido e, quando eu deito minha cabeça no travesseiro, apago que chega a dar dó.

Vai ver eu preciso de um grande amor, alguém que chegue e me fale, hei, vamos para a Guiana Francesa viver de artesanato? E então eu, embriagado de amor e falta de perspectiva, embarcaria sem olhar para trás, de mãos dadas com o amor da minha vida, partiria rumo ao meu destino. Será que é isso que é fazer o que o coração manda? O meu coração? Esse pedaço de carne podre sem escrúpulos? Se for isso, o meu se abstém completamente de suas obrigações.

Minha companhia voltou, eu sorri para ele, quando sentou, apontei uma garota qualquer que passava por lá, ele fez alguns comentários obscenos, eu concordei e ri, ficamos um tempo em silêncio e eu bebi um gole da minha cerveja. Começou a ficar constrangedor, então olhei para ele, nos fundos dos seus olhos e disse que sabe o que preciso, cara? Um grande amor, uma porra de um grande amor para ir para a Guiana Francesa! Ah, ele respondeu, mas com uma daquela eu iria até pra puta que o pariu.

Abaixei a cabeça, cocei o queixo, olhei a cachaça na mesa, vi que ela me olhava, peguei o copo, virei, bati na mesa, coloquei a mão no ombro do meu amigo. Brigadão pelos toques, os conselhos aí! Sabe que te considero pra caralho, né velho? Depois, só fui embora. Seguir não o meu próprio caminho, não o caminho que meu coração manda.

Sei lá, só saí cambaleando e fui embora.

13 de setembro de 2012

As Revigorantes Auroras na Companhia de Sérgio Reis

Sempre tem o maldito momento onde eu resolvo procurar meu celular, descobrir a hora, e querer morrer.

É uma idiotice, sou carente, inseguro, medroso e, bem, e sei lá mais o que. Na verdade, não faz mesmo diferença. As horas passam no ritmo delas, às vezes, parecem correr, em outras, se arrastam, tudo bem, deixo para elas o comando do mundo, que passem no ritmo que bem entenderem, desde que me deixem em paz. Mas não deixam.

E os filmes vão só até a metade, os discos só até a terceira música, as conversas só até o esperado, os amores, abortados, as alegrias, passadas no cartão, a paz, enrolada em um guardanapo de papel, virando cinzas.

E as horas, devorando tudo. As horas passando, trazendo as estrelas, a Lua, com seu brilho cada vez mais fraco, e, depois, o Sol, impiedoso, magnânimo, soberbo, arrogante. Eu o vejo aparecer, praticamente todo santo dia pela janela, acordando os malditos pássaros que não calam o bico, e o filho da puta do vizinho, que não vê razão em sua vida se não tomar banho, as quinze pras seis da manhã, berrando alguma musica qualquer do, sei lá, do Sérgio Reis, eu acho.

E nessas horas, quando começa a cantoria, a desgraça da luz da manhã entra pela janela e o mundo acorda, com os olhos vermelhos, correndo atrás do ônibus, batendo o ponto, tomando um café fraco com pressa, pensando apenas nos minutos de cochilo que vai conseguir depois do almoço, é nessas horas em que eu coloco meus pés no chão, procuro meus chinelos e vou até a janela. O Sol queima minhas retinas, e sou acometido por um sentimento de impotência insuportável, lá se foi uma noite, e eu não fiz nada, lá vem mais um dia, e eu não farei nada.

Eu olho as horas, a noite está passando da metade para o final, eu ainda não sinto um pingo de sono, no computador, as mesmas coisas de sempre, coloco alguma música bem calma, viro para a parede, fecho os olhos, e me concentro na escuridão que, por milésimos de segundo eu vejo.

Infelizmente, mais uma vez, minha cabeça não para, quando dou por mim, já estou sentado na cama, encostado na parede, contemplando as roupas jogadas no chão, tentando pensar em algo que não doa, tentando lembrar de algum momento feliz, tentando não sentir vontade de chorar.

Mas as horas passam, e logo vem a manhã, logo vem os pássaros, e logo vem o maldito Sérgio Reis, me lembrando que, pelo menos, eu pude ouvir todas as músicas que gosto pelo menos umas três vezes cada durante a noite. Porque agora vem o dia, e, nele, essas manhãs desgraçadas costumam ser parte mais suportável.

9 de setembro de 2012

A Festa dos Libertos

Estão todos felizes
estão todos se divertindo
estão todos juntos
caminhando sem destino

Estão todos perdidos
na próxima esquina, o mal espera
na próxima vida, confusão
meio homem, meio cédula
mais uma quimera
danação

Estão todos enlouquecendo
estão todos sorrindo
estão todos prometendo
e das promessas, estão todos fugindo

A porta foi aberta
a sombra fresca não existe mais
as verdades incertas
nunca trarão paz

Os castelos demoronaram
as pinturas de protesto, desbotaram
as músicas perdaram a melodia
ecos distantes do que foram um dia

Estão todos felizes
estão todos em seus próprios caminhos
gozando com falsos amores
a noite, estão todos sozinhos

4 de setembro de 2012

Epitáfio ao Imortal

Esqueça as noites que passamos juntos
os sonhos que compartilhamos
esqueça as canções que fiz pra você
cada um dos nossos planos

Esqueça tudo aquilo que ainda tenta se lembrar
com um pouco, o mínimo, de compaixão
esqueça os sentimentos bonitos
e lembre-se do meu não

Esqueça todos os filmes que viu abraçada a mim
esqueça as nossas músicas
esqueça as juras que me fez
que eu te lembrarei das minhas dúvidas

Lembre-se da minha indiferença
e da minha insegurança
lembre-se das mentiras
da minha mudança

Lembre-se de tudo que um dia quis esquecer
achando que assim seria sempre minha
lembre-se das lágrimas que te fiz derramar
e esqueça a minha companhia

Lembre-se das cenas que não queria ter visto
lembre-se da dor que teimava em não ceder
lembre-se de seus novos amores
que não me esquecerei de você

***

Escrito coisa de um ano atrás, em um pequeno caderno que, até então, pensei estar perdido. Pois bem, não há hora melhor para publicá-lo.