Tem criança por aí que se mata. Me falaram um dia. Morre, vai embora. Se
joga da escada, dá um jeito de se enforcar, esfaqueia o pescoço, sei
lá. Se mata. Morre. Criança.
Não estou falando do seu sexo mal
feito, do seu amor não correspondido ou da merda da TIM que nunca
funciona. Veja bem, tem criança por aí, que se mata.
Me sinto
casado, o marido mentiroso que, por mentir mal, acaba tendo que dormir
na sala, no sofá amarelo, presente de casamento de um padrinho qualquer.
Embolado nas cobertas velhas, com a cara no vão do encosto, respirando
ácaros e com cachorro querendo roubar meu espaço. O júri foi unânime,
culpado.
Me sinto casado. Com a vida. Que me joga no sofá sem um
travesseiro decente. Na manhã seguinte ela vai levantar como quem não
quer nada e andar na minha frente com o bebê no colo, cadê o papai? Por
que o papai não dormiu hoje com a gente? Será porque é um mentiroso
safado e a mamãe não quer esse tipo de influencia para você? Eu levanto,
tropeço na coberta que caiu, ando até o banheiro e torço para a lamina
de barbear fatiar a minha jugular.
Um marido infiel. Ou quase.
Infidelidade sempre foi uma coisa que me perseguiu mas, nesse caso, é um
pouco mais complicado. Por mais que sinta saudade de acordar num
apartamento qualquer com alguém falando em bom português, sobre o
namorado que ficou na França e emendando algo em francês que nunca
entenderei, fica difícil. Trair a vida. Meio complicado. Mas dá vontade.
Sobrevivo ao barbear, tento fazer um café, o bebê ainda está no colo,
ela não olha nos meus olhos. Tento puxar um assunto qualquer, me passa o
açúcar, olha que beleza, o pão está quentinho. Não funciona. Ela serve
aquela meleca de sempre pra criança, ainda falando para ela coisas como,
é triste que você nunca vá ter um pai de verdade mas eu farei o
possível para você ser feliz e não fazer um monte de escolhas erradas
como eu.
A vida é cruel.
Anda tudo tão sem graça. Ainda espero
que algo aconteça, acho que perdi, em algum momento, alguma grande
oportunidade e ainda não me dei conta. Mas já me arrependo. Ainda espero
que algo aconteça. Com um vestido laranja, olhar desafiador. Esses dias
estava lendo sobre um país que vai afundar. Um monte de ilhas, não
sobrará nenhuma em poucos anos. Esqueci o nome do lugar, mas a historia é
muito triste. Queria ir para lá antes daquilo tudo sumir. É o fim do
mundo, diria a minha avó. Queria ver o fim do mundo com alguém de olhar
desafiador usando um vestido laranja. Gosto de laranja.
Então
explodo, bato na mesa, jogo o copo com café na parede e grito uns
palavrões. Ela se assusta e esquece o bebê sentado na sua cadeirinha
estúpida chorando alucinadamente enquanto devolve meus impropérios em
dobro. Saio, mas volto e lanço uma frase de efeito. Ela grita mais
alguma coisa. O bebê continua chorando, cada vez mais alto. Bato a porta
da frente, esqueço o portão aberto e vou para um lugar qualquer tentar
ficar bêbado. Ela liga para a mãe e conta que está tudo cada vez mais
insuportável. A criança ainda chora.
E é assim, ou você morre
enquanto a vida cuida de você, ou vive o suficiente para aguentar as
cobranças dela. Tem criança por aí que se mata.
***
curta a tal página no facebook e faça uma criança feliz nesse natal.
3 de maio de 2014
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Um comentário:
Pronto! Depois desse texto já posso confessar que virei fã. Adorei teu jeito de escrever.
Postar um comentário