1 de outubro de 2014

Toda a Literatura Existente Em Gotas de Chuva as Seis da Manhã



Seis da manhã eu despertei. Não lembro ao certo meus sonhos, mas despertei como quem dormiu por muitas horas a fio, como quem dormiu sem descanso. Demorei um pouco para perceber que, de fato, havia acordado, só então abri os olhos. As paredes sujas do meu lado continuavam sujas, minha gata ao pé da cama roncava discretamente, dois copos sujos de café e uma lata de cerveja vazia descansavam na cabeceira. Para além das janelas talvez chovesse, chuva em si, não sei, o que sei é que, com certeza, uma gota ou outra caía, já há dois dias que é assim. A sensação de acordar as seis de uma manhã chuvosa, sem ter motivo algum para isso, confesso, não é das melhores. Dias de chuva, é bem sabido, foram feitos para dormir. Dormir e comer. Acordar de sonhos desconhecidos não é bem o ideal. Que seja.
Acordei com uma historia na cabeça, pensei em contá-la, já faz tempo que não conto uma. Mentira, não era bem uma historia, com começomeioefim, diálogos, blábláblá, dois pontos e travessão, essas bobeiras. Era a imagem de um momento, um abraço, talvez, um beijo, um olhar, um sorriso. Uma dessas pieguices quaisquer que aparecem quando menos esperamos e acreditamos que merecer ser contadas.
A minha historia, meu momento matinal, não passava mesmo, de um olhar. Noite, talvez chuvosa como a manhã em que fui acometido, imagino os vidros do ônibus molhados, embaçados. Sim, definitivamente uma noite chuvosa. Mas, nesse momento, a chuva é fina e quase insignificante. Alguém desce do ônibus. Talvez jovem, ou velho demais, não importa, afinal, o que é corpo e o que é espírito aqui está fundido e não faz tanta diferença. Alguém desce, e caminha coisa de três, quatro passos, desvia de uma poça, e lança então um olhar certeiro para uma janela bem especifica do ônibus que já começa a dobrar a esquina.
Quando o ônibus quase termina a curva, é que, finalmente, começa a historia. Antes era só contexto. A chuva, os três ou quatro paços, o desvio da poça. Quando o alguém levanta o olhar, e encontra, infalível, seu alvo, é que vem realmente o que quero contar. Dois olhares se cruzam, então. Um, na rua molhada iluminado pela luz amarelo-doença dos postes. O outro, dentro do ônibus, tímido. Um olhar que queria, antes de tudo, demonstrar que não está ali. Porém, o vidro embaçado com suas charmosas gotas não dá conta de camuflá-lo. O outro olhar está sim, ali, e não há nesse mundo nada que o esconda. E quando olhares se cruzam, e você com certeza já passou por isso e sabe o que digo, não importa a distancia. Quando olhares se cruzam, todos os detalhes dos outros olhos aparecem. São como se vistos de perto. O tempo para, o foco se mantém, eternamente, ali. E é tudo o que importa.
A narrativa então, se encaminharia para o final. O ápice. O tímido olhar, de dentro do ônibus, ao perceber que não conseguira se esconder, ao perceber que, fazendo do seu observador refém, se torna, também, cativo, deixa escapar um sorriso. Tão eterno quanto a troca de olhares. O ônibus termina a curva, segue seu rumo. Os letreiros sobem acompanhados de uma musica instrumental.
Eis aí o que poderia ser um belo conto para ficar perdido pela eternidade. Sumariamente, e com razão, ignorado pela humanidade. Um conto piegas sobre olhares trocados. A grandeza está na simplicidade, blábláblá. Concordo. Mas sobre isso já muito foi dito. Eis aí, então, a imagem que me arrebatou assim que abri os olhos injustificadamente as seis de uma manhã chuvosa.
Porém, contos que nasceram esquecidos, oriundos de uma imagem-sonho, não fazem jus a realidade. Um breve momento narrado poeticamente pode ser bonito mas, por mais que pareça ter um fim em si mesmo, jamais terá. Cada momento é, sempre, o começo de mais um. Não existe roteiro que termine de fato. A troca de olhares, o sorriso tímido, são, ainda, o começo de mais uma historia.
A vida é assim, nunca sabemos quando uma historia vai ou não começar, mas podemos decidir quando as daremos por terminadas.
E podemos, também, escolhermos aquelas que iremos contando, dia a dia, para o resto de nossas vidas.

Um comentário:

quaresma. disse...

caraio, que saudade eu estava de ler seus textos. a vida deu uns giros tão loucos, né? e ainda sim tu mantém essa forma enfeitiçadora de escrever.
na esperança de mais contos assim, mesmo que sem meio ou fim.

beijas, Miné.