3 de maio de 2014

Até que a Morte Me Separe

Tem criança por aí que se mata. Me falaram um dia. Morre, vai embora. Se joga da escada, dá um jeito de se enforcar, esfaqueia o pescoço, sei lá. Se mata. Morre. Criança.
Não estou falando do seu sexo mal feito, do seu amor não correspondido ou da merda da TIM que nunca funciona. Veja bem, tem criança por aí, que se mata.
Me sinto casado, o marido mentiroso que, por mentir mal, acaba tendo que dormir na sala, no sofá amarelo, presente de casamento de um padrinho qualquer. Embolado nas cobertas velhas, com a cara no vão do encosto, respirando ácaros e com cachorro querendo roubar meu espaço. O júri foi unânime, culpado.
Me sinto casado. Com a vida. Que me joga no sofá sem um travesseiro decente. Na manhã seguinte ela vai levantar como quem não quer nada e andar na minha frente com o bebê no colo, cadê o papai? Por que o papai não dormiu hoje com a gente? Será porque é um mentiroso safado e a mamãe não quer esse tipo de influencia para você? Eu levanto, tropeço na coberta que caiu, ando até o banheiro e torço para a lamina de barbear fatiar a minha jugular.
Um marido infiel. Ou quase. Infidelidade sempre foi uma coisa que me perseguiu mas, nesse caso, é um pouco mais complicado. Por mais que sinta saudade de acordar num apartamento qualquer com alguém falando em bom português, sobre o namorado que ficou na França e emendando algo em francês que nunca entenderei, fica difícil. Trair a vida. Meio complicado. Mas dá vontade.
Sobrevivo ao barbear, tento fazer um café, o bebê ainda está no colo, ela não olha nos meus olhos. Tento puxar um assunto qualquer, me passa o açúcar, olha que beleza, o pão está quentinho. Não funciona. Ela serve aquela meleca de sempre pra criança, ainda falando para ela coisas como, é triste que você nunca vá ter um pai de verdade mas eu farei o possível para você ser feliz e não fazer um monte de escolhas erradas como eu.
A vida é cruel.
Anda tudo tão sem graça. Ainda espero que algo aconteça, acho que perdi, em algum momento, alguma grande oportunidade e ainda não me dei conta. Mas já me arrependo. Ainda espero que algo aconteça. Com um vestido laranja, olhar desafiador. Esses dias estava lendo sobre um país que vai afundar. Um monte de ilhas, não sobrará nenhuma em poucos anos. Esqueci o nome do lugar, mas a historia é muito triste. Queria ir para lá antes daquilo tudo sumir. É o fim do mundo, diria a minha avó. Queria ver o fim do mundo com alguém de olhar desafiador usando um vestido laranja. Gosto de laranja.
Então explodo, bato na mesa, jogo o copo com café na parede e grito uns palavrões. Ela se assusta e esquece o bebê sentado na sua cadeirinha estúpida chorando alucinadamente enquanto devolve meus impropérios em dobro. Saio, mas volto e lanço uma frase de efeito. Ela grita mais alguma coisa. O bebê continua chorando, cada vez mais alto. Bato a porta da frente, esqueço o portão aberto e vou para um lugar qualquer tentar ficar bêbado. Ela liga para a mãe e conta que está tudo cada vez mais insuportável. A criança ainda chora.
E é assim, ou você morre enquanto a vida cuida de você, ou vive o suficiente para aguentar as cobranças dela. Tem criança por aí que se mata.

***

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Um comentário:

Carla Soares disse...

Pronto! Depois desse texto já posso confessar que virei fã. Adorei teu jeito de escrever.